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Hoje há greve mundial pelo clima e ‘black friday’
Sociedade 10 min. 29.11.2019

Hoje há greve mundial pelo clima e ‘black friday’

Hoje há greve mundial pelo clima e ‘black friday’

Foto: Andreas Solaro/AFP
Sociedade 10 min. 29.11.2019

Hoje há greve mundial pelo clima e ‘black friday’

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Nada podia ser mais contraditório. Esta sexta-feira, enquanto uns vão aproveitar os saldos, outros vão lutar contra a sociedade consumista, na quarta greve mundial pelo clima do ano.

Esta sexta-feira, é dia de 'black friday' [produtos com grandes descontos] e de greve mundial pelo clima. A manifestação mundial, a 4ª em 2019, visa fazer pressão sobre os governos reunidos na COP25, a cimeira do clima que começa em Madrid, Espanha, na segunda-feira. 

Entre finais de setembro - com duas greves, que juntaram mais de 7 milhões de manifestantes no mundo - e hoje muita coisa mudou no que diz respeito às "alterações climáticas", incluindo a substituição pelo conceito 'emergência climática'. O conceito acaba de entrar na agenda da União Europeia, não apenas nos discursos. É "a prioridade" e é "para já" dizem os responsáveis políticos, com medidas concretas a caminho. E as instituições também já começaram a tomar medidas. Veja as ações mais importantes dos últimos dois meses:

  • 24 de outubro - O Estado de Nova Iorque processa a ExxonMobil, acusando a petrolífera de defraudar os acionistas ao menorizar a ligação entre a sua atividade e as alterações climáticas. Ao fazê-lo, a companhia criou uma falsa imagem de que a sua atividade era um bom investimento a longo prazo, alega a procuradora nova-iorquina. Rex Tilerson, secretário de Estado de Trump durante um breve período, é um dos administradores da ExxonMobil por trás do encobrimento. O processo faz lembrar o caso contra o ganster Al Capone, nos anos 30, preso por evasão fiscal e não por associação criminosa. Aqui, a Exxon é processada por enganar os acionistas e não por ter escondido do público desde há 30 anos relatórios científicos que previam as consequências danosas da sua atividade.
  • 26 de outubro - A atriz Jane Fonda, de 81 anos, aceita um prémio Bafta de carreira e discursa em direto enquanto é detida pela polícia em frente ao congresso norte-americano. A ativista famosa pela luta contra a guerra do Vietname, mudou-se para Washington para poder todas as sextas-feira protestar contra a inação dos políticos norte-americanos. Jane Fonda diz ter sido inspirada por Greta Thunberg e pelo livro de Naomi Klein de recolha de crónicas, "On Fire: The (Burning) Case for a Green New Deal". Jane Fonda tem sido detida todas as sextas-feiras e tem liderado outros ativistas nas "Fire Drill Fridays". O ator Ted Danson também já foi detido.
  • 30 de outubro - Por causa da instabilidade política no Chile, a ONU anuncia a mudança da COP25 para Madrid, entre 2 e 13 de dezembro. Greta Thunberg, do outro lado do Atlântico, pede boleia para voltar de barco à Europa a tempo de participar na conferência. 
  • 4 de novembro - O gigante siderúrgico mundial ArcelorMittal anunciou que desistiu de comprar a empresa italiana ILVA. A empresa sediada no Luxemburgo tinha vendido toda a sua operação de Dudelange para concretizar a aquisição, mas mesmo assim considerou o risco demasiado elevado. O parlamento italiano tinha retirado a proteção ambiental legal à ILVA e deitado por terra as hipóteses de reconversão da empresa para uma operação mais limpa. As atividades da ILVA estão ligadas ao aparecimentos de casos de cancro na região de Tarento, na Apúlia italiana. Tal como a ExxonMobil está a ser processada, indiretamente, por questões ambientais,  a ArcelorMittal, por precaução, decidiu não arriscar num negócio ambientalmente "impuro", que se poderia traduzir em processos muito onerosos. A litigação contra os grandes poluentes está a tornar-se uma nova prática de luta contra a emergência climática. 
  • 15 de novembro- O Banco Europeu de Investimento (BEI), o banco da União Europeia, anunciou que até 2021 vai deixar de financiar projetos de exploração de combustíveis fósseis. O BEI, com sede no Luxemburgo, é o maior banco público mundial. Werner Hoyer, presidente do BEI, disse que "o clima é o assunto principal da agenda política do nosso tempo". "Vamos acabar com o investimento nos combustíveis fósseis e vamos lançar a estratégia de investimento climática mais ambiciosa de todas as instituições financeiras públicas", anunciou ao mesmo tempo. A decisão está alinhada com a política da 'nova' Comissão Europeia, liderada por Ursula van der Leyen.
  • 20 de novembro - O multimilionário Bill Gates anuncia o lançamento de uma tecnologia limpa - em que uma das suas empresas está a investir - de produção de energia que irá "substituir os combustíveis fósseis pela luz solar". A patente da Heliogen propõe-se solucionar o problema mundial das emissões de carbono. A empresa usa a inteligência artificial e um campo de espelhos para refletir luz do sol e gerar calor a mais de mil graus Celsius. Um forno solar, com aplicações direcionadas sobretudo para indústrias altamente emissoras de GEE, como a do cimento, vidro e aço. Bill Goss, presidente da Heliogen, disse que a tecnologia é o "Santo Graal". "Vai ser mais barata que os combustíveis fósseis e não vai produzir emissões de CO2".
  • 22 de novembro - 'Emergência climática' é a palavra do ano. 'Emergência climática' é considerada a palavra do ano, segundo o dicionário da Oxford. De acordo com os dados recolhidos, a expressão foi 10,796% mais utilizada do que em anos anteriores. Esta instituição, que estabelece o cânone da língua inglesa, refere que a 'palavra do ano' é uma palavra ou expressão que através da sua utilização repetida reflete o estado de espírito e as preocupações do mundo em cada ano, com uma "relevância cultural duradoura". O uso cada vez mais comum do termo captou a atenção dos linguistas, mas foi a evidência estatística que confirmou a predominância nas conversas e nas publicações ao longo dos últimos 11 meses. Segundo a análise quantitativa levada a cabo, "há uma rápida subida da expressão, de uma relativa obscuridade até se tornar uma das mais proeminentes - e mais debatidas - de 2019".  No site da climateemergencydeclaration.org pode ver-se todos os países e instituições que ja assinaram a declaração.
  • 27 de novembro - A nova comissão é aprovada no Parlamento Europeu reunido em Estrasburgo, com a nova Comissária Ursula van der Leyen a sublinhar que a principal missão será, desde o primeiro dia, lidar com a crise climática e acabar com as emissões de carbono até 2050. "Isto é um desafio existencial para a Europa e para o mundo. Como pode não ser existencial quando vemos Veneza debaixo de água, as florestas de Portugal em fogo, as colheitas da Lituânia cortadas pela metade por causa da seca?", disse no discurso perante os deputados.
  • 28 de novembro:
  • 1. Europa lidera a luta contra a emergência climática: O Parlamento Europeu (PE) aprova emergência climática e ambiental. A União Europeia, com mais de 500 milhões de habitantes, torna-se assim o maior bloco geopolítico a fazê-lo. Vinte e cinco países já tinham declarado emergência climática, mas sem que medidas concretas tivessem sido tomadas. A resolução dos eurodeputados (com 429 votos a favor, 225 contra e 19 abstenções) foi acompanhada da declaração de apoio e de incentivo aos planos de Ursula van der Leyen de reduzir as emissões em 55% até 2030 e chegar a zero em 2050. Os deputados pediram ao novo executivo comunitário para "avaliar exaustivamente o impacto climático e ambiental de todas as propostas legislativas e orçamentais relevantes" e "assegurar que todas elas estejam plenamente alinhadas com o objetivo de limitar o aquecimento global a menos de 1,5°C e não contribuir para a perda de biodiversidade". Dia 1 de dezembro a nova comissária europeia entre oficialmente em funções, com o objetivo expresso de aprovar o seu Pacto Ecológico Europeu, que deverá ser apresentado a 11 de dezembro, e cujo propósito é liderar mundialmente a  luta contra "a ameaça existencial" à humanidade colocada pela crise climática. Esta resolução do PE tem um peso especial porque antecede a entrada em funções da comissão e a reunião em Madrid da COP 25, entre 2 e 13 de dezembro. Os deputados pedem igualmente que a comissão "corrija as incoerências das atuais políticas da União em matéria de emergência climática e ambiental, nomeadamente através de uma reforma profunda das suas políticas nos domínios da agricultura, do comércio, dos transportes, da energia e do investimento em infraestruturas". Os eurodeputados apelaram também a que sejam tomadas medidas para uma transição justa e ao fim das subvenções a companhias de energias fósseis até 2020. 
  • 2. Tarde demais, ou quase? Uma semana de más notícias. No mesmo dia que o PE declarou emergência climática e ambiental, um estudo publicado na revista Nature admite a possibilidade de estarmos muito perto de ultrapassar, ou de já termos ultrapassado, "pontos de não retorno", com a perda irreversível de gelo no Ártico e na Gronelândia e a incapacidade de a Amazónia se manter como floresta tropical. Os chamados tipping points são alterações a partir das quais uma série de eventos em cascata resulta num aquecimento incontrolável do planeta. "Os miúdos que fazem greve têm toda a razão, o tempo está a acabar", considerou um dos autores do estudo, Tim Lenton, da Universidade de Exeter. "Mas se queremos evitar o pior destes pontos de não retorno, temos que ativar medidas sociais e económicas em direção ao que poderá ser um futuro mais feliz e sustentável para as futuras gerações”, concluiu. Este mês foi também publicado o Emission Gap Report de 2019, um relatório da ONU, que refere que as emissões de gases com efeito de estufa têm que cair pelo menos 7,6% todos os anos, já a partir de 2020 e até 2030, para se alcançar o objetivo de manter as temperaturas globais a níveis inferiores a 1,5º C em relação a valores pré-industriais. Esta subida da temperatura é considerada a aceitável para o planeta não chegar a uma situação de catástrofe ecológica. Mas, mantendo a atual tendência, o nível de temperatura considerado seguro deverá ser ultrapassado. 
  • 3. Indústria musical à procura de soluções: Massive Attack anunciam estudo para acabar com a pegada de carbono dos concertos: A banda inglesa anunciou uma parceria com cientistas do Tyndal Centre de Manchester, no Reino Unido, no sentido de ser encontrada uma forma de os concertos não produzirem gases com efeitos de estufa (GEE). Robert Del Naja, um dos elementos do grupo inglês, salientou que todo o debate em torno da emergência climática "alcançado pelas greves estudantis e pelas prisões em massa de ativistas geraram mais introspeção do que ação real".  Os Massive Attack chegaram a ponderar acabar mesmo as digressões, mas preferem tomar medidas que possam ser adotadas por toda a indústria. O estudo do Tyndal Centre irá procurar fórmulas de reduzir o consumo de energia em todas as fases de produção de um concerto, incluindo as deslocações das bandas e do público. Os concertos ao vivo geram 405 mil toneladas de GEE por ano. 34% dos GEE são produzidos durante a performance e 33% nas deslocações dos espectadores. Já na semana passada os Coldplay anunciaram uma pausa nos concertos durante um ou dois anos para se concentrarem em criar uma tournée mais sustentável. A promoção do álbum recentemente lançado, "Every Life", será portanto, suspensa, dos palcos. 

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