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Lá em casa, éramos quatro
Opinião Sociedade 4 min. 11.02.2021

Lá em casa, éramos quatro

Lá em casa, éramos quatro

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 11.02.2021

Lá em casa, éramos quatro

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Lá em casa, éramos quatro. Chamava à vivenda vermelho desbotado pequeno chalé; repetia histórias falsas às namoradas sobre incursões do rei às pernas da aia da rainha Carlota Joaquina, que ali vivera com a dona a uns metros, na esperança de que os relatos acariciassem a libido das jovens; punha título nobre ao bairro - Conde Almeida Araújo - quando os outros o tratavam por Bairro Chinelo.

E eram os outros que moldavam as soleiras das portas ao corpo, num sentar eterno de final de tarde, e enxotavam os cães com o varar do pau, sobras de um braço rijo, eram os outros que conheciam os horários do carteiro, numa motorizada a chiar e a enxotar pardais, eram os outros que mediam a olho o crescimento dos ramos do plátano e previam cheias - num inverno próximo a que nunca chegavam -, mal dizendo o incumprimento camarário e as fossas do esgoto cheias de folhas.

Lá em casa, éramos quatro. Eu, tu, ele e o António. Os teus beijos eram conchas de canja de galinha vertidas para a tigela, muita hortelã a boiar no caldo, para curar gripes, bacalhau com natas do Lidl às sextas-feiras como prémio, depois do treino de futebol, apesar de não me lembrar de sair do banco, mesmo nos jogos amigáveis em casa, e morangos ou pêra-rocha descascada e partida em fatias finas, conforme a estação, como paliativo para a tua solidão.

Lá em casa, éramos quatro. Eu, tu, ele e o António. Os beijos dele eram sete copos rasos de vinho no café do Quim, para amaciar o mau perder na cartada, os pés a pisar beatas ao ritmo das vindimas, um cheirinho no café antes da carrinha do encarregado parar no largo, para o levar depois para as obras de alargamento da CRIL, e dois bilhetes por época para me ver nos jogos em casa, apesar de não me lembrar de sair do banco.

Lá em casa, éramos quatro. Eu, tu, ele e o António. O António e eu não trocávamos beijos ou palavras, mais depressa palmadas no cachaço, cromos e namoradas. No plátano, construímos uma casa feita de psichés, portas de cristaleiras e heranças renegadas, que apanhávamos junto ao caixote antes da passagem do camião do lixo. À vez, fazíamos vigilância ao contentor e tratávamos como tesouros os desperdícios do bairro. 

Construir uma casa no plátano significou vê-lo serrar madeira em tronco nu, pregar, descer e subir aos ramos mais grossos – primeiro, com os pés apoiados na escada de corda num equilíbrio de circo de Natal e, depois, com a agilidade de símio, trepando degraus incertos fixados no tronco largo – e beber cervejas pelo gargalo com a camisola atada à testa, cujas garrafas eu – exímio naquilo que me competia - entregava no café do Quim, recolhendo o vasilhame. Também fechámos, uma vez, a entrada e a saída do bairro com duas grades roubadas das festas da vila, dando aos outros esperança no decoro camarário no tratamento das fossas e a nós um campo de futebol que alugávamos aos putos do bairro por cem paus a meia hora ou três cervejas no café do Quim.

Como houve uma vez em que cheguei a casa com dez equações corretamente resolvidas em quinze:

(Este tem mais jeito para a escola)

O António deixou de ter tempo para cobrar os cem paus aos putos do bairro, fazer a manutenção da casa do plátano, beber em tronco nu com a camisola atada à cabeça e ganhou um lugar de ajudante de servente nas obras de alargamento da CRIL. Na certa, trocou as cervejas por copos de vinho tinto, vindimou beatas no café do Quim e, antes do encarregado chegar ao bairro, engoliu num trago o café com cheirinho.

Quando levar a minha segunda mulher ao bairro Conde Almeida Araújo, para lhe contar as histórias da aia da rainha Carlota Joaquina, lhe acariciar a libido e, com sorte, lhe levantar a saia na casa do plátano, ainda ligo ao António. Talvez ele me atenda, se não estiver a moldar as soleiras das portas ao corpo, num sentar eterno de final de tarde, e a enxotar os cães com o varar do pau, sobras de um braço rijo, ou a mal dizer o incumprimento camarários e as fossas do esgoto cheias de folhas, antecipando um inverno próximo a que nunca há de chegar.

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