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Luxemburgo. Doença pós-covid está a surgir em crianças e pode ser grave
Sociedade 6 min. 22.03.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo. Doença pós-covid está a surgir em crianças e pode ser grave

Luxemburgo. Doença pós-covid está a surgir em crianças e pode ser grave

Sociedade 6 min. 22.03.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo. Doença pós-covid está a surgir em crianças e pode ser grave

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Na Kannerklinik estiveram hospitalizados menos de dez menores devido a inflamações que apareceram semanas após a infeção. Nos cuidados intensivos de um hospital de Lisboa estiveram internadas dez crianças. Duas pediatras dos dois países explicam esta estranha síndrome.

Há crianças e jovens que estão a ficar doentes com complicações sérias três a quatro semanas após estarem recuperados da infeção pelo vírus da covid-19. Algumas dessas complicações, nomeadamente, as que afetam o coração são graves e necessitam de internamento nos cuidados intensivos. Os casos são raros mas podem ser perigosos.

Luxemburgo e Portugal têm casos registados assim como o resto da Europa, e duas pediatras de ambos os países explicam ao Contacto a razão desta estranha síndrome pós-covid que dá pelo nome médico da síndrome inflamatória multissistémica pediátrica (MIS-C). Uma doença rara que pode causar múltiplas inflamações no organismo, ou seja, pode afetar ao mesmo tempo vários órgãos como o aparelho gastrointestinal, coração, pulmões, rins, olhos ou a pele.  E que surge em menores (e jovens adultos) que já estiveram infetados pelo SARS-CoV-2 e foram dados como recuperados.

À Clinica Pediátrica Kannerklinik, no Luxemburgo, e à pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, têm chegado crianças e adolescentes com febres altas que duram há vários dias, ou diarreias e fortes dores abdominais, mal-estar, prostração, ou manchas na pele ou risco de complicações cardíacas, como dilatação coronária (semelhante à doença de Kawasaki, mas com descompensação mais frequente). Este é o quadro clínico dos sintomas da MIS-C traçado por Isabel De La Fuente, pediatra especialista em infeciologia, da Clínica Pediátrica Kannerklinik, no Luxemburgo, e Cristina Camilo, pediatra dos cuidados intensivos Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Descobre-se infeção prévia

No hospital, a todos estes menores é feito um teste PCR, que no seu caso dá negativo, pois já contraíram a infeção. "A seguir é feita uma análise serológica e o resultado indica que já estiveram infetados com o SARS-CoV-2. Na maioria das vezes é então que as crianças e muitos adolescentes descobrem que já tiveram covid, porque nestas faixas etárias grande parte são assintomáticos", explica Cristina Camilo, pediatra intensivista portuguesa.

No Luxemburgo, sucedia o mesmo até setembro do ano passado. "De facto, a maioria das crianças não teve sintomas, ou foram raros, quando estiveram infetadas previamente, mas a partir de setembro, todas as que foram contaminadas passaram a ter conhecimento da sua infeção", declarou Isabel De La Fuente, pediatra da Kannerklinik. Isto porque no Luxemburgo "fazemos muitos testes PCR, incluindo a crianças e mesmo que estas estejam assintomáticas, por isso, penso que a nossa situação é provavelmente um pouco distinta da dos outros países", adiantou a especialista luxemburguesa.

Contudo, os procedimentos hospitalares são idênticos aos de Portugal. "Uma vez que as crianças têm poucos sintomas da infeção (provavelmente até 50% são assintomáticas), a infeção inicial pode passar despercebida. Assim, mesmo na ausência de infeção conhecida suspeitamos do MIS-C com base em critérios clínicos, e também fazemos a serologia SARS-CoV-2 para procurar infeções prévias desconhecidas", especifica Isabel De La Fuente (foto em baixo).

A clínica pediátrica do Luxemburgo registou, até agora, menos de uma dezena de casos desta estranha doença, alguns menores ficaram internados, ao passo que nos cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria já estiveram internados 10 menores com inflamações graves causadas por esta síndrome pós-covid.

Poucos casos no Luxemburgo

Quanto tempo depois de estarem recuperados da infeção é que surgem os sintomas desta síndrome pós-covid que faz os pais a levar os filhos ao hospital? "O mais frequente é as complicações aparecerem entre 3 a 4 semanas depois", respondem as pediatras.

Na Kannerklinik os primeiros casos surgiram em março, início de abril de 2020, aquando da primeira vaga da epidemia, e até agora "tivemos um pequeno número de casos, contabilizando-se menos de uma dezena de internamentos". "Alguns deles exigiram uma curta estadia nos cuidados intensivos. As complicações respiratórias graves são raras", realça Isabel De La Fuente. 

Por seu turno, Kerstin Wagner, pediatra cardiologista também na Kannerklinik refere ao Contacto que 2desde os primeiros casos na primavera de 2020 nunca mais tivemos complicações cardíacas graves entre as nossas crianças com o síndrome pós-covid MIS-C, que é muito, muito pouco frequente". "A nossa experiência no Luxemburgo é muito tranquilizadora", frisa Kerstin Wagner.

 "Além de ser uma doença rara, no Luxemburgo o MIS-C afetou menos de um menor em cada 1000 crianças infetadas com covid", especificou Isabel De La Fuente.


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Entre os 8 e os 17 anos

Este síndrome pós-covid afeta sobretudo crianças entre os 8 e os 17 anos, diz a pediatra intensivista do Hospital de Santa Maria. Mas é nos adolescentes e jovens que surgem as complicações cardíacas que podem necessitar de internamento nas unidades de cuidados intensivos. "Isto porque a inflamação faz com que o coração trabalhe pior ou a pressão arterial fique fraca ao ponto de o coração não conseguir bombear o sangue normalmente", diz Cristina Camilo.

Na pediatria do Hospital de Santa Maria, os primeiros casos surgiram em surgiram abril e maio do ano passado, depois no final do ano e mais casos em fevereiro e março, estes depois do pico de infeções de dezembro e janeiro. 

Como se desenvolve esta síndrome?

"Trata-se uma complicação pós-infeção, onde já não é o vírus em si que causa danos no organismo, mas sim uma reação inadequada do sistema imunitário" de quem já esteve infetado, explica Isabel De La Fuente. A pediatra Cristina Camilo (na foto à esquerda) complementa a explicação. "É muito curioso porque é uma resposta exagerada imunológica do organismo contra os anticorpos que o vírus criou, uma espécie de auto-anticorpos".


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 "Um bom sinal é que os menores respondem muito bem ao tratamento imunomodulador e, até à data, todos os nossos casos evoluíram bem", refere, por seu lado, a pediatra da Kannerklinik. Esta medicação destina-se a diminuir a resposta inflamatória que a síndrome pós-covid causou, ou seja, é dirigida a esta complicação após a infeção e não ao vírus da covid, frisa Cristina Camilo.

Alerta aos pais

"Todas as crianças e adolescentes que tivemos internados eram saudáveis até surgirem as complicações causadas por esta síndrome pós-covid", conta Cristina Camilo. "Até agora estão quase todos recuperados, mas neste momento ainda não conseguimos garantir que não fiquem com sequelas", diz.

Os pediatras de Santa Maria estão a alertar os colegas de hospitais mais pequenos e dos centros de saúde para os sintomas da MIS-C para que "façam uma avaliação analítica" dos menores que surjam com febre e diarreias e nos casos necessários serem encaminhados para os serviços de cardiologia pediátrica.


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Também aos pais, esta pediatra intensivista deixa o alerta. Se os filhos tiverem de repente febres altas, dor abdominal, vómitos, diarreia, estiverem prostados, devem telefonar para a Saúde 24 (para quem resida em Portugal) pois podem ser sintomas pós-covid. "Se souberem que os filhos estiveram já infetados é mais fácil relacionar, mas se os pais não souberem podem não relacionar. É preciso estar atento, porque se houve atingimento cardíaco é preciso ir para os cuidados intensivos", refere esta especialista.

Tanto esta pediatra portuguesa como Isabel De La Fuente e a comunidade médica ainda não conseguem explicar o aparecimento desta doença após a infeção da covid. Além de não haver ainda tempo suficiente para ser estudada, o facto de ser uma síndrome rara dificulta mais a obtenção de respostas.

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