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Lutar a partir do sofá
Editorial Sociedade 5 min. 14.11.2020

Lutar a partir do sofá

Lutar a partir do sofá

Foto: DR
Editorial Sociedade 5 min. 14.11.2020

Lutar a partir do sofá

Jessica LOPES
Jessica LOPES
Sabemos que um click no Facebook não mete fim a uma guerra armada do outro lado do mundo e que as doenças crónicas não têm em conta o número de hashtags virais que condenam a sua existência. Mas também temos que aprender a pensar estrategicamente como usar a internet. Uma crónica de Jessica Lopes.

“Tendo em conta a recente evolução da situação sanitária, tivemos infelizmente de tomar a decisão de cancelar a marcha de solidariedade deste ano.”, comunica o Conselho Nacional das Mulheres do Luxemburgo (CNFL), cancelando assim a tradicional manifestação que acontece todos os anos a propósito do Dia Internacional contra a Violência contra as Mulheres e as Raparigas. No entanto, a organização chama à participação numa campanha online e aconselha fazer uma selfie com a máscara da campanha ou escrever uma mensagem, à escolha de cada pessoa, apelando à ação para combater a violência contra as mulheres e raparigas e colocá-la nas redes sociais no dia 25 de novembro.

Sinto uma mistura de emoções. Por um lado, tento ser razoável e ter em mente a gravidade da situação sanitária, e por outro outro lado, sinto uma grande injustiça. Todos os dias vou trabalhar. No sindicato há dias em que vejo dezenas de trabalhadores e trabalhadoras, tenho várias reuniões, vou para as empresas, falo com as mulheres que trabalham nas limpezas. Muitas vão trabalhar de autocarro ou comboio e os filhos vão para a escola. Falo com quem trabalha na restauração e serve pessoas o dia inteiro. E uma marcha que se realiza no exterior, onde manter o distanciamento físico adequado é facilmente realizável, é cancelada?

É um pouco como se existisse uma separação entre as atividades essenciais, as que permitem de manter um máximo de “normalidade”, como diz o nosso primeiro-ministro, e as atividades não essenciais, entre quais infelizmente parece estar uma marcha contra a violência feita a mulheres e raparigas. Por que é que a organização terá tomado essa decisão? Por medo serem consideradas irresponsáveis? Talvez.

No meu trabalho, também sinto cada vez mais reticências, por causa das consequências da crise sanitária, mas não posso ignorar que, com a desculpa da crise, são atacadas as nossas conquistas sociais todos os dias: várias empresas já começaram a despedir, a maioria dos empregadores recusa-se em negociar melhorias para quem trabalha e os abusos laborais são cada vez mais frequentes. No entanto, simples atividades sindicais como a distribuição de panfletos tornam-se cada vez mais difíceis.

Costumava ser critica dos “ativistas de sofá” (armchair activists), mas em 2020, ficamos quase todos presos no sofá. O ativismo de sofá é uma forma de expressar a opinião sobre uma determinada causa sem sair à rua e arriscar o trabalho fazendo greve. É o hashtag viral #Blacklivesmatter. A fita cor-de-rosa na roupa para sensibilizar sobre o tema do cancro da mama. É a moldura arco-íris na foto do Facebook.  Ou a petição “Stop as expulsões" que assinou na semana passada.

É claro que fazemos estas coisas com a melhor das intenções,  até porque neste momento não temos muitas outras possibilidades. Mas será este um tipo de ativismo válido? Ou será apenas uma forma de aliviar a nossa consciência sem ter de assumir um verdadeiro compromisso?

Em geral, o ativismo de sofá tem uma reputação duvidosa. Os críticos argumentam que não conduz a uma mudança real no terreno e simplifica excessivamente problemas complexos. Partilhar uma ligação ou assinar uma petição é fácil, mas também permite desvincular-se da causa dez segundos depois. No fundo, sabemos que um click no Facebook não mete fim a uma guerra armada do outro lado do mundo e que as doenças crónicas não têm em conta o número de hashtags virais que condenam a sua existência. O ativismo de sofá até pode ser importante para dar visibilidade a um assunto, mas as palavras não são suficientes se não forem acompanhadas de ações concretas.

É verdade que do ativismo online também nasceram muitos movimentos globais como por exemplo o movimento #Blacklivesmatter. Começou como um hashtag viral para denunciar a violência policial contra os negros, mas atravessou rapidamente as fronteiras da Internet. Mais recentemente as ativistas por trás das manifestações de massa na Polonia #strajkkobiet, também ganharam em visibilidade internacional com a sua luta contra a proibição do aborto em casos de má formação do feto usando, em primeiro lugar, as redes sociais como ferramenta para fazer campanha.

Para muitos movimentos pré-covid, o desafio foi de passar dum ativismo de rua para a ação em linha. Em Hong Kong, os ativistas têm utilizado o popular jogo online "Animal Crossing" para difundir mensagens pró-democracia. Na India, enquanto na pré-pandemia, protestos contra a nova lei da nacionalidade julgada anti-muçulmana tiveram um grande impacto por terem uma forte presença na rua, o movimento transformou-se hoje em debates e conferencias nas redes sociais.

No entanto, mais do que simplesmente não ser autossuficiente, o ativismo em linha prejudica os movimentos de forma, mais violenta, em países com regimes repressivos. Muitos desses países controlam rigorosamente os fornecedores de serviços de Internet. Isto permite-lhes controlar mais facilmente e muitas vezes censurar o fluxo de informação através de redes digitais, ou impedir seletivamente os ativistas de obter e manter o acesso à Internet. A vigilância também é muito mais fácil e menos dispendiosa de manter em linha do que com atividades no exterior.

Os desafios do ativismo online não estão a desaparecer e os movimentos têm de continuar a pensar estrategicamente em como operar na paisagem digital. De facto, a necessidade de adaptação à pandemia da covid-19 pode ter sido a faísca que ajuda a iniciar essa mudança, para um ativismo de sofá mais comprometido e seguro. Entretanto, por mim, respeitando todas as medidas de segurança, quero continuar a luta ao lado dos outros militantes, esperando que a próxima marcha de mulheres se faça na rua.

 

 

 

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