Jovem vai caminhar 832 km da costa Portuguesa para recolher plástico
Jovem vai caminhar 832 km da costa Portuguesa para recolher plástico
É conhecido como The Trash Traveler (O Viajante do Lixo) e tem a missão de ajudar o planeta a tornar-se um lugar menos poluído e mais sustentável.
Chama-se Andreas Noe, tem 32 anos e é biólogo molecular, mudou-se em 2018 para Portugal para trabalhar num laboratório. "Viajei sempre muito graças ao meu trabalho mas há alguns anos que vinha de férias a Portugal. Adoro a cultura, as pessoas, as praias. Estive sempre conectado a Portugal e decidi que queria morar e trabalhar aqui." Diz que não tenciona voltar para a Alemanha, porque é em Portugal que se sente em casa. "E é por isso que não quero que me vejam como o alemão que vem limpar Portugal. Eu estou aqui porque eu sou apaixonado por este país".
A mensagem não é só para os Portugueses, é universal. "O planeta deve reduzir o consumo de plástico e viver uma vida mais sustentável, se existem alternativas ao plástico, devemos utiliza-las", explica.
Garante que na Alemanha se enfrentam os mesmos problemas. Apesar de se encontrar menos lixo nas ruas alemãs e de haver uma diferença na cultura "do deitar fora", com sistemas implementados de depósitos de garrafas e embalagens, Andreas considera que "o deitar os resíduos nos contentores e ecopontos não chega. Sim, as ruas estão mais limpas, então não vês o problema diretamente, no entanto na Alemanha e no resto do mundo o desperdício de resíduos e a quantidade de plástico que não é reciclado é enorme e são encaminhados para outros continentes, como África. Temos de perceber que a urgência na regra dos três R's é na Redução e Reutilização, porque a Reciclagem não é suficiente".
Vive numa carrinha por causa do preço das casas
O "alto custo de vida em Lisboa" fez com que fosse morar na sua carrinha, na qual tinha viajado desde a Alemanha. "Os salários portugueses são muito baixos e as rendas estão muito altas, é muito difícil viver assim, então já que tinha a carrinha decidi morar nela e poupar esse custo. Não fazia sentido morar num apartamento".
Durante um ano saiu da carrinha todas as manhãs de fato vestido para o trabalho. Aproveitava o ginásio para tomar o banho matinal e os colegas achavam piada ao estilo de vida "cada vez mais minimalista". Quanto mais se movia de casa às costas pela costa portuguesa, mais conectado se sentia à natureza, "também comecei a poder surfar mais e a conhecer mais praias" mas também se deparava com um cenário menos agradável.
"Fazia parte do meu dia-a-dia, a qualquer lado que eu fosse, encontrava lixo. No inverno as praias ficam cheias de plástico, é uma loucura a quantidade que vem do Tejo para o mar. Estamos sentados nas pranchas, no mar e conseguimos sentir e ver à nossa volta todos os dias a mesma coisa". Beatas de cigarros, embalagens, latas, recomeçou a recolher tudo o que encontrava e decidiu começar a fazer algo com a situação.
Em julho de 2019, participou numa iniciativa que desafiava a que se vivesse o mês inteiro sem uso de plástico. "Foi mesmo muito difícil, um mês sem plástico... ainda por cima no meu mês de aniversário! Foi um desafio enorme. Levei um abanão e pensei: estamos mesmo num mundo louco". Este foi o puxão que precisava.
"Foi mais forte que eu, tinha de fazer alguma coisa em relação a isto. Estar sentado no escritório, em frente ao computador já não me enchia a alma. Foi então que decidi despedir-me, já que tinha umas poupanças, e dedicar-me completamente a partilhar informação e a consciencializar para o que se passa", conta ao Contacto.
Com o sol marcado no rosto e um sorriso constante, partilha que quando começou a sua jornada como The Trash Traveler, em setembro de 2019, não havia um plano definido. Nas primeiras semanas criou uma página no Instagram para começar a partilhar conteúdos com dicas ecológicas. "Sou uma pessoa muito alegre e mente aberta e não quero que as pessoas se sintam julgadas, ou ter um discurso que provoque medo e se retraiam. Então decidi começar a criar canções com o meu ukelele que fossem cómicas mas passassem uma mensagem positiva", explica.
Ri-se quando se lhe pergunta como é que se mantém uma vida assim. "Que boa pergunta", responde. "No início, como não sou um homem de negócios, apercebi-me que isto seria a parte mais difícil para mim, encontrar fundos. "Encontrar formas de sensibilizar as pessoas é fácil, mas encontrar dinheiro para o fazer não é".
Chegou a ter um projeto como consultor numa empresa em modo freelancing, que lhe permitiu sobreviver. Mas no inverno o trabalho não se manteve e com o crescimento da plataforma e comunidade que tem criado, foi conseguindo pequenos trabalhos na área da ecologia.
Os vídeos com canções atrairam várias pessoas e tornaram-se uma constante forma de sensibilização ecológica, já chegou mesmo a escrever canções para outros projetos e associações. E "felizmente já consegui cooperação e parcerias com várias organizações em Portugal que têm a mesma missão que a minha. Foi daí que surgiu este projeto da caminhada", acrescenta.
Percorrer as praias de Portugal
Segundo o jovem de 32 anos, sensibilizar as pessoas no dia-à-dia é bom, mas é preciso mais ação e com mais impacto. "Foi assim que decidi: ok eu vou caminhar a costa toda de Portugal em dois meses e durante estes dois meses além de limpar a costa e de partilhar informação, vou criar parcerias que permitam este projeto crescer e ganhar mais força".
Para apoiar o projeto que irá ser documentado com uma equipa de filmagem, existe uma campanha de angariação de fundos. Vão ser 832 quilómetros de caminhada com o suporte de veículos para a recolha do lixo que se vai dando ao longo da aventura. A caminhada não se vai dar sozinha, "quero que as pessoas se juntem a mim, que possamos criar comunidade e fazer algo bom em conjunto, porque é um problema que afeta toda gente, há iniciativas incríveis em Portugal e devemos unir-nos por um bem maior".
A aventura começa no dia 15 de agosto e tem um itinerário e calendário a seguir.
No final, pretende mostrar a quantidade de resíduos recolhidos e aproveita-los para novos fins. "Vai ser uma montanha de lixo e por isso é que já tenho o apoio de várias organizações ambientais e de artistas portugueses que trabalham com este tipo de materiais".
A sua ligação à natureza e a consciência ecológica já vieram com ele ao mundo. Aos quatro anos perguntou à mesa se a comida que tinha no prato era um animal, quando a mãe lhe respondeu que sim, pediu-lhe se podia deixer de comer animais, tornando-se a partir daí vegetariano. "Tenho sorte de ter uma família que me deixou crescer num ambiente consciente, mas o respeito pela Natureza e por todos à minha volta já veio desde sempre comigo", comenta.
"Eu acredito que não temos todos de ser perfeitos, mas se todos tentarmos contribuir um bocadinho já é incrível. Podemos todos tentar ser imperfeitamente perfeitos", ri-se. Andreas está preocipado porque com a crise ligada à covid-19, surgiu ainda um desafio extra ao planeta. "Agora temos um novo problema, as máscaras estão em todo lado".
"A sério, não adianta metade da população ter comportamentos ao nível da perfeição e a outra metade não fazer nada. Estamos numa altura de emergência ambiental".
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