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Investigadora luxemburguesa cria 'app' para ajudar crianças portuguesas a aprender a ler
Sociedade 1 4 min. 22.10.2018 Do nosso arquivo online

Investigadora luxemburguesa cria 'app' para ajudar crianças portuguesas a aprender a ler

Investigadora luxemburguesa cria 'app' para ajudar crianças portuguesas a aprender a ler

Foto: Shutterstock
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Investigadora luxemburguesa cria 'app' para ajudar crianças portuguesas a aprender a ler

Um projeto para ajudar as crianças imigrantes no pré-escolar a aprenderem a ler, da investigadora Pascale Engel de Abreu, foi premiado a nível nacional. Na calha está já o desenvolvimento de uma ferramenta informática para telemóveis e 'tablets', uma 'app' destinada a ajudar as crianças portuguesas a partir do pré-escolar.

Chama-se LALA ("Lauter Lëschteg Lauter", que poderia ser traduzido por "Alto Engraçado Alto"), e é um programa que recorre a jogos no pré-escolar para ajudar as crianças a desenvolver competências de leitura, sobretudo as que não têm luxemburguês como língua materna. Desenvolvido pela investigadora Pascale Engel de Abreu, da Universidade do Luxemburgo, o projeto foi um dos seis distinguidos nos Prémios FNR (Fundação Nacional para a Investigação, na sigla em francês).

Na base do projeto estão dados preocupantes. Segundo a investigadora, quase metade das cinco mil crianças que todos os anos entram no pré-escolar têm dificuldades mais tarde para aprenderem a ler. Aos nove anos, estas crianças "não conseguem atingir as metas mínimas nacionais na leitura". Dez por cento destas crianças desenvolvem mesmo graves dificuldades para ler.

"Antes de começarem a escola, as crianças têm de desenvolver um conjunto de competências que as vão preparar para o complexo desafio de aprender. A investigação mostra que o desenvolvimento destas chamadas competências pré-literacia podem ser reforçadas com os métodos corretos no pré-escolar. Isto ajuda as crianças a aprender a ler", explica a investigadora luxemburguesa Pascale Engel de Abreu, que é casada com um brasileiro e é fluente em português.

Foi para melhorar as hipóteses de sucesso destas crianças na escola - muitas das quais são filhas de imigrantes, incluindo portugueses - que o Grupo de Linguagem e Desenvolvimento Cognitivo da Universidade do Luxemburgo criou um método inovador. O LALA - liderado por Pascale Engel de Abreu - recorre a jogos e atividades lúdicas para familiarizar as crianças com sons na linguagem oral, relacionando-os com as respetivas letras, que mais tarde lhes vão ser úteis para aprenderem a ler - a chamada "consciência fonológica". Por outras palavras, uma criança que tem a noção de como se pronuncia a letra B, por exemplo, vai ter menos dificuldades mais tarde quando chegar à escola para aprender a ler e escrever. "Por exemplo, o som "K": os professores perguntavam às crianças palavras na língua delas com este som, e podia ser em português, como por exemplo 'cachorro'", conta a investigadora.

O projeto "foi pensado para desenvolver o luxemburguês, que é a língua do pré-escolar, sobretudo de forma a permitir às crianças que não falam luxemburguês em casa melhorá-lo, para depois terem menos dificuldades a aprender a ler em alemão", explicou ao Contacto Pascale Engel de Abreu.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

O estudo durou três anos e envolveu 200 crianças, "muitas das quais portuguesas", tendo sido testado em oito escolas no país. "Todas as crianças fizeram enormes progressos, tanto os bons alunos como os com mais dificuldades", garante a investigadora. Particularmente encorajador foi o facto de as crianças que não falam luxemburguês em casa, como língua materna, mostrarem também bons resultados, apesar de o programa ser em luxemburguês. "Esse era o grande objetivo do programa, porque as crianças que não falam luxemburguês em casa são as que têm mais dificuldades para aprender a ler em alemão".Na sexta-feira, o projeto LALA recebeu um dos seis prémios atribuídos pela FNR. O programa pode vir a ser implementado a nível nacional. "Estamos prontos para implementar este programa nas escolas. Agora, a bola está do lado do Ministério [da Educa4ão]", disse hoje Pascale engel de Abreu a este jornal.

Na calha está também o desenvolvimento de uma 'app' (uma ferramenta informátiva) destinada a crianças portuguesas. O projeto conta com um apoio financeiro de 246 mil euros do FNR, e deverá ser desenvolvido durante 24 meses, estando previsto o arranque em novembro deste ano.  A aplicação para telemóvel destina-se a "melhorar as competências pré-literacia [antes da leitura] das crianças que falam português, com idades entre os três e os seis anos", explica-se na página do projeto, no site da Universidade do Luxemburgo. Quando estiver concluída - o que não deverá acontecer antes de 2020 - "será a primeira app [aplicação] de leitura deste tipo para o mercado português".

O objetivo é o mesmo do programa LALA, e recorre aos mesmos métodos: "brincar com palavras, sons e letras", para melhorar a capacidade das crianças portuguesas para mais tarde aprenderem a ler. A primeira versão desta 'app' educativa vai ser desenvolvida em português, mas a investigadora quer também mais tarde disponibilizá-la nas três línguas oficiais do Lxuemburgo. "O meu sonho seria fazer esta primeira 'app' em português do Brasil e de Portugal e depois ter também as três línguas do país", avançou ao Contacto.

A aplicação para telemóvel junta dois grandes projetos de investigação de Pascale Engel de Abreu: os métodos pedagógicos desenvolvidos com o LALA e a pesquisa que aponta para a importância de reforçar a língua materna das crianças portuguesas para melhorar as suas hipóteses de sucesso escolar.

Paula Telo Alves

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