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Habitação. "Estamos a ser empurrados para fora do país"
Sociedade 7 min. 16.12.2020

Habitação. "Estamos a ser empurrados para fora do país"

Despejos

Habitação. "Estamos a ser empurrados para fora do país"

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Foto: Contacto
Sociedade 7 min. 16.12.2020

Habitação. "Estamos a ser empurrados para fora do país"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Yara Gaspar vive com o marido num quarto alugado há sete anos. Juntamente com cinco famílias estão a ser despejados em plena pandemia. O drama desta licenciada em gestão que no Grão-Ducado não consegue casa e trabalha normalmente nas limpezas.

Há quanto tempo está no Luxemburgo?

Vim para o Luxemburgo em 2012, mas só fiquei a viver em janeiro de 2013. Comecei logo a trabalhar em março desse ano. Estou cá quase há oito anos.

Sempre na mesma casa?

Estou nesta casa há sete anos.

Vive num estúdio ou têm casa de banho e cozinha comum com outros locatários?

São só quartos. Temos duche dentro, placas para cozinhar e frigorífico, mas a casa de banho com os sanitários é que fica de fora. Duas por andar, e cada andar tem seis quartos. Mas com o passar do tempo, depois do anúncio que temos que abandonar o prédio, algumas famílias já saíram. Neste momento, no primeiro piso, temos três quartos ocupados, ainda há pouco saiu uma família com duas crianças. Nesse piso estão uma família com três crianças, uma senhora já de certa idade doente, e uma mãe e uma criança com um problema de audição. No segundo piso, estou eu e o meu marido, um quarto ocupado por dois senhores e um terceiro ocupado por uma pessoa na idade da reforma que está doente. No terceiro piso, só sobrou uma família com duas crianças. Dependendo dos quartos, as pessoas pagam entre 800 a 900 e tal euros.

Quando é que os novos proprietários resolveram despejar as pessoas, para fazer um prédio de luxo?

Foi já no meio da pandemia, em junho de 2020. Em 2019, ninguém conseguia falar com o gerente. Vinham pessoas ao prédio e os quartos estavam todos ocupados. Mas em junho, disseram-nos que iam fazer obras no prédio e que tínhamos que abandonar as casas.

E deu-vos um prazo?

Até 31 de agosto. Já veio com o contrato feito. Chamou-nos um por um e fez-nos assinar a todos. Disse-nos: "vão ter que sair, mas a gente vai-vos ajudar a encontrar uma nova casa". Eu estava a recuperar de um acidente trabalho, e tinha um tratamento complicado marcado em julho, o que dificultava muito poder mudar de casa. Até, porque não conseguia trabalhar. Mas ele afirmou que tinha que ser. Eu argumentei-lhe que era impossível encontrar uma casa sem contrato de trabalho e o meu marido com contrato de interin Nós sempre planeamos mudar para um sítio melhor, só que até agora isso tinha sido impossível. E agora, apesar de procurar muito, não consigo encontrar casa. Em todos os sítios exigem-nos um contrato de trabalho definitivo. 

Depois dessa altura, fizemos uma manifestação porque nos cortaram a eletricidade de um dia para o outro. Quando querem falar connosco, batem-nos à porta, sem pré-aviso nem marcação, entram-nos nos quartos. Uma senhora comunicou-nos que no dia seguinte nos iam desligar a eletricidade do prédio e que a máquina de lavar roupa que está na cave ia-nos ser tirada. Foi aí que eu me passei. Entrei em contacto com o assistente social, depois tive conhecimento da existência de uma associação de locatários, e falei com eles. Decidimos fazer a manifestação. Eles cortaram a luz às 8 da manhã. A desculpa é que iam fazer obras. Mas não fizeram nada. Apenas cortaram a luz do prédio. No final do dia, depois da manifestação foram lá para voltar a ligar a luz. 

Durante a manifestação foi lá a comunicação social, até a RTL teve a ver a falta de condições do prédio. Apesar dessa falta de condições a comuna nunca quis fiscalizar estas situações. Depois da manifestação, o senhorio foi progressivamente retirando todos os serviços do prédio. Desde de setembro que se mantém apenas a retirada do lixo. Já não temos limpeza dos espaços comuns. Depois foi o processo no tribunal.

Como vê o processo?

Vai ser difícil, dado que nós assinamos uma convenção que limita os nossos direitos. Fomos levados a fazê-lo. Não nos deixaram consultar ninguém, disseram que era o melhor para nós e que nos iam ajudar. As coisas foram feitas de uma forma pouco clara. Nunca ninguém me ajudou com nada, nem com a procura de casa, como diziam. O que estou a viver neste momento é algo que me tira o sono. O prédio perdeu a estabilidade nesse dia que o senhor nos comunicou que íamos ser despejados. Tudo mudou de uma hora para a outra. 

Começamos a perguntar, como era possível despejar para a rua, com o covid-19, famílias com crianças. E muitas pessoas sem contrato fixo. Aqueles que têm contrato já conseguiram arranjar casa, mas muito de nós trabalhamos todos os dias, mas não nos permitem alugar uma casa no Grão-Ducado. Quem ficou no prédio são as pessoas mais vulneráveis. Pessoas com problemas de saúde. Eu própria, agora tenho um trabalho mas continuo com mazelas do meu acidente de trabalho que teve sequelas na minha coluna vertebral.

Mas o que lhe aconteceu?

Caí no trabalho. Tive que fazer uma cirurgia que não correu bem e que se seguiram a outras no joelho e isso depois teve consequências na coluna. E na segunda- feira passada fui fazer um tratamento à coluna. Comecei, apesar das dores, a trabalhar em outubro, mas é um contrato de seis meses à experiência.

Neste país quem constrói as casas e limpa os edifícios não pode viver nas casas que faz.

Está nas limpezas?

Não, faço atendimento num consultório, porque o meu estado físico não permite que eu volte às limpezas. Sou licenciada em gestão em Portugal, e tenho uma pós-graduação em Finanças e Fiscalidade.

Aqui quase só conseguiu empregos em limpezas com essa formação?

Na altura quando cheguei não falava as línguas. Fui fazendo cursos de línguas. Mas agora estou a trabalhar num gabinete médico. A situação de quando cheguei cá no Luxemburgo e hoje não tem nada a ver.

Quais são as diferenças?

O preço das casas tem estado a aumentar de uma forma exagerada. Há excesso de procura, mas o que eu vejo é que é muito mais que isso: existe especulação. O mercado não está a funcionar livremente. A parte dos proprietários tem um peso que desequilibra essa relação. Há pessoas que quando procuram casa dizem-lhes na cara: “não tem dinheiro para viver cá, vá para a fronteira”. Estamos a ser empurrados para fora do país. Numa família em que haja um pai que tem contrato temporário nas obras e uma mãe que trabalhe nas limpezas, com duas crianças, como esta família consegue uma casa no mercado privado? É impossível. Mesmo os apoios do Estado não se aplicam a estas famílias. 

Passo as noites acordada a tentar resolver esta situação. No meu desespero, enviei um email ao Ministério da Habitação que me respondeu que não tinha disponível habitação social, mas que há ajudas para a renda. O problema é que uma pessoa para ter ajuda tem que ter casa. Quem não a consegue não tem ajuda nenhuma. Há proprietários que preferem ter as casas fechadas e vazias que alugar a famílias com crianças.


Mietpreise in Luxemburg, Immobilien, Bau, Logement, Ban de Gasperich, Foto: Guy Wolff/Luxemburger wort
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E agravou-se com a pandemia?

Há muitas empresas que estão a fechar, muitas deixam de fazer contratos definitivos, outras estão a despedir, e perante isso não há mecanismo que salvaguardem a possibilidade de as pessoas terem casa, em plena pandemia e no meio do inverno. O meu marido só teve um contrato fixo por dois meses, porque o patrão está com medo da crise económica. Neste país quem constrói as casas e limpa os edifícios não pode viver nas casas que faz. 

São exatamente essas pessoas que não deixaram de trabalhar com a covid-19 e que mantiveram o Grão-Ducado em funcionamento que estão em riscos de maior pobreza. Estamos num país rico em que se está a criar um fosso cada vez maior entre quem trabalha e as pessoas mais ricas.

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