Imigrantes

Regressar a Portugal é cada vez mais uma miragem

O “mito do retorno” é há muito desmentido pela realidade da imigração, mas este é um dos primeiros estudos a constatá-lo no Luxemburgo, defende a investigadora.
O “mito do retorno” é há muito desmentido pela realidade da imigração, mas este é um dos primeiros estudos a constatá-lo no Luxemburgo, defende a investigadora.
Cartoon: Florin Balaban

O “mito do regresso” é cada vez mais uma miragem para a maioria dos imigrantes portugueses da primeira geração, aponta um novo estudo da Universidade do Luxemburgo. Na decisão de ficar no país de acolhimento pesam sobretudo a ligação aos netos que já nasceram no país e o acesso a cuidados de saúde.

A questão foi colocada a 109 imigrantes portugueses, metade dos quais mulheres. A idade média dos participantes no inquérito era de 55 anos: 64,8% ainda a trabalhar e 31,4% na reforma. O objetivo era saber que planos têm quando chegarem à reforma – ficar no país de acolhimento ou regressar a Portugal –, e que fatores influenciam essa decisão.

A maioria dos inquiridos (43%) quer ficar no Luxemburgo, contra apenas 21,5% que pretende regressar a Portugal. E depois, há a “terceira via”: viver entre os dois países, passando parte do ano em Portugal e o restante no Luxemburgo (25%).

A amostra é demasiado pequena para tirar conclusões perentórias, admite Stéphanie Barros Coimbra, uma das investigadoras que assina o estudo “Planos futuros e regulação do bem-estar de imigrantes portugueses idosos no Luxemburgo” (no original, “Future plans and the regulation of well-being of older Portuguese immigrantes in Luxembourg”). Mas a psicóloga acredita que os resultados confirmam “uma tendência geral”, já demonstrada por estudos europeus. “Os imigrantes começam a sentir-se em casa aqui, construíram casa e constituíram família aqui, e não é fácil regressar a um país de origem que mudou nos últimos 30 anos”, explica ao Contacto Stéphanie Barros Coimbra.

E se o “mito do retorno” é há muito desmentido pela realidade da imigração na Europa, a investigadora diz que este é um dos primeiros estudos a constatá-lo no Luxemburgo. “Agora, temos dados científicos para comprovar essa teoria”.

Sonho muda

O sonho de voltar era também alimentado pelos portugueses que participaram no estudo da Universidade do Luxemburgo. Quando chegaram ao Luxemburgo, 73% dos inquiridos pensavam regressar a Portugal. O que mudou? E o que motiva agora os que decidem ficar no Luxemburgo?

À cabeça das razões estão os netos. “Enquanto os participantes não diferiam em relação ao número de filhos, foi encontrado um efeito significativo quanto ao estatuto de avós”, pode ler-se no estudo. Mais de metade do grupo que prefere ficar no Grão-Ducado (54,5%) tem netos a viver no país, tal como 48,1% dos que optam por dividir o tempo entre os dois países. Em contrapartida, dos 23 que declararam querer voltar a Portugal, só três são avós (13%).

Outra das razões que pesa na balança é o acesso a cuidados de saúde. “De maneira geral, têm mais confiança no sistema de saúde do Luxemburgo: é o que eles conhecem, e mesmo os que decidem partilhar o tempo entre os dois países acabam por vir cá para as consultas com os médicos”, aponta a investigadora portuguesa.

Integração, ou a história do ovo e da galinha

Outros factores analisados pelos investigadores são a ligação à cultura do país de origem e do país de acolhimento. Curiosamente, o apego a Portugal é sensivelmente o mesmo em todos os grupos, embora ligeiramente inferior nos que querem ficar no Luxemburgo. “Há sempre uma ligação à cultura portuguesa muito forte, mas não é essa a influência mais importante”, explica Stéphanie Barros Coimbra. Em contrapartida, a ligação à cultura luxemburguesa parece ter uma influência mais determinante. Sem surpresa, os que querem ficar no Luxemburgo sentem um apego maior ao país (3,20 numa escala de zero a seis, contra 2,94 para os que optam pelo regresso a Portugal). Outro dado: aqueles que sentiram mais dificuldades de integração – aquilo a que no estudo se chama ’stress de aculturação’ – têm mais tendência para querer regressar a Portugal.

Do que os investigadores não estão certos é o que veio primeiro, tal como na história do ovo e da galinha: será o facto de se sentirem mais ligados ao Luxemburgo que leva os imigrantes a querer ficar, ou será a decisão de ficar que determina uma vivência mais aberta no país? “Uma pessoa que toma a decisão de ficar vai investir-se mais no dia-a-dia do país e na cultura e nas línguas”, aponta Stéphanie Barros, sublinhando no entanto que “todos estes fatores estão ligados”. “Uma pessoa que tenciona regressar a Portugal desenvolve menos ligação ao Luxemburgo, enquanto que uma pessoa que se sente aqui como em casa e quer ficar aqui vai sentir menos stress [na aculturação] do que quem tem o plano de voltar”, defende.

Sem surpresa, o tempo passado no país também influencia a decisão. O grupo que pretende regressar a Portugal passou em média 25 anos no país, contra 32 anos para os que querem ficar no Luxemburgo ou viver entre os dois países. “Quanto mais tempo uma pessoa passa no país, mais se sente ligada ao Luxemburgo e provavelmente menos vontade tem de regressar, pelo menos de forma definitiva”, conclui a investigadora.

As conclusões são importantes em matéria de políticas para a terceira idade. “O que o nosso estudo mostra é que grande parte dos imigrantes portugueses querem ficar no Luxemburgo, e daqui a uns anos vai ser preciso adotar medidas para melhorar o quotidiano desta população e facilitar os cuidados nos lares de idosos, por causa, por exemplo, das barreiras linguísticas”, defende a investigadora. Um alerta que já vem sendo feito por associações e investigadores da Universidade do Luxemburgo.

Paula Telo Alves

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