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Lisboa. Quando a noite morre do tratamento

Lisboa. Quando a noite morre do tratamento

Lisboa. Quando a noite morre do tratamento

Lisboa. Quando a noite morre do tratamento


por Regina NOGUEIRA FERNANDES/ 25.11.2020

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid 19. Pavilhao Chines Foto: Diana Tinoco

As novas restrições reduziram ainda mais o horário dos bares e restaurantes. Proprietários falam de uma situação “incomportável”. Como é sair à noite em Lisboa em tempos de pandemia.

O gerente Carlos Teixeira, de 50 anos, trabalha no Pavilhão Chinês há quase trinta e diz nunca ter testemunhado uma situação parecida.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid 19. Ruas do Bairro Alto numa sexta-feira
Foto: Diana Tinoco

É sexta-feira à noite no Bairro Alto, a véspera do segundo fim-de-semana com recolher obrigatório. A esperança de que fosse o último acaba, com o Governo a anunciar a renovação do estado de emergência.

Há muitas portas fechadas e as ruas estão vazias: são poucos os que se aventuram a ir beber um copo em tempo de pandemia. No Pavilhão Chinês, um dos mais icónicos bares de Lisboa, aberto desde 1986, há apenas duas mesas ocupadas.

As cinco salas do espaço estão cheias com uma coleção de milhares de pequenas relíquias. Há fileiras de capacetes e uniformes militares, pinturas antigas em todos os cantos e prateleiras com bonecos de ação, soldadinhos de chumbo, cães de louca e peças de Bordalo Pinheiro. Os aviões e barcos pendurados no teto tentam roubar protagonismo aos lustres de cristal.

O gerente Carlos Teixeira, de 50 anos, trabalha no Pavilhão Chinês há quase trinta e diz nunca ter testemunhado uma situação parecida. Com o atual horário de funcionamento entre as 17h e as 22h30, estão a faturar cerca de 10% dos valores normais. Para além dos já habituais pregos no pão, a adaptação às novas regras ditou que adicionassem mais pratos ao menu: pode-se agora comer pernil assado no forno, hambúrgueres – gourmet, Carlos faz questão de acrescentar – e choco frito. No entanto, são poucos os clientes que vêm jantar.

“Seria mais fácil se este fosse um conceito novo, mas com trinta e quatro anos de casa torna-se muito difícil mudar a perceção das pessoas, que já vêm com a ideia de vir beber um copo depois de jantar. Já viu o que é ir a um bar pedir duas cervejas e dizerem-lhe ‘não posso servir, só com comida’? Dizem-me logo ‘então, mas eu acabei de jantar’. Isto teve um impacto muito grande, é uma chatice.”

Com menos de um quarto dos empregados a trabalhar, a maior parte do staff está ainda em layoff. Não tiveram de despedir ninguém, mas Carlos revela que a situação é incomportável.

“O apoio do Estado é pouco, suporta apenas um terço dos ordenados dos empregados, e esta nova ajuda de pagarem 20% da faturação é muito engraçada para quem esteve aberto. Eu estive sete meses fechado, vou receber o quê? Duzentos euros? Isto é tudo muito bonito, mas não se traduz em ajuda real”.

Carlos tentou ainda pedir auxílio à iniciativa “Lojas com História” da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o Pavilhão Chinês se encontra inserido. O programa diz ter como prioridade “trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade no sentido de preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural”. Não obteve qualquer resposta.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19. Loucos e Sonhadores
Foto: Diana Tinoco

Um pouco mais abaixo, na Rua da Rosa, a situação é diferente. Na associação Loucos e Sonhadores, Vítor Campos, o proprietário, não tem mãos a medir entre os pedidos que lhe chegam ao bar e os fregueses que procuram uma mesa, apesar das novas medidas.

A luz é baixa e a decoração é kitsch – a maioria dos objetos foram comprados por Vítor nas suas viagens. As mesas que ocupam o espaço estão cheias e há um burburinho de conversa que abafa a música jazz de fundo, um contraste com o resto das ruas silenciosas do Bairro. Apesar de ter a sala cheia, Vítor garante estar a trabalhar com muito menos clientes.

“Estamos abertos todos os dias de segunda a sexta-feira, mas com uma restrição de horário muitíssimo forte. Agora que temos de fechar também ao sábado, estamos a trabalhar um terço das horas para um terço das pessoas. Ora, estamos abertos só para nos mantermos à tona”.

Também no Loucos a maior parte do staff está ainda em layoff e dos dez empregados que serviam o bar, agora trabalham apenas três: “estamos a viver um dia de cada vez, não há muito mais que possamos fazer. É uma hecatombe geral, vai ser complicadíssimo em termos económicos e sociais”. 

E quando reabriram após o primeiro confinamento, Vítor diz ter sido difícil fazer cumprir as novas regras. Agora, conta, “é fácil porque não há pessoas”. Apesar de tudo, mantém a corrente branca e vermelha que trava a entrada a novos clientes quando a sala está lotada.

Atualmente, os seus clientes são sobretudo estrangeiros a residir em Portugal, uma diferença “muito significativa” face à multidão que o visitava pré-covid-19: “os portugueses estão com muito receio. Isto vai ser a desgraça de muita gente”.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19.
Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19.
Foto: Diana Tinoco

“A noite foi esquecida”

Também no Bairrus Bodega, na Rua da Barroca, só há uma mesa ocupada: Natália Silva e Andreia Meireles, as proprietárias do espaço, estão a ter uma reunião com dois membros do Bloco de Esquerda sobre o impacto das novas restrições no negócio.

Foram contactadas pelo partido na sequência do movimento que iniciaram no início da pandemia, no Grupo de Bares e Comerciantes da Misericórdia, e que resultou em duas manifestações na Assembleia da República, em maio e em junho. O movimento, que se aliou à Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, descartava apoios a fundo perdido, moratórias e a redução nas taxas de juros para os empréstimos. Para as proprietárias do Bairrus Bodega, estas medidas, bem como o layoff, são “presentes envenenados”.

Dizem não se identificar com o movimento “A Pão e Água”, que organizou a última manifestação no Rossio: “todos os métodos de luta são validos, mas preferimos não nos associar. Não estive lá, mas a sensação com que fiquei foi a da violência. Eu percebo que este protesto tenha tido mais expressão, mas só contam com o meu apoio se se expuserem de forma educada e respeitosa para com os outros”, explica Natália.

“As pessoas que estiveram à frente desta última manifestação foram todas convidadas por nós na altura e não estiveram presentes. Éramos meia centena de proprietários de bares, e só uma única pessoa apareceu de um restaurante. Na altura, a restauração não tinha ainda sofrido como os bares. Citando o Presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, António Fonseca – onde estavam estes chefes quando nos iniciamos o nosso manifesto?”, questiona Andreia.

Andreia e Natália reivindicam o direito a trabalhar e pedem a possibilidade de abertura em horário normal, desde que se cumpram as regras. Caso a situação pandémica não o permita, defendem que é essencial o apoio ao pagamento das rendas, já que a esmagadora maioria dos proprietários de bares são arrendatários.

“Caso o senhorio não dependa exclusivamente da renda, consideramos que nos deveria ser dada a oportunidade de, já que não podemos trabalhar, não pagarmos a renda também. Somos sócias gerentes, estamos sem ordenado desde fevereiro: se não há receita, não pode haver despesa”, diz Andreia.

“Escrevemos cartas ao Presidente da República, ao presidente da Câmara Municipal, fomos à assembleia, e a resposta foi zero. O Bloco foi o único partido que nos deu algum feedback – e isto não tem a ver com preferências partidárias. Neste volte-face do estado de emergência, voltaram a contactar-nos sobre a possibilidade de levar ao Parlamento a questão da defesa dos arrendatários”, explica.

“Para além das rendas, há o problema dos términos de contratos. O senhorio pode apenas enviar uma carta de rescisão e depois de todos os anos de casa deixa-se de ter direito a um trespasse, a uma cedência de espaço – são anos de vida que vão por água abaixo. Vem alguém que paga um ano de renda adiantada e o teu negócio terminou”, diz.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19.
Foto: Diana Tinoco

Também para Natália custos como a renda são a maior das preocupações: “com as nossas manifestações pacificas, tentámos chegar aos partidos com assento parlamentar no sentido de viabilizarmos os nossos negócios com apoio dos custos fixos. Mesmo de portas fechadas, os nossos custos fixos estão lá – as moratórias só estão a adiar um problema. O Governo facilitar-me empréstimos com juros baixos é fazer com que eu me endivide ainda mais e ponha uma corda no pescoço para os próximos três anos. Esperam-nos tempos muito duros e quem não fechou agora, fechará depois porque terá como pagar esses custos.”

  Temos polícias que chegam aqui e arrombam uma porta encostada ao pontapé – a maneira como entram aqui é inadmissível. É quase pidesco.   

Dizem sentir-se “marginalizadas” tanto pelas medidas do governo, que consideram terem deixado a noite “esquecida”, como pelas ações de fiscalização da polícia.

“Sentimos muito controlo da polícia, e, sobretudo, uma enorme falta de tato e de pedagogia na fiscalização. Chegam aqui e dizem: ‘isto’ é para fechar. ‘Isto’ é a minha casa, é o meu projeto de vida, é o meu sonho. Temos polícias que chegam aqui e arrombam uma porta encostada ao pontapé – a maneira como entram aqui é inadmissível. É quase pidesco. Se estamos numa altura de pandemia, o único inimigo é o vírus, não são os comerciantes que são inimigos dos agentes de autoridade nem vice-versa”, diz Andreia.

As proprietárias apontam ainda o dedo à desertificação do centro da cidade como uma das razões para a falta de clientela numa sexta-feira à noite. O aumento no turismo dos últimos anos e o consequente aumento nas rendas afastaram os portugueses do Bairro Alto e a população autóctone que resta é envelhecida e não frequenta os bares. “Para podermos funcionar até às dez e meia, teríamos de conseguir sobreviver com os locais – eu vivo na Penha de França e vejo que os cafés e restaurantes, a mal ou a bem, têm pessoas”, conta Natália, “a desertificação não vem de agora, passámos no geral a trabalhar muito para o turista e não nos correu bem”.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19.
Maria Caxuxa.
Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19. Maria Caxuxa.
Foto: Diana Tinoco

No outro lado da rua, no Maria Caxuxa, também há falta de fregueses. Há uma mesa ocupada e um cliente sentado ao balcão, junto à cabine do DJ, onde ecoa o êxito dos Pulp: “I wanna live like common people”. Segundo Miguel, o dono, com as novas restrições os únicos clientes são amigos os visitam por uma questão de “entreajuda”.

“As perspetivas são muito negativas. Depois de quatro anos de negócio, estamos a ponderar se fechamos definitivamente. Avizinham-se tempos difíceis. Não temos ajudas do estado e continuamos a ter custos fixos incomportáveis”, diz. Conseguiram a moratória para a renda, mas trata-se apenas de “adiar uma prestação, sem sequer sabermos se algum dia vai entrar dinheiro”, conta.

Também Miguel considera que os bares foram “completamente discriminados” pelo Governo. Sem apoio do estado, conseguiram reabrir apenas porque decidiram servir comida. Além de acepipes, juntaram agora ao menu tostas, tábuas de queijo e de enchidos. “Somos um bar com porta aberta para a rua, com esplanada, queríamos a possibilidade de funcionar como os restaurantes: os mesmos horários, as mesmas limitações de clientela”.

Sair para jantar na discoteca

O Finalmente foi outro dos negócios que se adaptou para poder ter as portas abertas durante a pandemia. Aberto todos os dias desde 1976 (isto é, até ao início da pandemia), foi um dos primeiros espaços a fazer espetáculos de drag em Portugal. Depois de cinco meses fechado, voltou a abrir em agosto, desta vez como restaurante.

Fernando Santos, diretor artístico, confessa que, à primeira vista, achou a ideia arriscada: “em pleno confinamento transformarmos aquilo num restaurante parecia complicado, quase uma loucura. Lá conseguimos as autorizações e licenças devidas depois de várias visitas da ASAE e outras entidades”.

Conseguida a licença, passaram a servir jantares e a fazer dois espetáculos por noite – “para que fosse rentável” – mais cedo do que alguma vez haviam sido feitos: um às dez e outro às onze e meia. Em tempos pré-covid19, os fiéis clientes do ‘Finas’, como carinhosamente lhe chamam, sabiam que tinham de esperar até pelo menos às três da manhã para verem Deborah Kristal (o nome artístico de Fernando), Samantha Rox, e companhia a atuar.

Reportagem sobre a adaptação dos bares de Lisboa às novas regras impostas pelo Governo durante a pandemia da covid-19. Finalmente.
Foto: Diana Tinoco

O menu inclui uma panóplia de pratos: há pizzas, saladas, várias receitas de bacalhau, lombo de porco e polvo à lagareiro, e é preciso jantar para ver o show.

“Foi uma surpresa muito agradável. As pessoas adoraram: poderem jantar e assistir a um espetáculo no Finalmente a hora cómoda, o que era uma coisa impensável”, conta, “no primeiro mês trabalhei como uma fera, como já não fazia desde muito jovem, para manter o público agarrado ao Finalmente. Enquanto pudemos estar abertos até à uma da manhã, correu muito bem. Ainda havia alguns turistas e a surpresa do novo conceito e da reabertura da casa, fechada desde março, trouxe muita gente”.

Menos turistas e mais restrições de horário vieram complicar a situação: agora fazem um apenas espetáculo às 21h45 às terças, quartas e quintas e dois às segundas e sextas, os dias mais concorridos da casa.

“Enfraqueceu de tal maneira que há dias em que nem fazemos espetáculo. Se chegarmos ao fim-da-tarde sem reservas, os artistas nem saem de casa. A gente parece que anda num carrossel – são tantas as voltas”, lamenta Fernando.

“No princípio do próximo mês [devido às novas restrições impostas em volta dos feriados] já só temos três dias para estar abertos. Estamos a chegar a um ponto em que é cada vez mais difícil continuar. Nós ainda tivemos aquele mês e meio em que conseguimos trabalhar, mas houve outras casas que não conseguiram abrir. Vai ser complicado viver assim”.

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