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Joga pedra na Geni
Opinião Sociedade 4 min. 05.05.2021

Joga pedra na Geni

Joga pedra na Geni

Opinião Sociedade 4 min. 05.05.2021

Joga pedra na Geni

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Várias mulheres revelaram recentemente terem sofrido assédio sexual. Muitos pediram nomes como quem pede sangue. Expostas, as vítimas são agora duplamente violentadas.

Muitos querem que as vítimas de assédio falem, muitos querem-nas caladas. Alguns respeitam o seu silêncio porque cada uma tem o seu tempo, o seu processo. Mas depois cobram-lhes o silêncio como falta de solidariedade para com as que falaram. Decidam-se: as vítimas continuam a sê-lo se falam e se não falam. E as que se calam não são menos vítimas do que as que decidem falar.

Porque não falaram antes? Porquê só agora? Eu sei porque não falei antes: tinha 22 anos, era uma miúda, jornalista precária que acabava de publicar um livro; ele era um homem poderoso. Citando Catarina Furtado, ao Expresso: "Era muito nova, estava no início de carreira, quando fui assediada e contornei a situação, fingindo que não era nada comigo. Fui esquiva, descartando a possibilidade de acontecer alguma coisa. Mas não disse o 'não' que hoje em dia diria, com o empoderamento que ganhei para o fazer."

Hoje faríamos diferente. Na altura, não sabíamos nada. Nem sabíamos como (com quem?) falar. Eu, humilhada, achei que a culpa era minha. Se calhar fiz algo de errado. Não devia ter sorrido. Claro, sorrir é o gesto que falta para "consentir" abuso. Uma só vez ou continuadamente. Até porque as mulheres aprendem a sorrir: sorrir depois de serem assediadas, sorrir enquanto retiram aquela mãozinha de forma educada. Sorrir, e até soltar gargalhada desconfortável, quando ouvem bocas porcas e inconvenientes. As mulheres aprendem a não hostilizar. Hostilizar é perigoso. Vou sorrir como se nada tivesse acontecido.

Há mulheres que dizem "dava-lhe um par de estalos". Que essa força sirva então para legitimamente se defenderem, mas que não sirva para acusar outras mulheres de serem fracas porque engoliram a humilhação. Ou acusá-las, no seu silêncio de vítimas, de serem cúmplices.

Que a força da coragem da denúncia não sirva também para acusar algumas mulheres de não sofrerem assédio a sério. O que é assédio a sério? Tem-se discutido se beijos forçados, toques indesejados, piropos na rua constituem assédio. Há quem invoque o "quadro legal". Que piropo não é assédio diante da relação entre uma chefia e um subordinado. Um apalpão no metro não se compara a beijos forçados. 

No "quadro legal" cada caso tem a sua gravidade. Mas resumem-se a um só diagnóstico: todos são sobre abusos de poder, sobre misoginia, sobre a ideia de que a mulher não é dona do seu corpo, que o seu corpo existe para ser tocado, observado, objectificado, possuído, contra a sua vontade, se assim for. Na rua, no metro, na faculdade, num festival literário.

Há mãos queimadas de tanto fogo por aqueles homens, "tão bom, tão querido". É uma "questão cultural", dizem, porque é cultural que os homens apalpem mulheres, que lhes mandem bocas porcas, que se comente a roupa, o decote, as pernas delas, é também cultural que sobre eles se diga "é só um velho baboso, foi sempre assim, é inofensivo". 

Tudo isto é cultural, geracional, até. Não é só porque ele é velhinho e era assim que se fazia. Ele faz porque pode. Ele faz porque sempre fez. Porque é impune. É a mesma cultura que se queixa que agora não há o "direito a importunar". Já não se pode fazer/dizer nada.

E há os que pedem nomes, sangue. Eu? Jamais. Queremos é saber quem "eles" são. Ajuda a expiar a culpa poderem dizer "nem todos os homens". Enquanto nomes sangram em público, distraímo-nos do essencial: é o assédio, a normalização e banalização de atitudes "culturais" de coacção e abuso de poder sobre as mulheres e os seus corpos que têm de ser discutidos. E como proteger legalmente as vítimas.

As mulheres que falam tornam-se duplamente vítimas. Louca, desequilibrada, mentirosa, puta. Já era assim com as bruxas. Elas sabem. Como cantava o Chico, "joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir". Mas que ninguém peça à Joana, à Catarina, à Raquel, a todas – que ninguém nos "peça, tente, exija, que regressemos à clausura dos outros".

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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