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“Ja” à expropriação
Sociedade 3 min. 29.09.2021
Alemanha

“Ja” à expropriação

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“Ja” à expropriação

Foto: dwenteignen
Sociedade 3 min. 29.09.2021
Alemanha

“Ja” à expropriação

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Em Berlim, são várias as reações às eleições deste domingo, mas a capital tem motivos para celebrar: o referendo para expropriar as propriedades de grandes empresas imobiliárias foi aprovado

São quatro e meia da tarde em Berlim. Depois de vários dias pintados de nuvens escuras, o sol regressou à capital alemã. As temperaturas subiram aos 26 graus, os parques encheram-se. Este domingo, o clima deu um incentivo extra na afluência às urnas.

Rita Couto, jovem portuguesa a morar na Alemanha há quase uma década, foi uma dos eleitores que votou “ja” (sim) no referendo não vinculativo para expropriar as propriedades de grandes empresas imobiliárias na capital alemã. É o resultado de uma “campanha inacreditável” de um movimento popular criado pela organização Deutsche Wohnen & Enteignen que batalha há quatro anos a especulação imobiliária e a gentrificação. Segundo o conselho eleitoral da cidade, 56,4% dos berlinenses apoiaram o referendo que contou com 75% de participação eleitoral.

Teresa Machado, que já havia estudado na capital alemã, decidiu mudar-se novamente este ano. “Fiquei particularmente feliz por saber que o referendo tenha passado! Este é um dos problemas que mais afeta os Berlinenses, e a perseverança de movimentos como o DW&Co. E revigoram alguma esperança para o nosso futuro aqui.”

Rabea Berfelde, aos 27 anos, é  porta-voz e ativista na campanha, desde o seu início, em 2018. Ao Contacto, celebra o facto de que "um milhão de berlinenses votaram pela socialização da habitação", acrescentando que "esperamos que a futura coligação governamental respeite este voto democrático e implemente uma lei que socialize as empresas de habitação".


E depois do adeus
Após 16 anos de reinado de Merkel, a Alemanha acordou esta segunda-feira vulnerável, dividida. E confusa. Os alemães distribuíram os votos por todo o espectro político numa tentativa de eleger aquele que será o próximo governo da República Federal. As negociações pós eleitorais prometem ser duras e demoradas.


"Este é um grande sucesso para todos os berlinenses, o que mostra claramente que já não aceitamos a especulação financeira com as nossas casas e bairros. Mudámos a discussão, após trinta anos, o que privilegiou o interesse dos accionistas, e fizemos do controlo democrático da propriedade um objectivo político realista novamente", acrescenta.

O movimento aponta empresas imobiliárias como a Deutsche Wohnen, Vonovia, Akelius e Co. como “os principais responsáveis pela insanidade do mercado de aluguer de Berlim” e pretende que “em conformidade com o artigo 15º da Constituição, imóveis privados que possuem mais de 3.000 apartamentos sejam expropriados e os seus stock de habitação transferido para propriedade pública”.

Durante meses a organização juntou centenas de voluntários que recolheram assinaturas para poder levar a referendo a reivindicação da expropriação das gigantes imobiliárias. O objetivo dos últimos quatro meses era o de recolher 175 mil assinaturas. Através de uma incessante campanha por toda a cidade, organização de protestos e com uma forte presença nas redes sociais, a organização acabaria por recolher  359 mil assinaturas válidas que abriu portas à votação deste domingo.

Embora a medida não seja juridicamente vinculativa, pode significar a transferência de cerca de 226.000 apartamentos dos gigantes imobiliários para mãos públicas, se promulgada – incluindo os da Deutsche Wohnen SE, que possui mais de 100.000 unidades em Berlim.

A votação local, que se aplica a empresas imobiliárias que possuem mais de 3.000 unidades de aluguer, sublinha a crescente divisão entre as pessoas que se sentem excluídas de um mercado de arrendamento cada vez mais caro, e aquelas que querem manter Berlim como um centro que atrai empresas, capital e investimento habitacional.

Ryan della Sala, ativista argentina, artista performativa e membro da organização Midragntas, um projeto para ajudar migrantes queer nos seus processos de integração, considera a gentrificação um dos maiores entraves na vida da comunidade migrante. “Como se não chegasse as rendas serem tão caras, para migrantes conseguir encontrar um apartamento está longe de ser tão fácil quanto encontrar um trabalho precário. É realmente difícil e acabamos a viver em más condições. Além do mais, na Alemanha se não conseguires um registo na casa também não tens acesso ao sistema de trabalho. Ser migrante já é difícil, mas ser migrante e queer é ainda pior”, garante. A mensagem é clara: “Está na hora de expropriar”.


Artigo atualizado a 01 de outubro de 2021

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