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Lamentos de um fadista reformado
Opinião Sociedade 4 min. 20.05.2021

Lamentos de um fadista reformado

Lamentos de um fadista reformado

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 20.05.2021

Lamentos de um fadista reformado

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Fui na conversa da doutora da câmara de decote generoso, menina roliça, saída dos bibes, com folhetos e pastas de couro e caneta de tinta permanente, saltos presos na calçada e o Fiat 500 a ocupar a travessa, vermelho e luzidio como as caixas de fósforos.

Quando a gente do bairro sabe, para lá de vinte anos, que àquela hora para, no início da rua, a carrinha do açougue. E as pequenas da câmara não são pagas para estudarem estas coisas? Um desassossego, com a camioneta sem passagem, e um sem fim de torce-destorce, destorce-torce, que levou à frente os canteiros dos beirais, crisântemos, petúnias e pés de salsa.

Mas fui na conversa da doutora, que me encheu os ouvidos com a ‘modernização da oferta de restauração do bairro’ e as teorias de fusão do tradicional e do moderno e como devemos ter uma oferta aconchegante, mas arejada, sofisticada, porém descontraída, preservadora dos sabores tradicionais, mas aberta a novos ingredientes, serviço prazenteiro, mas educado, respeitador das minorias, dos que comem bifes ou apenas folhas de alface e se benzem ao verem um enchido a escumar gordura. Fui na conversa da doutora porque tinha o restaurante cheio para a noite, um grupo de excursionistas de Penafiel, as brasas por fazer no grelhador a carvão, o esgoto roto lá para trás, junto à arrecadação, sem pista da assistência 24 horas, e a Maria Albertina doente, Tininha com a proximidade, para depois voltar a Maria Albertina, quando lhe quebram o coração, é assim que ela fala.

‘António, partiste-me o coração’, sempre de olhos fechados.

‘Eu que nada fiz!’

‘Ainda bem que admites’, e cruza o xaile, agita as argolas, segura o peito cheio, vira o corpo e, já de costas, ‘Partiste-me o coração, António’.

E, irra!, o coração de uma fadista é feito de porcelana importada e não há flores ou carinhos que lhe colem os cacos.

Fui na conversa da doutora da câmara porque me foi garantido que a casa de fados não se iria parecer com os restaurantes brancos e pretos, como os filmes de antigamente, que crescem no bairro ao ritmo das silvas. Não há outra cor que ali entre. Pois, se o prato é branco, a tigela é preta. Se o guardanapo é preto, a toalha é branca. As cubas de lavar as mãos, nas casas de banho, são para homens diminuídos no tamanho, baixas como anões, ou colocadas para lá do aceitável, e só revirando os olhos, arqueando o troco, gesticulando em frente ao espelho, gastas forças e paciência, arrancamos à torneira inteligente um pingo de água, nunca suficiente para nos libertar do sabão.

‘Não estávamos melhor na nossa casa de fado, Tininha? Vai lá tanta gente que só te quer ouvir, Tininha?’, digo-lhe na volta da casa de banho, a limpar o sabão ao guardanapo preto.

‘Não me chames assim, António. Tenho o coração partido, António.’

Que mal tem a taça do atlético, à entrada, ganha pelo clube com mérito? Sei que vais argumentar que nessa tarde não joguei, que estava dispensado por lesão. Senti a vitória com igual fervor e os encontros da rapaziada, depois dos jogos, eram lá na casa de fados. Que mal tem a fonte de marisco na montra? Se as crianças se debruçam para experimentarem o picar dos caranguejos. Que mal têm as toalhas gastas e os tecidos às flores? A loiça desigual e os copos riscados? O vinho é bom e vem da terra. É o que interessa. Que mal tem o retrato da Severa, tão parecida contigo que até mete medo? E os dizeres pendurados que rimam fiado com pecado? Que mal tem?

Mas fui na conversa da doutora. Despi as paredes como acontece com as árvores. Os diplomas. Os calendários. As santolas da Bordalo Pinheiro guarnecidas com cebolas de loiça. Subi o preço das bicas, para os escarafunchados não se encontrarem ao balcão a enxotar o tempo. Pedi aos músicos mais atenção nos modos, que até agora palitavam os dentes ao ritmo da guitarra. Mudei a ementa. Anunciei numa placa de ardósia comida vegetariana em cinco línguas. 

Encomendei nova placa para substituir Suxi por Sushi. Importei cerveja. Tenho um cozinheiro brasileiro que corta peixe como um japonês, dois ucranianos a tocarem guitarra portuguesa e um chefe de sala com conhecimentos de línguas adquiridos nos Mcdonald’s da Europa. Sirvo cabrito com mandioca e não há cozinhado que não leve um fio de vinagre balsâmico, labiríntico no prato, para preencher o espaço que antes era ocupado pela comida. A Tininha já palreia em cinco línguas, debruçasse em demasia sobre as mesas dos clientes nórdicos, e isto me dizem os olhos e não o ciúme, e já não há o respeito de outros tempos perante a frase ‘silêncio que se vai cantar o fado’.

Dizem que portuguesa, como o fado, é a palavra saudade. Pois, eu sinto falta da sardinha no pão. Agora, comem peixe cru e cantam de olhos abertos. Um dia, trespasso a casa de fados e aprendo a colar corações.

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