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Histórias proibidas
Opinião Sociedade 3 min. 19.10.2021
Jornalismo

Histórias proibidas

Daphne Caruana Galizia que foi assassinada em 2017 e dá o nome ao primeiro Prémio para a Liberdade dos Media criado pelo Parlamento Europeu.
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Histórias proibidas

Daphne Caruana Galizia que foi assassinada em 2017 e dá o nome ao primeiro Prémio para a Liberdade dos Media criado pelo Parlamento Europeu.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 19.10.2021
Jornalismo

Histórias proibidas

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Esta semana, o Parlamento Europeu entregou o primeiro Prémio para a Liberdade dos Media. Concorreram trabalhos de toda a Europa, mas o vencedor não poderia ser mais apropriado.

O Peugeot 108 alugado desce a estradeca secundária em direcção à aldeia. A condutora, acabada de sair de casa, já conhece as curvas de cor; o sol brilha, o dia está calmo, não há ninguém à vista. Nada pressagia o perigo. Mas é nesse momento que a bomba explode, espalhando destroços humanos e peças do carro ao longo da estrada e pelos campos que a bordejam.

O filho mais velho de Daphne Caruana Galizia, Matthew, estava em casa e ouviu o estrondo. Correu, sem reparar no odor indescritível que empestava a sua rua. Mais tarde escreveu no seu Facebook: "olhei para o chão, e só vi bocados da minha mãe espalhados em redor".

O assassínio da jornalista maltesa não é História longínqua, nem muito menos uma ferida sarada. Aconteceu há apenas quatro anos e foi um dos seis carros armadilhados num curto espaço de tempo em Malta – morrendo ali a quarta vítima. Pelas suas investigações, pelas suas denúncias de corrupção envolvendo os homens mais poderosos do país, e – sobretudo – pela sua coragem e persistência, a própria Daphne Caruana sofria intimidações constantes. Atearam fogo à sua casa, mataram-lhe dois cães; os telefonemas ou mensagens anónimas com ameaças eram quase diários. Até que a mataram à bomba.

Admiração por quem arrisca a vida em nome de um sentido inabalável de justiça, nunca se resignando perante a lei do mais forte.

Esta semana, no aniversário do seu desaparecimento, o Parlamento Europeu entregou o primeiro Prémio para a Liberdade dos Media, que leva o nome da jornalista anti-corrupção. Concorreram trabalhos de toda a Europa, mas o vencedor não poderia ser mais apropriado: Forbidden Stories – uma associação sem fins lucrativos inspirada pelo exemplo de Daphne e criada dias após a sua morte – que continua o trabalho dos jornalistas de investigação quando estes já não o podem fazer, por serem presos, incapacitados... ou assassinados. Graças à Forbidden Stories foram expostas as "histórias proibidas" (proibidas por terem valido a morte a quem as tentou contar) das teias de corrupção em Malta, no Azerbeijão, na Eslováquia, no Gana ou no México (o país mais perigoso do mundo para a profissão de jornalista). 

Mas também do projecto Pegasus, que mostra como governos de todo o mundo – não apenas os "autocráticos" mas também, embaraçosamente, os supostamente "democráticos" – usam software espião criado por uma empresa israelita para vigiar activistas, opositores, empresários ou enfim, qualquer um de nós se assim lhe apetecer.

Eu não sou jornalista, muito menos de investigação. Mas tenho uma profunda admiração por quem renega o conforto de uma vida fácil e lucrativa atrás de uma secretária, arriscando não só a carreira como a própria vida em nome de um sentido inabalável de justiça, e nunca se resignando perante a lei do mais forte. Para quem tudo isto tem algum significado, esta foi uma boa semana: outros dois jornalistas incrivelmente corajosos, a filipina Maria Ressa e o russo Dmitry Muratov, venceram o Prémio Nobel da Paz pelos seus esforços para salvar a liberdade de expressão – condição essencial para a democracia e a paz duradoura. Perante as histórias proibidas de uns e de outros, curvo-me em sinal de respeito e de gratidão. Obrigado.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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