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Investidores luxemburgueses interessados em implantes de chips eletrónicos

Investidores luxemburgueses interessados em implantes de chips eletrónicos

Foto: AP
Sociedade 4 min. 27.11.2018

Investidores luxemburgueses interessados em implantes de chips eletrónicos

Catarina OSÓRIO
Investidores luxemburgueses demonstraram recentemente interesse numa tecnológica sueca que desenvolve microchips para serem implantados em pessoas. A medida está a gerar controvérsia entre sindicatos, eticistas e fabricantes desta tecnologia. 

O alarme soou há algumas semanas, o maior sindicato inglês denunciou ao jornal The Guardian: algumas empresas britânicas ponderam implantar microchips nos trabalhadores alegadamente para reforçar a segurança no trabalho. O Contacto confirmou que não se trata de um cenário de ficção científica. "Nós providenciámos [os implantes] a vária empresas e alguns trabalhadores optaram por colocar, outros não", confirma Steven Northam ao Contacto, diretor da BioTeq, uma das fabricantes destes microchips.

A empresa confirma que implantou 150 chips, e apesar de não avançar nomes das empresas que estão a oferecer o "serviço" aos empregadores, Steven assegura que "nenhuma delas está de modo algum a obrigar o implante", e fala que são uma "opção" ao critério de cada trabalhador. A Biohax, por sua vez, reclama ter implantado microchips em 4000 pessoas, a maioria na Suécia.

Tanto a Biohax como a BioTeq asseguram ao Contacto que não há empresas luxemburguesas que tenham encomendado o chips. No entanto, o CEO da empresa sueca revela ao Contacto, que investidores privados com sede no Luxemburgo manifestaram recentemente interesse em investir na tecnologia. Quem são e em que se traduziria esse interesse na prática não foi possível saber até à data.

Mas qual é a utilidade dos microchips? Os implantes podem ser utilizados no contexto pessoal e profissional. Ambas as empresas já venderam estes implantes tanto a indivíduos como a empresas. A nível pessoal os chips podem ser usados para ligar o carro, abrir portas, desbloquear o telemóvel, aceder ao ginásio ou armazenar informação relativo a treinos ou ainda para armazenar dados médicos de cada indivíduo.

Em contexto de trabalho, as opções também são várias, mas nada que cartões ou computadores já não o façam. "Gestão de acesso ao edifício (abertura de portas, por exemplo), entradas e saídas, reservar livros ou salas de reuniões, pagamento nas cafetarias", enumera Jowan Österlund, CEO da Biohax, empresa sueca fabricante desta tecnologia, ao Contacto.

"Chega à ideia das vacas e das cabras", diz sindicalista

O desagrado de Eduardo Dias, sindicalista na OGBL no Luxemburgo, perante o implante de microchips em trabalhadores é contundente. "Tudo o que não é proibido é permitido. Chega à ideias das vacas e das cabras, porque não vamos fazer a mesma coisa com as pessoas?", ironiza. Apesar de reconhecer alguns benefícios nas novas tecnologias o sindicalista teme que práticas como esta perpetuem a "situação de subordinação dos trabalhadores". "Quer vir para cá leva o chip, se não quiser não leva chip nenhum, mas também não tem trabalho", argumenta.

Para além desta questão, Philippa Back, diretora do Institute of Business Ethics, levanta um outro dilema ético relacionado com o caráter invasivo desta tecnologia a nível físico, bem como a utilização dos dados dos utilizadores pelas empresas. "Se há empresas a fazer isto nós sugerimos que elas considerem as implicações, pessoais para privacidade dos trabalhadores e no que respeita à segurança dos dados dos trabalhadores", considera Philippa Back.

Tanto a Biohax e a BioTeq reiteram que nenhum empregador pode obrigar um trabalhador e colocar o implante, o que não seria ético. Mas não explicam de que forma são processados os dados dos trabalhadores, que dados em concreto são processados e com que fins pelas empresas.

Microchips são uma "ferramenta de liberdade"

É especialmente neste ponto que os defensores da tecnologia convergem. Para os criadores dos implantes os microchips são vistos como uma "ferramenta de liberdade", "em prol do utilizador, pelo utilizador e com o utilizador", escreve Jowan na sua página de LinkedIn.

Segundo o CEO da Biohax, o microchip é "mais eficiente", "traz mais controlo e poder aos utilizadores sobre os seus próprios dados, muito mais sustentável do que ter dez cartões diferentes na carteira. "Estamos a dar às pessoas a possibilidade de terem a sua própria identidade digital e terem maior controlo sobre ela", reitera Jowan. O empreendedor sueco, que implantou, aliás, um microchip em si próprio, rejeita que esta tecnologia se trate de uma forma de controlo e explica que "não é muito diferente do que já existe, por exemplo com um cartão da empresa ou um documento em papel". "

"Por exemplo, quando entramos de manhã e fazemos login no computador ou se não passas o cartão à entrada. Qualquer que seja a forma, física ou digital, se um empregador quebrar as regras é igual", argumenta.

Em oposição, a diretora do Institute of Business Ethics acredita que implantar microchips em trabalhadores "passa uma mensagem errada". "As empresas deverão questionar-se, porque é que queremos fazer isto? Se é por falta de confiança sugerimos que procurem outras formas de os seus empregados agirem de forma correta. Se é por uma questão de conveniência, nesta fase os dilemas éticos sobrepõem-se largamente aos benefícios", remata Philippa.

Só nas últimas semanas a Biohax recebeu cerca de 100 pedidos de empresas que estão interessadas em oferecer esta tecnologia como opção, apesar de não divulgar nomes concreto. Como Philippa Back interroga, "estamos a ver um aumento do número de notícias sobre estes implantes em trabalhadores, mas está ainda por saber quem são as empresas que estão realmente a usá-los".

 Jowan acredita que os implantes de microchips vão revolucionar toda a área tecnológica, com maior relevância na blockchain e AI (inteligência artificial). "A oposição a esta tecnologia é comparável à década de 60 quando os computadores eram considerados os anti-Cristos. Isto não é mesmo contra os indivíduos", remata.

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