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Imigrantes portugueses são mais vulneráveis à depressão
Sociedade 5 min. 24.01.2020 Do nosso arquivo online

Imigrantes portugueses são mais vulneráveis à depressão

Imigrantes portugueses são mais vulneráveis à depressão

Sociedade 5 min. 24.01.2020 Do nosso arquivo online

Imigrantes portugueses são mais vulneráveis à depressão

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A mudança de vida para um novo país, o Grão-Ducado, longe da família e muitas vezes para um trabalho mais duro pode conduzir a estados depressivos. Também os filhos de imigrantes são mais afetados por esta doença, neste país que é o mais deprimido da Europa.

Os residentes do Luxemburgo são povo mais deprimido da Europa, revelou recentemente um estudo sobre a depressão que comparou os dados dos países europeus, do Instituto Robert Koch, na Alemanha. Um outro estudo realizado pelo Ministério da Saúde do Luxemburgo não coloca o país como o mais deprimido, mas também entre os mais deprimidos.

No Luxemburgo, 10% dos inquiridos confessou sentir-se deprimido, entre 11,7% mulheres (ocupando o segundo lugar atrás de Portugal) e 8,2% homens (os mais deprimidos de todos os países). Os vizinhos alemães são o segundo povo com maior taxa de depressão (9,2%), seguido de Portugal (9,1%) e Suécia (8,8%), de acordo com o estudo do Instituto Kock realizado com base em dados de 2013-2015.

Já os resultados do estudo do EHIS do Luxemburgo, de 2014, o país surge em 6º lugar, com uma taxa de 8,3%, atrás da Alemanha (8,5%), da Islândia (8,8%), da Suécia (9,2%), de Portugal (10,1%) e Hungria (10,3%). São as mulheres mais jovens, com menos de 25 anos, as mais afetadas pela depressão no Grão-Ducado, indica o estudo do Instituto Rock, embora "em geral, a depressão afeta todas as faixas etárias a partir da adolescência. Também ocorre, mas mais raramente em crianças", explica ao Contacto Barbara Bucki, psicóloga do Serviço de Informação e Prevenção da Ligue Luxembourgeoise d’Hygiène Mentale (LLHM).

As razões da segunda geração

Mas também há dois grupos mais vulneráveis à depressão e neles estão incluídos os portugueses: os novos imigrantes que chegam sozinhos ao Luxemburgo, em busca de salários melhores para sustentar a família que ficou no país natal. E os imigrantes de segunda geração, filhos de pelo menos, um imigrante de primeira geração, como revela um estudo do Luxembourg Institute of Health (LIH).


No Luxemburgo existem psicólogos em todos os liceus
Mesmo assim, depressão está em alta entre os jovens adultos, entre os 18 e os 30 anos.

 O alerta para a vulnerabilidade destes imigrantes foi dado ao Contacto por Sébastien Hay, diretor do SOS Détresse, um serviço telefónico de apoio psicológico, e também por email. "No geral, sempre que há uma grande mudança na vida, drástica, como a decisão de emigrar ou uma doença grave ou um traumatismo, por exemplo, a probabilidade de uma pessoa desenvolver uma depressão aumenta", vinca este psicólogo clínico. 

E no caso dos emigrantes, "o facto de se mudarem sozinhos, para um novo país, longe da família, sem amigos e muitas vezes para se sujeitarem a um trabalho mais duro do que desenvolviam no seu país de origem, tudo isto, pode tornar estas pessoas mais vulneráveis, a não se sentirem bem e desenvolverem uma depressão", explica Sébastien Hay. Um problema que pode acontecer aos "novos imigrantes portugueses e de outras nacionalidades, como os de leste, por exemplo".

Mas não só. Também os imigrantes de segunda geração, entre eles os portugueses são mais propensos a estados depressivos como revelam os resultados de um estudo realizado por cientistas do departamento de Saúde Pública, do LIH sobre a "Relação entre Imigração e Depressão", de 2017. "Podemos de facto observar diferenças entre não imigrantes e imigrantes, tanto nos homens como nas mulheres", escreve Maria Ruiz-Castell, a autora principal do estudo.

De acordo com esta investigadora, os imigrantes, especialmente os de segunda geração, ou seja, os nascidos no Luxemburgo, com pelo menos um progenitor nascido num país que não o Grão-Ducado, apresentavam um risco mais elevado de sintomas depressivos do que os não imigrantes. "Os desafios da integração ou o conflito interno emocional de se pertencer a duas culturas podem ser duas das possíveis explicações para esta descoberta, contudo é preciso uma investigação mais aprofundada", explica Ruiz-Castell.

Mulheres jovens as mais afetadas

No geral, são as mulheres jovens as mais afetadas pela depressão no Grão-Ducado, e também na Alemanha, ao contrário de outros países como Portugal, onde a maior prevalência da doença se encontra nas idades mais avançadas, indica o estudo do Instituto Rock. Quais as razões para que as jovens sofram mais de estados depressivos? "A resposta não é simples", diz Barbara Bucki, da LLHM, cujo combate e prevenção da depressão e do suicídio são os seus principais objetivos.

"Várias hipóteses podem ser consideradas. Por exemplo, as mulheres podem estar sujeitas a mais stress do que os homens. Em países onde há menos desigualdade entre os sexos, geralmente há uma menor diferença entre os sexos [em relação à doença]. É o caso do Luxemburgo, onde a diferença entre homens e mulheres é menos significativa do que em outros países", justifica. 


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A doença silenciosa que pode levar ao suicídio
A depressão pode conduzir ao mais trágico desfecho: o suicídio.

Um dos problemas é descobrir as razões para o estado depressivo. "A depressão é um transtorno de humor multifatorial. Uma única causa não pode explicar o início de um episódio depressivo. Geralmente há uma combinação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e contextuais", explica a psicóloga. Por isso, adianta, para obter um "verdadeiro diagnóstico, é importante, antes de mais nada, consultar um profissional".

Mas, antes de tudo é preciso chegar às pessoas, informá-las e levá-las a procurar ajuda. Por isso, a LLHM acaba de lançar a campanha "Et si j’en parlais à un psy?" ("E se eu falasse com um psicólogo?" em português), destinada a quem sinta que está diferente e que possa precisar de ajuda profissional. Talvez esteja a entrar ou já esteja num estado depressivo. A campanha está a ser divulgada nas redes sociais, no Facebook e no Instagram– e em brochuras que estão a ser distribuídas junto de médicos, nas farmácias, associações e municípios. "Também gostaríamos de as distribuir nas escolas. E vamos distribuir nas universidades", conta Barbara Bucki.

No país existem vários locais com sessões de psicologia gratuitas, em certas associações sob acordo, nas escolas, em hospitais entre outro locais. Está também previsto que o governo passe a comparticipar parte do custo das consultas de psicoterapia no privado. "Estão a decorrer negociações para decidir as condições e modelos concretos em que a comparticipação será feita", diz a psicóloga da LLHM.

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