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Isto não é o princípio do fim, é apenas o fim do princípio
Editorial Sociedade 2 min. 08.04.2020

Isto não é o princípio do fim, é apenas o fim do princípio

Isto não é o princípio do fim, é apenas o fim do princípio

Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 08.04.2020

Isto não é o princípio do fim, é apenas o fim do princípio

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Garantir políticas de recuperação económicas justas e solidárias, é não prescindir da liberdade. Só vai existir liberdade com democracia e justiça social. A alternativa são governos cada vez mais autoritários, que afirmam combater as pandemias futuras, mas apenas querem defender os negócios presentes.

O meu pai dizia que a minha geração tinha a enorme vantagem de ter começado a vida em liberdade. Tinha 17 anos quando foi preso, pela primeira vez, pela PIDE. Não aceitava viver em ditadura e o regime, fragil no seu autoritarismo de meio século, temia aqueles que não se mantinham em silêncio. Assim, as prisões sucediam-se.

Tanto tempo preso e a existência de uma ditadura que parecia não ter fim, fazia que cada momento vivido ganhasse uma outra urgência. Que cada abraço fraterno e cada amor fossem como se pudessem ser os últimos.

A vantagem das gerações que se seguiram era uma espécie de tempo a mais sem interrupções nem prisões.

O argumento não deixa de ter uma parte da verdade, mas ignora um outro lado. Muitas vezes são os tempos mais difíceis que nos obrigam a fazer das fraquezas forças e arranjar novas soluções que ultrapassem os muros e as dificuldades que parecem intransponíveis.

Dizia Orson Welles, num conhecido monólogo do filme “Terceiro Homem”, que a Itália tinha tido guerras civis, massacres e inúmeros crimes, em compensação tinha produzido o Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli e outros nomes. A Suíça tinha tido cinco séculos de democracia e paz e tinha conseguido o relógio de cuco”.

Obviamente que o monólogo é uma simplificação, mas não deixa de ser uma parábola que, como dizem os italianos, se non è vero, è ben trovato.

Teria sido obviamente melhor que esta crise sanitária e a destruição económica que se vai seguir nunca tivessem acontecido. Mas não dá para voltar ao passado. É preciso atuar para prevenir a disseminação de novas pandemias e lutar para que o preço da crise não seja quase todo pago por aqueles que trabalham e pelos mais pobres.

A resposta a novas doenças implica um modelo sustentado e ecológico de utilização do planeta e um reforço do investimento público no Estado Social e nos serviços nacionais de saúde de todos os países. Isso implica outras políticas económicas a nível mundial.

Neste momento, discute-se como a União Europeia vai acudir a esta calamidade. A ortodoxia europeia neoliberal insiste nos caminhos que nos levararam até aqui, em políticas económicas que garantam uma fatia cada vez maior dos rendimentos ao capital financeiro, destruindo normas laborais e privatizando e degradando serviços públicos, como o acesso à saúde. A manutenção destas receitas vai levar-nos à repetição deste desastre e ao empobrecimento generalizado da maioria da população.

Uma tal situação de desigualdade só é possível de garantir estabelecendo estados cada vez mais autoritários que, com a desculpa de combaterem as pandemias, criem aparelhos de repressão para garantir que a maioria da população aceite o seu negro destino de pobreza.

Garantir políticas de recuperação económicas justas e solidárias, é não prescindir da liberdade. Só vai existir liberdade com democracia e justiça social. A alternativa são governos cada vez mais autoritários que afirmam combater as pandemias futuras, mas apenas querem defender os negócios presentes.

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