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Luta das mulheres cresceu no Luxemburgo em ano de pandemia
Sociedade 5 min. 04.03.2021

Luta das mulheres cresceu no Luxemburgo em ano de pandemia

Mulheres polacas em protesto no Luxemburgo contra a decisão constitucional da Polónia de anular o aborto em caso de mal formação do feto, em outubro de 2020.

Luta das mulheres cresceu no Luxemburgo em ano de pandemia

Mulheres polacas em protesto no Luxemburgo contra a decisão constitucional da Polónia de anular o aborto em caso de mal formação do feto, em outubro de 2020.
Foto: Gerry Huberty
Sociedade 5 min. 04.03.2021

Luta das mulheres cresceu no Luxemburgo em ano de pandemia

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A segunda greve das mulheres realiza-se no próximo dia 8 de Março - Dia da Mulher - e reforça reivindicações que a crise da covid-19 tornou mais visíveis.

Quis o destino que a primeira greve de mulheres realizada no Luxemburgo ocorresse no ano em que o mundo conheceu um novo vírus, altamente transmissível, e no mês em que o Grão-Ducado começasse a identificar os seus primeiros casos. Mas quis também a ordem das coisas que essa pandemia, que mergulhou os países numa realidade diferente, expusesse ainda mais o valor do trabalho feminino, amplamente representado na linha da frente de combate à covid-19, e o pouco reconhecimento que ele continua a ter.

Razões de sobra para que em 2021 haja nova greve de mulheres, a segunda no país, e que este ano se realiza a 8 de Março, data em que se assinala o Dia Internacional da Mulher. Convocada e organizada pela plataforma Journée Internationale des Femmes (JIF), a mobilização em cenário pandémico faz-se em dois sentidos. "Vai haver uma marcha, a começar às 17h, em frente à estação de comboios, da cidade do Luxemburgo, organizada sob fortes medidas de segurança sanitária. E vai haver também um evento online, durante a hora de almoço, com elementos interativos e ao qual todos podem aderir, incluindo as pessoas de risco", adianta ao Contacto Isabelle Schmoetten, uma das responsáveis da JIF. 

Este evento, a decorrer entre as 12h e as 13h30, através do Zoom, em luxemburguês e francês (com tradução em inglês), incluirá uma apresentação sobre a evolução histórica do Dia da Mulher no Luxemburgo, um teste de conhecimentos sobre os marcos e as lutas feministas atuais e a apresentação e discussão das exigências da JIF em que se baseia a greve de 2021 e que, horas depois, se a condição epidemiológica o continuar a permitir, serão levadas à marcha da tarde.

Apesar da situação da pandemia, as expectativas da organização face à participação na ação não esmorecem. "Esperamos sempre o melhor resultado, mas pensamos que será bom, sobretudo porque há muitas possibilidades diferentes de participar", refere Isabelle Schmoetten. Também Jessica Lopes, sindicalista e ativista da plataforma, considera que mais importante que os números é mobilizar as mulheres para a conquista dos seus direitos e para a redução das desigualdades que ainda persistem, num trabalho que não se esgota no dia da greve. 

"Temos organizado reuniões abertas para as mulheres e atividades e ações para chamar a atenção para as desigualdades de género. A participação das mulheres, ao longo do ano, faz-nos acreditar que mesmo com a pandemia vai haver uma boa adesão", afirma, embora reconheça que nas atuais condições será difícil superar, pelo menos nas ruas, as mais de 2000 que estiveram na marcha do ano passado, além de "muitas outras que participaram em casa e no trabalho com ações simbólicas". Um número que para a dimensão do Luxemburgo diz ser "enorme" e que foi "uma verdadeira vitória e uma mensagem clara das mulheres".


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Por detrás dessa mensagem de força está um objetivo que começou na greve de 2020 e que segue para a deste ano. Porque a crise de covid-19 reforçou desigualdades e ao mesmo tempo mostrou o caráter imprescindível das tarefas realizadas pelas mulheres, para a saúde e bem-estar da população, a grande reivindicação "continua a ser 'trabalho de cuidados igual'", resume Isabelle Schmoetten.

As mulheres portuguesas têm desempenhado um papel importante no seio da plataforma.

Jessica Lopes, sindicalista e ativista da plataforma Journée Internationale des Femmes (JIF)

O manifesto deste ano exige o reconhecimento desse esforço através de ações políticas fortes e de quatro principais reivindicações: maior justiça salarial, com o aumento dos salários mais baixos e o cumprimento da igualdade salarial entre homens e mulheres, redução do tempo de trabalho remunerado e não remunerado, licença parental para todos e o acesso a uma habitação "decente e económica" e sem discriminações de género.

Movimento em crescendo em ano de pandemia, e em português

A crise de covid-19 não fez abrandar o movimento, que cresceu neste primeiro ano. "Novos membros aderiram à plataforma, especialmente a título individual e o movimento também tem crescido em termos teóricos, com as reivindicações a tornarem-se mais afinadas", afirma a Isabel Schmoetten, admitindo que houve também muitos obstáculos.


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Ainda que as circunstância sejam "muito particulares", como nota Jessica Lopes, a crise sanitária poderá ter contribuído para dar um empurrão ao ativismo femininista no país, "A pandemia sublinhou todas as coisas que dissemos na primeira greve. As mulheres fazem a maior parte do trabalho essencial e não são valorizadas por isso. Seja na saúde, nos serviços sociais ou na limpeza, as mulheres assumiram a liderança durante a crise, em casa e no trabalho, e temos tentado sublinhar isto. As redes sociais e as plataformas online permitiram-nos permanecer ativas e crescer e, neste momento, temos a participação de muitas mulheres, e homens, de diferentes origens."

Entre essas origens, apontam as duas ativistas, está a portuguesa. Foram muitas as que se juntaram à JIF, no último ano. "As mulheres portuguesas têm desempenhado um papel importante no seio da plataforma. Têm estado envolvidas e preocupadas em contribuir com as suas experiências específicas, mas não só. Por exemplo, 53% das profissionais no setor das limpezas são portuguesas. Esses números não são inocentes e é importante amplificar as vozes dessas mulheres num movimento como a JIF", diz Jessica Lopes, que considera que o seu envolvimento mostra também que "não existe algo como 'uma comunidade portuguesa'". "Algumas nasceram aqui e frequentaram escolas luxemburguesas, outras frequentaram escolas europeias, outras viveram em Portugal e migraram para trabalhar", exemplifica, destacando também a organização de mulheres afrodescendentes Finkapé, que integra a JIF, e que traz as experiências das mulheres afrodescendentes.

Lusófonas, migrantes ou de qualquer outra origem, para a ativista, é a solidariedade na igualdade de direitos que importa e o laço comum que une estas mulheres.

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