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Injeção de nacionalismo ou presente no sapatinho
Opinião Sociedade 4 min. 23.12.2020

Injeção de nacionalismo ou presente no sapatinho

Injeção de nacionalismo ou presente no sapatinho

Foto: dpa
Opinião Sociedade 4 min. 23.12.2020

Injeção de nacionalismo ou presente no sapatinho

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A geopolítica das vacinas da covid-19 tem de vir acompanhada de uma discussão sobre ética: os países ricos já encomendaram tantas vacinas quanto a população do planeta, o que nos obriga a perguntar – e os países pobres? Uma crónica de Raquel Ribeiro

É já a seguir ao Natal que, tanto em Portugal (dia 27) como no Luxemburgo (28), começa a vacinação em massa, primeiro de trabalhadores de saúde e essenciais, depois de idosos – e por aí fora. Um presente no sapatinho, porque esta é a vacina mais rápida da história da humanidade. Espera-se que, até à primavera, diz a DGS, 500 mil pessoas terão sido vacinadas em Portugal. A China começou em julho, já terá vacinado 650 mil pessoas, estimando chegar aos 50 milhões em fevereiro.

A discussão ética foi levantada num artigo na Science, de Setembro, sobre decisões que determinarão a distribuição da vacina por vários países, envolvendo questões de opinião pública, diplomacia, economia e saúde púbica. “Vários líderes, organizações internacionais e fabricantes de vacinas reconhecem que um dos fatores centrais na decisão [de distribuição] é ética”, diz o artigo assinado por 18 cientistas que defendem o Modelo de Prioridade Justo, apontado a três decisores: a iniciativa global COVAX, criada pela Gavi (de Bill e Melinda Gates e outros parceiros), Organização Mundial de Saúde (OMS) e Coligação para as Inovações de Preparação Epidémica (CEPI); em segundo lugar, os fabricantes (muitos “já se comprometeram publicamente numa distribuição internacional ‘alargada e justa’”, dizem); em terceiro, os governos.

O objetivo da Covax é providenciar aos 181 países participantes da aliança um acesso equitativo e progressivo a 2 mil milhões de doses até ao fim de 2021. Não é ideal, é o possível: vacinar 20% das populações dos respectivos países. A ideia é que o financiamento das economias mais ricas e poderosas consiga garantir um preço mais reduzido das vacinas para países de rendimento baixo-médio. Em liberalês, uma espécie de “vaquinha” que garanta uma vacina acessível àqueles que não conseguem pagar. Em linguagem de cooperação: co-financiamento, solidariedade, distribuição da riqueza.

A UE, o Reino Unido, o Canadá, a China são alguns desses países. Os Estados Unidos escolheram não fazer parte da Covax. Não admira, portanto, que Trump tenha assinado no início de dezembro um decreto estilo “America First”, garantindo que os EUA tenham acesso às vacinas produzidas por empresas norte-americanas antes de elas poderem ser distribuídas por outros países. Um artigo da Foreign Affairs ironizava as declarações de um dos responsáveis da US Food and Drug Administration, segundo o qual o Governo Trump comparava a distribuição de vacinas contra a covid-19 com máscaras de oxigénio libertadas durante a despressurização da cabine num avião: “A grande diferença, claro, é que as máscaras de oxigénio de um avião não caem somente na primeira classe – o que é equivalente ao que vai acontecer, quando vacinas estiverem disponíveis, se os governos adiarem [ou proibirem, acrescento eu] o acesso a elas por parte de outros países”.

A injeção de nacionalismos nas vacinas já se está a fazer sentir. Na revista científica WHO Bulletin, uma publicação da OMS sobre políticas de saúde pública, divulgada há semanas realçava o nacionalismo como um dos entraves ao acesso a vacinas pelo Sul Global. O açambarcamento de doses é uma das preocupações da OMS: “Já foram adquiridas 3.700 milhões de doses por países de altos rendimentos, através de acordos bilaterais, 1.700 milhões de doses por países de baixos-médios rendimentos e ainda 700 milhões por países de rendimento alto-médio”, citava o Público no final de novembro. Foi por isso que o CEPI escolheu para a distribuição mundial vacinas provenientes de diferentes partes do globo: três dos nove candidatos vêm dos EUA, três da Europa e os restantes da Ásia. “Países que detêm o fabrico de vacinas no seu território poderão solicitar ou apreender os produtos e não permitir que sejam exportados. Queríamos ter diversidade em termos de localização do fabrico para reduzir este risco tanto quanto possível”, explica a OMS na revista.

A investigadora Els Torreele, do University College London, escreveu na “Development” que o “business as usual” na corrida pelas vacinas da covid-19 estava a expor o sector farmacêutico guiado por “interesses corporativos e não por resultados de saúde”. Em vez de “reforçar um conhecimento coletivo, este depende da competição entre vacinas patenteadas e consente que o nível de segurança e eficácia seja reduzido”. Relembrando a importância da investigação farmacêutica através de financiamento estatal, ainda comum em alguns países, as vacinas, diz, são intervenções de saúde pública, não são commodities para serem negociadas como mercadorias. É isto, acrescenta, que pode pôr em risco a saúde das pessoas e também contribuir para “minar a sua confiança” nas vacinas e na ciência.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.) 

 

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