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Cultivar imóveis, colher empreendedores
Opinião Sociedade 3 min. 16.06.2021
Habitação

Cultivar imóveis, colher empreendedores

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Cultivar imóveis, colher empreendedores

Foto: dpa-tmn
Opinião Sociedade 3 min. 16.06.2021
Habitação

Cultivar imóveis, colher empreendedores

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
É preciso aprender a sobreviver no mundo competitivo e altamente selecto do mercado imobiliário. Mesmo que para "cultivar" imóveis seja necessário aliciar crianças.

Todos os anos, na época de exames, as Forças Armadas britânicas (Exército, Marinha e Força Aérea) e a igreja Mormon (de Jesus Cristo dos Últimos Dias) "plantam-se" no topo das Meadows, em Edimburgo, um parque mesmo à porta da Universidade. A ideia é fazer marketing dos seus "produtos" para recrutar incautos alunos prestes a terminar um curso, com milhares em dívida acumulada de propinas, sobretudo aqueles mais perdidos, que não sabem muito bem o que a vida lhes reserva.

As Forças Armadas vendem guerra com glamour: em tendas, montam-se e desmontam-se armas, experimentam-se máscaras de visão nocturna, e vendem-se imagens de mulheres e homens de cara pintada de verde à Rambo, simulações playstation de máquinas de guerra no exótico Terceiro Mundo, entre rios, desfiladeiros, palmeiras e desertos. Os Mormon trazem os Elders dos Estados Unidos: prometem paz na terra, mas sobretudo no céu. Proposta de redenção pelos pecados de sexo, drogas e álcool que um jovem tenha praticado durante os loucos anos universitários, abraçando enfim a austeridade no corpo e no espírito.

Por muito cândidos que pareçam, os alunos são adultos e podem recusar o aliciamento. As Forças Armadas e a igreja não estão na Universidade, apesar de o exército visitar muitas escolas no Reino Unido (normalmente as mais desfavorecidas), país onde o serviço militar não é obrigatório e por isso há que recrutar futuros trabalhadores. É preciso sobreviver no mundo competitivo dos exércitos.

Em Lisboa, é preciso aprender a sobreviver no mundo competitivo, cada vez mais escasso e, por isso, altamente selecto, do mercado imobiliário. Mesmo que para "cultivar" imóveis seja necessário aliciar crianças.

Uma imobiliária alemã decidiu fazer uma acção de marketing numa escola Básica no centro de Lisboa. A imobiliária escolheu o Dia da Criança, 1 de Junho, com alunos de primeiro ciclo (antiga primária) como ideal para o farming, conceito usado por agentes imobiliários que querem captar negócios numa determinada área: "cultiva-se" (to farm) a área para estabelecer contactos ou encontrar imóveis.

No Facebook da imobiliária, há adultos (agentes e pessoal da escola) mas também crianças posando para fotografias com sacos, panfletos, material de propaganda da agência. Ao continuarmos a falar destas acções como "marketing", damos-lhe uma roupagem em inglês que facilmente nos faz esquecer de que há aqui intuito de disseminar uma ideia de mundo, de cidade, de bairro, e de manipular, neste caso, crianças. Não sei se este hábito é comum nas escolas, muito menos se os encarregados de educação, a Direcção Regional, o Ministério, enfim, terão sido consultados, e quem deu o "sim" para que este "cultivo" semeasse dúvidas.

Irónico é que haja pessoas contra a disciplina de Educação para a Cidadania porque são "os pais, e não a escola", dizem, que devem educar os filhos. Mas depois permite-se que especuladores imobiliários vão a uma primária aliciar crianças. O objectivo parece ser torná-las empreendedores: nas imagens, os meninos lêem panfletos com imóveis para venda. A ideia é que os levem aos pais que, se quiserem vender a casa, efectivamente deixarão de poder viver naquele bairro no centro de Lisboa, com qualidade de vida e acessibilidade, onde ainda há uma escola e crianças. 

Os preços, contudo, são só para os investidores que ainda conseguem estar no mercado especulativo de capitais imobiliários. Quando forem grandes, estas crianças poderão talvez ser agentes imobiliários. Mas, antes, terão de ir viver para longe, noutro bairro.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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