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Idosos. O isolamento pode ser tão fatal como as doenças do coração
Sociedade 9 min. 24.06.2020

Idosos. O isolamento pode ser tão fatal como as doenças do coração

Idosos. O isolamento pode ser tão fatal como as doenças do coração

Foto: dpa-tmn
Sociedade 9 min. 24.06.2020

Idosos. O isolamento pode ser tão fatal como as doenças do coração

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Especialistas alertam para o perigo de um reconfinamento dos idosos já tão fragilizados com a pandemia. Nesta população houve um aumento das depressões e dos problemas psicológicos. O Contacto conversou com duas utentes de um lar que contaram o medo e a ansiedades que sentiram nestes meses.

A covid-19 está a ser, na verdade, uma “pandemia geriátrica e os idosos as suas maiores vítimas”, declara ao Contacto Manuel Carrageta, presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria (SPG) e cardiologista.

Já antes da pandemia esta população era a mais vulnerável e mais frágil, sobretudo a que vive em lares de idosos, algo que se agravou muito com a covid-19. Os idosos são o maior grupo de risco, onde ocorreram metade das mortes na maior parte dos países, como Portugal.

Uma tragédia que provocou sérias consequências psicológicas nos idosos. “Com a crise pandemia as depressões aumentaram nesta população bem como o agravamento das demências”, alerta ao Contacto Manuel Caldas de Almeida, Provedor da Misericórdia de Mora, Alentejo, e médico geriatra.

Por isso, este especialista só espera que com o desconfinamento, os portugueses continuem a respeitar as medidas de prevenção contra a propagação da doença, para que não haja uma “segunda vaga” o que seria muito preocupante, nesta altura, para a “população idosa”, defende Caldas de Almeida que é também vice-presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas.

E justifica: “Estas pessoas já estão muito fragilizadas com tudo o que passaram nos últimos meses, e se tiverem de ser sujeitas a um reconfinamento vai ser ainda mais grave e aumentar ainda mais os problemas psicológicos que os afetam”.

Ainda esta semana, a ministra luxemburguesa da Família, Corinne Cahen, alertou que os idosos “continuam a ser um grupo de risco, mas agora têm de aprender a viver com o vírus”.


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Os especialistas Manuel Carrageta e Caldas de Almeida são peremptórios: O estado de ansiedade causado pela covid-19, pelos noticiários televisivos e o isolamento em que os idosos foram obrigados a viver durante mais de dois meses, sem poderem estar com os seus familiares, sobretudo, os que vivem em lares, são as causas principais do aumento dos problemas psicológicos destas pessoas.

“Estas situações de isolamento e de solidão constituem fatores de risco tão graves como a diabetes ou as doenças cardiovasculares”, alerta Manuel Carrageta, antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. E explica que estes fatores conduzem igualmente ao “aumento da tensão arterial não controlada e a inflamações nas artérias do coração que pode tornar-se fatais, tal como a diabetes e as patologias cardíacas”.

“Os idosos têm de continuar a ter voz”

“Os idosos têm de continuar a ter voz”, e nesta situação “teria que se lhes ter perguntado se durante o isolamento queriam ter continuado a ter visitas”, reclama o presidente da SPG.

Em seu entender os idosos que vivem em centros ou lares não deviam ter ficado tantos meses sem ver os familiares. “Os que desejassem devia-se ter designado um familiar, formá-lo e uma

vez por semana, munido de todas as medidas de prevenção, permitir que fosse visitar o utente”. Para impedir que tal afetasse a sua saúde mental.

“Todos nós tivemos medo do vírus”

A Prof. Conceição de 84 anos e a D. Diodata, de 86 anos, tiveram a sorte de passar pelo confinamento podendo ver e falar com os seus filhos e familiares semanalmente, no Lar de Idosos da Misericórdia de Mora, Évora, onde vivem. Viam-nos através dos vidros fechados das janelas dos seus quartos com eles a sorrir e a comunicar do jardim do lar, e ficavam mais felizes. Ali, naquele centro que pertence à Misericórdia de Mora todos os utentes puderam fazer o mesmo e o marcou toda a diferença. “Foi muito bom poder continuar a ver as minhas filhas”, confirma a Prof. Conceição, como continua a ser conhecida em Mora, onde foi docente da escola primária da vila durante muitos anos.

Com o cabelo branco arranjado, vestido preto e uma voz clara e pausada a Prof. Conceição confessa que teve muito medo da epidemia. “De certeza que todos nós aqui tivemos medo do vírus, era uma aflição ver os noticiários”, diz. Contudo, os utentes durante o dia conviviam uns com os outros e numa espécie de terapia de grupo contavam os seus receios o que os tranquilizava um pouco. “Falávamos dos nossos medos e anseios, desabafávamos uns com os outros, foi bom podemos falar”. De noite era pior. “Depois das notícias eu pensava se a doença chegasse e eu ficasse infetada e pudesse infetar os outros. Meu Deus, a responsabilidade que eu teria. Ou então que podia morrer se fosse contaminada. Isso metia-se na cabeça e eu já nem conseguia dormir”, assume a Prof. Conceição. Já está mais calma. “O pior já passou, mas ainda tenho medo pelas minhas filhas que estão em Lisboa”. Agora, a Prof. Conceição já pode falar com elas sem um vidro pelo meio, mas mantendo as distâncias exigidas. “Sinto falta de ir ao café, de ir à rua, mas ainda ando só aqui pelo pátio. É mais seguro”. “Tenho esperança de que a epidemia não volte atrás”, perspetiva.

Ao seu lado, D. Diodata de camisa clara e cabelo igualmente arranjado, mas mais escuro frisa: “Eu não morri de medo, nunca deixei de dormir, mas ficava assustada, sim, com as notícias que a cada dia mostravam os lares em Portugal e as pessoas a irem de ambulância”. Esta alentejana confessa que a transtornava “os números de mortos a aumentar. Aqui e nos outros países”. Porém, tal como a Prof. Conceição, “ajudava imenso falarmos uns com os outros sobre tudo o que se passava e sobre as nossas preocupações”. D. Diodata, de 86 anos frisa que no lar “somos todos amigos e isso fez-nos estar mais tranquilos”. O que para ela foi “muito importante, pois sou doente do coração”. Estima que o pior já passou. “Nós já não somos raparigas novas e pensa-se sempre o que pode acontecer connosco e numa situação como a epidemia, isso passava-me pela cabeça, claro”, confessa D. Diodata. Por isso, agora diz-se pronta “para passear com a autorização do cardiologista”. “Temos de ir a Fátima Dra.”, pede voltando-se para Diana Pinho, a diretora deste Lar de Idosos, em Mora.

Os idosos andavam “assustadíssimos”

Esta responsável conta que para os utentes foi muito importante verem os filhos e familiares durante o confinamento. “Assim puderam ‘matar’ mais um pouco as saudades do que através das videochamadas e telefonemas, porque estavam a vê-los à sua frente, mesmo que através de um vidro”. Se os familiares dos utentes de todos os lares pudessem ter visitado os seus idosos como ali no lar de Mora, certamente, iriam ter ficado mais tranquilos e menos ansiosos durante os meses de confinamento, considera Diana Pinho.

Manuel Caldas de Almeida, o Provedor da Misericórdia de Mora, entidade à qual pertence este Lar de Idosos confirma ao Contacto que durante os meses de confinamento “os idosos andavam assustadíssimos”. Não só os dos lares, mas também os que vivem nas suas casas, pois este responsável é também médico geriatra.

Como nem todos os lares beneficiam das condições do Lar de Idosos de Mora para permitir as visitas “através vidro da janela fechada”, Caldas de Almeida considera que as videochamadas foram um momento muito importante do quotidiano em isolamento dos idosos. “As novas tecnologias ajudaram muito no confinamento. Não é a mesma coisa, mas puderam ver os filhos”, diz. Só o facto de poderem ver o sorriso e conversar com os filhos, e familiares valeu-lhes de muito.

Um estudo coordenado por este geriatra, em 2016, revelou que nos lares de Portugal, cerca de 75% dos idosos sofria de problemas cognitivos e 50% padeciam de algum tipo de demência. “A pandemia veio agravar as demências e aumentou as depressões nesta população já fragilizada”, assegura Caldas de Almeida.


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O afeto dos funcionários

Por isso, desde o início da crise que nos lares disponibilizou aconselhamento psicológico para os idosos, como conta este vice-presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas.

Sem a possibilidade das visitas dos ente-queridos, que são o mais importante para estas pessoas de idade, o papel dos auxiliares, enfermeiros e todos quantos trabalham nos lares foi fundamental nesta crise, realça Caldas de Almeida.

“Falei com muitos utentes que me contavam emocionados os sacrifícios que os auxiliares, e demais funcionários faziam por ali

ficarem com eles isolados, sem ir a casa. Choravam por reconhecerem os afetos que estas pessoas lhes davam. Isso não lhes tirava a tristeza e não verem os seus filhos, mas ajudava-os muito”, lembra.

O retomar das visitas para quem não esteja infetado ou em isolamento, com as novas regras de distanciamento impostas é positivo, mas de início, gerou algum desconforto e indecisão entre os idosos e familiares, diz Caldas de Almeida.

Nesta fase das visitas não há contactos físicos, nem beijos, nem abraços. Há distância regulamentada, há as máscaras. E, isso para muitos idosos “também é difícil”. “Um dos utentes confessou-me que quase preferia que o seu filho não fosse lá ao lar, porque lhe custava muito estar a vê-lo e não o poder abraçar”, diz este responsável.

Do lado dos familiares também houve casos em que aos filhos lhes custou muito ver os pais, sem poder lhes dar mimos físicos. Os afetos são agora dados por palavras, gestos, sorrisos.

O perigo do reconfinamento

Há ainda o medo da doença que teima em persistir entre os de mais idade. Um casal de idosos qua vive na sua casa contou a Caldas Almeida que “continua a recusar-se a ver os filhos e netos”, ou mesmo estar com eles com máscara e a guardar dois metros de distância, pois “mesmo assim têm medo de poder ser contaminados”, apesar da família não estar doente.

Este médico geriatra tem esperança de que os portugueses se portem com civismo e que o nível de contagiosidade continue baixo para que os seus idosos possam voltar a receber carinhos físicos de quem mais amam. E que não venha uma segunda vaga. “Eles são frágeis e a pandemia já os deixou mais fragilizados, se tal acontecer o risco vai ser maior”.

O Provedor da Misericórdia de Mora dá como exemplo a vizinha Espanha onda mortalidade entre a terceira idade foi tão elevada que o estado passou a gastar menos nas reformas. No Luxemburgo, faleceram 35 pessoas. Em Portugal, 40% dos óbitos registaram-se também nestas instituições, tendo falecido 450 pessoas, mesmo assim abaixo dos números europeus, segundo a Direção Geral da Saúde. Ao nível europeu, metade das mortes pela covid-19 ocorreram igualmente nos lares e centros de terceira idade, anunciou a OMS. 

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