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Já se sabe como evitar a transmissão do VIH. Será o fim da Sida?

Já se sabe como evitar a transmissão do VIH. Será o fim da Sida?

Foto: Lex Kleren
Sociedade 4 min. 06.05.2019

Já se sabe como evitar a transmissão do VIH. Será o fim da Sida?

A epidemia do vírus da sida pode ter os dias contados. Como? Impedindo a transmissão da doença em relações sexuais desprotegidas. E isso já é possível, confirmam os resultados de um estudo publicado pela revista The Lancet. Em Portugal e no Luxemburgo, onde as taxas da doença são elevadas, esta descoberta pode ajudar a impedir a contaminação do vírus.

Em 2016, o primeiro feito histórico tinha sido conseguido entre os casais heterossexuais, como provou a primeira parte da pesquisa científica: graças à toma correta do tratamento antirretroviral, os doentes seropositivos não contaminam os seus companheiros saudáveis, através de relações sexuais desprotegidas.

Faltava agora à mesma equipa da University College London, em Inglaterra, verificar se tal acontecia nos casais homossexuais. E acontece, segundo os resultados de um estudo de oito anos, que analisou 972 casais masculinos, em que um dos parceiros é seropositivo.

“É brilhante, fantástico, basicamente arruma a questão” da transmissão do vírus do VIH, declarou ao The Guardian Alison Rodger, que liderou o estudo que pode significar o fim desta doença.


Deputados sugerem acesso de portadores do VIH à canábis medicinal
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A toma completa da medicação antirretroviral, nos indivíduos portadores da doença, consegue tornar indetetável a carga viral presente nos seus organismos. Nestes casos, o estudo agora publicado na revista The Lancet mostrou que estas pessoas podem ter relações sexuais sem preservativo que não transmitem o vírus da sida.

Ao longo de oito anos, o estudo seguiu 972 casais masculinos de toda a Europa, entre 2010 e 2017, em que um dos parceiros era seropositivo e estava a fazer medicação para suprimir o vírus.

Os resultados provaram que nenhum dos seropositivos que receberam medicação para eliminar a carga viral contaminou o seu companheiro saudável. Não houve nem um caso entre os quase mil casais que tinham sempre relações sexuais sem proteção.

Nestes oito anos, houve, contudo, 15 participantes que contraíram a doença, mas tal aconteceu porque estes indivíduos “traíram” os seus companheiros, tendo tido relações sexuais desprotegidas com outros homens. Através de análises genéticas, os investigadores descobriram que os vírus que lhes foram transmitidos não eram do mesmo tipo dos dos seus companheiros participantes no estudo.

“As nossas descobertas fornecem evidências conclusivas para os homossexuais, de que o risco de transmissão do VIH com terapia antirretroviral que suprime a carga viral é zero”, vinca Alison Rodger.

As nossas descobertas fornecem evidências conclusivas para os homossexuais, de que o risco de transmissão do VIH com terapia antirretroviral que suprime a carga viral é zero.    

Para esta docente e investigadora a mensagem de que “uma carga viral indetetável torna o VIH intransmissível pode ajudar a acabar com a epidemia do VIH, prevenindo a transmissão e combatendo o estigma e a discriminação que muitas pessoas enfrentam”.

Também o diretor médico da Terrence Higgins Trust, uma instituição britânica de apoio aos seropositivos, Michael Brady, frisou a importância e o impacto desta descoberta. “O estudo permite dizer, sem sombra de dúvida, que seropositivos que recebem tratamento efetivo não podem transmitir o vírus VIH aos seus parceiros sexuais”, declarou ao jornal britânico.

Este avanço, garantiu, “tem um impacto incrível na vida das pessoas que vivem com o VIH e é uma forte mensagem contra o estigma do VIH”.

Em 2017, havia quase 40 milhões de pessoas em todo o mundo a viver com VIH, dos quais só 21,7 milhões estavam em tratamento antirretroviral, segundo dados citados pelo The Guardian.

Portugal e Luxemburgo com números preocupantes

Portugal é o segundo país da Europa com mais mortes por doenças relacionadas com a infeção do vírus da Sida (principalmente pneumonia e tuberculose), com 134 casos, em 2017, e o quarto com mais novos casos de VIH/sida por 100 mil habitantes, segundo os dados de 2017, do Centro Europeu para o Controlo e prevenção de Doenças e da Organização Mundial de Saúde. No caso dos óbitos, só a Roménia tem mais mortes por doenças associadas ao vírus (170) , e nos novos diagnósticos estamos apenas atrás da Letónia (18,8), Estónia (16,6) e Malta (10,4), indicam o mesmo relatório de 2017.

Em Portugal, mais de metade das novas infeções são detetadas tardiamente, de acordo com um relatório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, citado pelo Jornal Público, o que pode explicar a alta taxa de mortalidade.

A transmissão do vírus entre homossexuais, em relações desprotegidas, continua a ser a causa principal entre os novos diagnósticos, de acordo com este relatório de 2017, do Instituto Nacional de Saúde.


Luxemburgo atinge número recorde de infectados pela sida
O número de infetados pela doença em 2017 é o mais elevado de sempre no Grão-Ducado. As relações sexuais sem proteção continuam a ser a principal forma de propagação do vírus.

Mais de seis em cada dez casos de VIH diagnosticados em pessoas entre os 15 e os 29 anos, em Portugal, ocorre em homens que têm sexo com homens, segundo este relatório oficial. O relatório de 2017 das infeções por VIH/sida do Instituto Ricardo Jorge mostra que os casos de VIH entre homossexuais corresponderam a 64,1% dos casos diagnosticados em pessoas entre os 15 e os 29 anos.

Também no Luxemburgo, os números da doença são preocupantes. Em 2017, o Grão-Ducado voltou a atingir um número recorde de novas infeções pelo vírus da sida, com o registo de 101 casos, segundo o relatório anual do Comité de Vigilância da Sida. Também o número de novas infeções é o mais elevado de sempre no país, tendo contraído o vírus 74 homens e 27 mulheres.

As relações sexuais desprotegidas continuam a ser a principal forma de propagação, seguindo-se a partilha de seringas entre os utilizadores de drogas por via intravenosa, algo que afeta sobretudo o grupo etário dos 26 aos 35 anos.