Escolha as suas informações

Juntos não terão um abraço, mas uma orquídea
Opinião Sociedade 2 min. 26.11.2020

Juntos não terão um abraço, mas uma orquídea

Juntos não terão um abraço, mas uma orquídea

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 2 min. 26.11.2020

Juntos não terão um abraço, mas uma orquídea

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
No século XIX, as primeiras notícias sobre vacinas vinham nos jornais ao lado de poemas. Percebiam, na altura, que pertenciam ao conjunto de coisas que salvam a humanidade. Havia uma coexistência dos discursos literário e científico, que pareciam estar no mesmo campo do conhecimento e tinham o mesmo prestígio.

É inegável que, com o passar do tempo, o discurso científico ganhou relevância social; porém, não conheço nenhum poema proscrito (apenas censurado). Já em relação às teorias científicas não se poderá dizer o mesmo, voláteis ao longo dos anos.

A pandemia acelerou a competição entre laboratórios, a meta é a tão desejada vacina. Há várias, que concorrem em eficácia, uma até com um nome sugestivo reminiscente da corrida espacial. Enquanto não somos salvos pela vacina, tendemos a sobreviver com os poemas. Tenho-me cruzado com alguns:

Hoje, em bancos diferentes de jardim, um rapaz e uma rapariga trocavam sorrisos sob as máscaras e olhavam enciumados os respetivos cães, que brincavam um com o outro na relva. À varanda, a mulher esticava o regador, refrescando o vaso moribundo do vizinho. Juntos não terão um abraço, mas uma orquídea.

Na hora de recolher, as janelas nos prédios da frente revelavam uma mensagem secreta em código morse – traço, ponto, traço, ponto. Diziam: estamos habitados. Há quem mantenha os braços em posição de dança, perfumando-se para uma reunião online.

As luzes de Natal nas avenidas desertas são aquele tio que conta piadas porcas nos funerais e põe as viúvas a rirem entre lágrimas. Reguei a planta da janela antes de as folhas caírem de sede. As crianças acenam e gritam a quem passa como se lançassem pombas. A vida está perfilada e só lhe vemos a lombada, mas os livros nas prateleiras fazem companhia.

Há meses que falamos a língua dos gestos repetidos. Um dialeto que calcinou os músculos na articulação da rotina, como uma prece. Somos todos crentes porque na repetição ritualizada conjuramos uma fuga. Dizem que é uma guerra ao tentarem a literatura. Apoiado! Preferimos ser soldados a osgas vigilantes e imóveis na parede do tédio.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Quanto passado cabe em 18m²?
A minha avó galopa a caminho dos 100 anos, troca galanteios com um vizinho de quarto, não sabe ler, mas gosta de pintar e está fechada há vários dias em 16m², talvez 18. Uma crónica de Filipa Martins.