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Hidrogénio verde: A “rock-star” da transição energética na Europa
Sociedade 5 min. 09.07.2020

Hidrogénio verde: A “rock-star” da transição energética na Europa

Hidrogénio verde: A “rock-star” da transição energética na Europa

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 09.07.2020

Hidrogénio verde: A “rock-star” da transição energética na Europa

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Para atingir a neutralidade carbónica em 2050, a Comissão Europeia aposta na produção em larga escala de hidrogénio verde, com aplicações que vão dos transportes à produção de aço. Frans Timmermans, o comissário do Clima, apresentou na quarta-feira a Estratégia de Integração dos Sistemas Energéticos e a Estratégia do Hidrogénio.

Só as energias renováveis que conhecemos não chegarão para atingir o compromisso da União Europeia de reduzir a zero as emissões de gases com efeito de estufa em 2050. O hidrogénio verde, renovável ou limpo (sem nenhuma emissão de gases com efeito de estufa), apresentado como a atual grande estrela da transição energética, não é “uma solução mágica”. Mas seria impossível atingir o objetivo europeu sem se apostar na sua produção em larga escala, disse Frans Timmermans, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Pacto Ecológico Europeu.

Atualmente, o sistema energético, mesmo com o crescimento exponencial das renováveis, é responsável por 75% das emissões europeias. Por isso, disse Timmermans, “precisamos de uma revisão total do nosso sistema, que se está a tornar uma relíquia do passado”.

E é crucial, salientou, “que a Europa lidere a produção de hidrogénio verde. A Arábia Saudita já anunciou a construção de uma central e estão a falar em gigawatts”. A liderança europeia nesta área, para Timmermans, é também uma conquista económica e não apenas ecológica. Permite criar emprego e fazer negócio com países terceiros.

“A tecnologia existe”, disse Kadri Simson, a comissária europeia da Energia, que conta ter visitado uma grande instalação na Dinamarca, falado com imensos especialistas e conhecido vários projetos em curso. “Falta desenvolvê-la em larga escala”, torná-la competitiva. Para isso vai ser preciso criar incentivos do lado da indústria e da inovação, mas também terão que ser criados instrumentos legais e taxar ainda com mais vigor as emissões de carbono das indústrias poluentes.

Um representante da Comissão admitiu que chegar a 2030 com uma grande implantação do hidrogénio - que poderá alimentar e reconverter todo o setor dos transportes e da indústria pesada, e para os quais não há atualmente grande alternativa aos combustíveis fósseis - vai passar por carregar nos impostos para os poluentes. “O hidrogénio limpo só terá hipótese se houver procura”, entende Kadri Simson. E procura significa sempre preços competitivos.

Um hidrogénio de transição ou cavalo de Troia dos fósseis?

Até chegar ao momento de a produção de hidrogénio na Europa ser 100% limpa, haverá um período de transição em que a produção desta nova energia será feita com a queima de gás natural e posterior captura dessas emissões deste combustível fóssil com a tecnologia CCS (Carbon Capture and Storage, na sigla original) de captura e armazenamento das emissões no subsolo.

Este hidrogénio de transição, produzirá emissões baixas, mas não é ainda neutro. As críticas recebidas pela Comissão é que o “hidrogénio azul” poderá representar um cavalo de Troia para as companhias de gás natural prolongarem o seu domínio, em vez de entrarem em declínio imediato. No entanto, Timmermans disse que é impossível chegar rapidamente ao hidrogénio verde, e em larga escala, sem passar por este período, não sabendo, no entanto, quanto ele vai durar. Tudo depende da aceleração da inovação e da capacidade da indústria responder em larga escala.

“O nosso objetivo a longo termo reside no hidrogénio verde usando principalmente energia solar e eólica”, disse Kadri Simson. A comissária da Energia acrescentou ainda que nos planos energéticos nacionais a que já teve acesso o hidrogénio está a ser considerado como uma resposta importante.

Os programas europeus Horizon, para a inovação, e o InvestEU irão participar nestes novos projetos que se desenham, mas é ainda necessário, como alertou Timmermans, que o orçamento europeu para 2021-27 que está a ser negociado, e que deverá ser aprovado nas próximas semanas, seja de molde a suportar esta transição.

As duas estratégias, a do Hidrogénio e a da Integração dos Sistemas Energéticos - e que deverão ainda ser aprovadas pelo Parlamento e pelo Conselho Europeu -, foram apresentadas como pilares principais do Pacto Ecológico Europeu.

“Sem estas estratégias, chegar às emissões zero fica fora do nosso alcance”, salientou a comissária estoniana.

A Europa a sonhar com um aço verde

Sendo vista como a hipótese de a indústria pesada e dos transportes – incluindo o marítimo e aéreo – não produzir emissões, o hidrogénio verde tem ainda um papel de reconversão da indústria do aço de altamente poluente para ecológica. Respondendo a uma pergunta de um jornalista italiano, Timmermans referiu o caso de Tarento, a cidade da Apúlia italiana, uma área de alto risco ambiental por causa da fábrica de aço IlVA, responsável por um crescimento exponencial de linfomas e leucemias na área, nas últimas décadas.

“Sabemos que a transição levará tempo. Mas poderemos dar a Tarento um futuro verdadeiramente sustentável e em que possam acreditar e um ar muito mais limpo”. O gigante com sede no Luxemburgo ArcelorMittal tentou no ano passado comprar a ILVA, mas acabou por desistir por o parlamento italiano ter retirado a proteção ambiental legal à empresa, tornando-a muito vulnerável a processos judiciais por crimes ecológicos.

Mas também para Itália, a reconversão da ILVA está a desenhar-se como uma possibilidade. “Satisfaz-me que o governo italiano queira trabalhar connosco e dar a Tarento um futuro no aço, mas um aço verde”, disse Timmermans, acrescentando que a siderurgia deverá continuar a ser um setor estratégico na Europa.

Aliança com indústria e ecologistas

Anunciado também foi a criação de uma Aliança Europeia de Hidrogénio Limpo, cujo propósito é o de desenvolver “uma indústria competitiva de hidrogénio na Europa” e que conta com a inclusão do Banco Europeu de Investimentos. “Deverá ser uma aliança aberta. Gostaria de ver lá a indústria porque tem a experiência e terá um papel primordial. E não tenho vergonha de dizer que preciso da indústria para termos hidrogénio renovável”, sustentou Frans Timmermans. “Mas também preciso das organizações ecologistas, e da sociedade civil, sem eles não haveria um Green Deal europeu. A participação e as críticas dos ecologistas são igualmente importantes”, defendeu.

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