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Jogos perigosos deixam pais em alerta
Sociedade 10 min. 20.10.2021
Série "Squid Game"

Jogos perigosos deixam pais em alerta

Na série participantes têm que reproduzir jogos infantis. O drama é que os derrotados morrem.
Série "Squid Game"

Jogos perigosos deixam pais em alerta

Na série participantes têm que reproduzir jogos infantis. O drama é que os derrotados morrem.
Foto: Netflix/AFP
Sociedade 10 min. 20.10.2021
Série "Squid Game"

Jogos perigosos deixam pais em alerta

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Há relatos de alunos que imitam jogos da série da Netflix. Na Bélgica, uma menina foi chicoteada na cara com uma corda. Escolas de vários países estão a enviar alertas e os pais estão preocupados. No Luxemburgo alguns pais já receberam indicações das escolas e o Contacto sabe que o Ministério da Educação vai emitir um parecer nos próximos dias.

"1, 2, 3, macaquinho chinês". Esta frase, que faz parte do imaginário da infância, é repetida vezes sem conta nos recreios de todo o mundo. Mas desde que estreou a série sul-coreana da Netflix "Squid Game", em setembro, o jogo ganhou um novo fôlego. Com riscos acrescidos. Nas escolas de vários países, há relatos de crianças a imitar as cenas do mais recente fenómeno da plataforma de streaming, que está a bater todos os recordes. O problema é que o programa é para maiores de 16 anos e a violência reproduzida pelos alunos está a preocupar os pais. 

Na versão tradicional da brincadeira, um dos participantes está voltado de costas para os restantes e vai repetindo a frase "1, 2 ,3, macaquinho chinês" enquanto os outros tentam avançar no terreno de jogo na sua direção. Quando o jogador termina a rima e se volta para eles, todos têm de ficar parados, como estátuas. Quem não estiver totalmente imóvel, abandona o jogo. Na série, quem perde é executado com um tiro. Agora, nas escolas, as crianças tentam imitar a versão ficcionada e agridem aquelas que perdem.

Na série quase 500 jogadores competem por um prémio milionário.
Na série quase 500 jogadores competem por um prémio milionário.
Foto: AFP

Numa escola primária em Erquelinnes, na Bélgica, crianças de 11 e 12 anos reproduziram os jogos da série nos intervalos das aulas. Uma professora viu uma menina a chorar no recreio. Tinha sido chicoteada com uma corda na cara. A docente perguntou aos alunos o que tinha acontecido e eles responderam que estavam a jogar o "Squid Game" e a rapariga tinha perdido. Os alunos derrotados eram empurrados para o chão e vítimas de socos e chicotadas, alguns ficando mesmo com hematomas. À comunicação social, a diretora disse que a menina "por sorte" não teve ferimentos graves e que os outros alunos entenderam que tinham feito algo errado.

É muito importante que as escolas sensibilizem os alunos.

Filinto Lima, presidente da ANDAEP

O episódio, que aconteceu no início deste mês, motivou um alerta aos pais e um comunicado nas redes sociais, com milhares de reações e partilhas, não só na Bélgica como noutros países. "Estamos muito vigilantes para acabar com este jogo pouco saudável e perigoso! Contamos com o vosso apoio e colaboração para sensibilizar os vossos filhos para as consequências que isto pode causar", lia-se na publicação no Facebook. A escola esclareceu ainda que o jogo continuará a ser permitido, mas avisou que irá haver sanções para as crianças que agredirem outras.

Outros alertas foram lançados em vários países europeus, como Portugal, Espanha, Reino Unido ou França. Nos continentes da América, Ásia e Austrália também. As escolas veem-se forçadas a enviar circulares e cartas aos pais lembrando que crianças não devem ver séries classificadas para maiores de 16 anos. Vários professores recorrem às redes sociais para relatar que já viram alunos a imitar os jogos. Os pais são aconselhados a não permitir que os filhos vejam a série e que se assegurem de que as definições de controlo parental da Netflix estão ativadas.

O próprio criador de Squid Game, Hwang Dong-hyuk, disse numa entrevista a um canal sul-coreano que estava "perplexo" por haver crianças a ver a série. "Espero que os pais e os professores de todo o mundo sejam prudentes, para que as crianças e adolescentes não sejam expostos a esse tipo de conteúdo", apelou.

Luxemburgo ainda sem casos mas Governo vai atuar

No Luxemburgo, ainda não há casos conhecidos destes jogos nos recreios, mas já se aposta na prevenção. Algumas escolas estão a alertar os pais sobre os possíveis riscos para as crianças que veem a série e sugerem que lhes seja negado o acesso a esse tipo de conteúdos. O Ministério da Educação está a acompanhar o assunto e o Contacto sabe que vai emitir um parecer nos próximos dias, à imagem do que fizeram outros países.

Os pais estão com medo e querem saber como é possível controlar a situação.

Charles Krim, presidente da FAPEL

Segundo o que o Contacto apurou, pelo menos numa escola da capital os pais já foram alertados sobre o assunto e aconselhados pelos professores a não permitir que as crianças levem aquelas brincadeiras para o recreio. A escola não pediu expressamente que os alunos fossem impedidos de ver a série em casa, mas apelou aos encarregados para que, caso os filhos assistam, sejam avisados para não influenciarem os colegas a ver ou a participar nos jogos.

"É tudo ainda muito recente. Toda a gente está a falar disso. Os pais estão com medo e querem saber como é possível controlar a situação nas escolas", revelou Charles Krim, presidente da Federação das Associações de Pais do Luxemburgo (FAPEL). O dirigente explicou que as entidades responsáveis têm estado "muito ocupadas" com o assunto nos últimos dias, mas ainda há "muitas perguntas sem resposta". "É óbvio que todos estão com medo do que está a acontecer nas escolas e estão a tentar descobrir o quão séria é a situação. Eu também tenho quatro filhos e fico preocupado", confessou.

Por enquanto, os avisos nas escolas têm sido apenas verbais e não existe ainda uma orientação por parte do Ministério da Educação, o que deverá acontecer nos próximos dias. "Disseram-nos que estão a acompanhar a situação e que sabem que outros países já emitiram comunicados, portanto vão fazer um também", disse ao Contacto Joaquim Prazeres, coordenador do Ensino Português no Estrangeiro (CEPE), no Luxemburgo. O responsável afirmou que para já ainda não são conhecidos casos de incidentes nas escolas, mas que o CEPE foi alertado sobre o assunto e irá "agir em conformidade" com o que Ministério decidir.

"Fomos alertados e estamos em perfeita sintonia com o Ministério. A nossa atitude em relação a esse tipo de fenómenos estará condicionada com o que for decidido pela escola luxemburguesa", afirmou Joaquim Prazeres. "Vamos ter uma reunião ainda esta semana e essa será uma das questões abordadas. Para já ainda não nos chegaram nenhuns casos, nem dos pais nem dos professores".

Foto: Netflix

Autoridades portuguesas estão "muito atentas"

Em Portugal, os efeitos da série nos mais novos também já geram preocupação na comunidade escolar e a GNR emitiu um comunicado a dizer que está "muito atenta ao fenómeno". "Ao longo das diversas ações de sensibilização que fazemos junto da comunidade escolar iremos continuar a reforçar os conselhos e os perigos que a violência transmite às crianças e aos jovens e a importância da sua monitorização", garantiu aquela força de segurança.

O alerta surgiu no domingo, para esclarecer que uma publicação partilhada nas redes sociais no dia anterior com "alguns conselhos e advertências aos pais" relativos à série era de uma página não oficial da Guarda, que foi entretanto desativada. O assunto está a ser acompanhado pelas autoridades, pelo que o Governo português não fez para já qualquer comunicação sobre a polémica.

"O Ministério da Educação não fez chegar às escolas qualquer orientação. Mas os pais e professores estão atentos", revelou Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. "Não sentimos indícios ou repercussões negativas relativamente à série, mas estamos muito atentos ao evoluir desta situação. É muito importante que as escolas sensibilizem os alunos, porque é ficção, mas os pais em casa também devem monitorizar os filhos".

O responsável disse que "para já não há alarme em Portugal" sobre os efeitos negativos da série, mas que o tema tem sido comentado e que a comunidade escolar e os pais devem "estar muito vigilantes", porque "muitas vezes os menores e os adultos reproduzem no dia a dia" aquilo que veem na televisão. "De um dia para o outro pode haver situações negativas para as escolas e para a sociedade", alertou. 


"Squid Game". Não façam isto em casa
Ainda que pretenda claramente denunciar como o dinheiro pode levar as pessoas a cometerem atos inenarráveis, a mensagem anticapitalista que o criador da série diz estar implícita desaparece no meio de muita violência.

O perigo dos desafios virais no TikTok

Em Espanha, algumas escolas primárias estão a emitir circulares para lembrar os pais de que as crianças no 4.º ano não devem assistir a séries que não são para a sua idade. Professores recorrem ao Twitter para relatar casos de jogos semelhantes nos recreios, estimando que metade dos alunos assistem a séries violentas. Os sindicatos de professores alertam para o aumento da violência durante os intervalos e conselheiros de cultura regionais estão a advertir os pais para que supervisionem o acesso dos filhos às plataformas de streaming.

O cenário repete-se no Reino Unido. Várias escolas inglesas estão a enviar cartas aos pais dos alunos aconselhando-os a assegurar-se de que as definições de controlo parental da Netflix estão ativadas. Há relatos de crianças a imitar cenas da série em todo o país, algumas com cerca de seis anos. Muitas delas nem viram o programa, mas tomam conhecimento através de desafios virais no TikTok, em que os utilizadores das redes sociais publicam as próprias versões dos jogos. 

Um dos desafios que está a circular nas redes sociais passa por recortar formas de um doce de favo de mel com uma agulha sem quebrar a figura.
Um dos desafios que está a circular nas redes sociais passa por recortar formas de um doce de favo de mel com uma agulha sem quebrar a figura.
Foto: AFP

Os estabelecimentos ameaçam os alunos que promovam estas brincadeiras com sanções, como suspensão ou até expulsão. Há também avisos sobre um desafio doces de favo de mel, também inspirado numa das cenas da série, que exige que os jogadores recortem uma de quatro formas, usando uma agulha sem quebrar a figura. O desafio tornou-se popular no TikTok, suscitando receios de que as crianças possam queimar-se em açúcar caramelizado se tentarem fazer elas próprias o favo de mel.

Também os pais recorrem às redes sociais para partilharem avisos que receberam das escolas dos filhos. As reações são mistas. Alguns progenitores acreditam que a série já se tornou um problema real na escola, enquanto outros não gostam que lhes seja dito o que podem ou não permitir aos filhos ver em casa. "Não há nada mais suscetível de fazer as crianças da escola primária quererem ver o 'Squid Game' do que uma carta da escola aos pais a pedir-lhes que não deixem as crianças ver", podia ler-se numa publicação partilhada por um pai inglês no Twitter.

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