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Há aldeias no Líbano onde toda a gente fala a língua de Camões
Sociedade 6 min. 06.09.2017 Do nosso arquivo online

Há aldeias no Líbano onde toda a gente fala a língua de Camões

Naji Ibraim nasceu em São Paulo e trocou o Brasil pelo Líbano "por razões de segurança", porque "no Brasil há mais violência".

Há aldeias no Líbano onde toda a gente fala a língua de Camões

Naji Ibraim nasceu em São Paulo e trocou o Brasil pelo Líbano "por razões de segurança", porque "no Brasil há mais violência".
Foto: Nelson Pereira
Sociedade 6 min. 06.09.2017 Do nosso arquivo online

Há aldeias no Líbano onde toda a gente fala a língua de Camões

No extremo sul do Vale de Beqaa, no Líbano, existe um enclave onde toda a população fala a língua de Camões. Quatro povoações onde se come pão de queijo, empadas, coxinhas e churros e se bebe leite de coco e refresco de guaraná. E onde o Brasil ficou bem colado à pele.

No extremo sul do Vale de Beqaa, no Líbano, existe um enclave onde toda a população fala a língua de Camões. Quatro povoações onde se come pão de queijo, empadas, coxinhas e churros e se bebe leite de coco e refresco de guaraná. E onde o Brasil ficou bem colado à pele.

Quando amigos em Beirute souberam da minha intenção de viajar até ao extremo sul do Vale de Beqaa, próximo da fronteira com a Síria, esforçaram-se por me dissuadir: a zona não é segura, a guerra ali ao lado, demasiado perigoso. Menos cautelosa ou porque não conhece medos, Amal gostou da ideia. Combinado o dia, partimos depois de ter deixado os filhos na escola. Rumo a Sultan Yaqoub, Loussi, Ghazzé e Kamed el-Laouz, a cerca de 80 km a leste de Beirute, entre a cordilheira Antilíbano e o maciço do monte Líbano.

Assim que parámos à entrada de Sultan Yaqoub, no alto da montanha, com Beqaa a perder de vista lá em baixo, bastou descermos do jipe para percebermos que tínhamos acabado de mergulhar em terra brasileira. Da janela de um primeiro andar, Hossin sorriu-nos como se estivesse à nossa espera: “Bom dia! Falam português?”.

O enclave sunita de língua portuguesa do Vale de Beqaa aprendeu no Brasil uma atitude diferente do resto do país.


E foi um sem-parar: Hossin desceu a correr, mal explicámos ao que vínhamos, a dizer-nos que é brasileira e que vivem ali muitos brasileiros, “olhe ali, ela também”, a apontar ao fundo da rua uma mulher de sorriso rasgado e brilho gaiato nos olhos. “Aqui falam todos português”, diz Lamia. Nisto aproxima-se um carro e mandam o condutor parar: “Este é Mohamad. Também é brasileiro”. Mohamad Chahin nasceu em São Paulo. Os pais, que já faleceram, chegaram ao Brasil em 1951, na vaga de emigração que levou muitos outros habitantes destas aldeias. Como a restante população do enclave brasileiro, Mohamad é muçulmano sunita e, como muitos outros, veio à terra dos pais casar, à procura de uma mulher com quem pudesse partilhar as mesmas tradições. “Vim cá casar em 1990 e instalei-me definitivamente em 1998. A minha mulher é da mesma família da minha mãe. Aqui toda a gente casa com parentes.”

Um percurso semelhante ao de outros habitantes de Sultan Yaaqoub e das povoações “brasileiras” do vale, ligadas por casamentos a São Bernardo do Campo, município do estado de São Paulo. Mohamad conta que resolveu mudar-se para aqui “por razões de segurança, no Brasil há mais violência”. Um argumento que soa estranhamente, dito por populações que vivem a sete quilómetros da Síria, com a guerra à porta, mas que se percebe melhor quando falam de religião.

Manta de retalhos de diferentes confissões religiosas, o Líbano viu demasiadas vezes a religião ser usada para suscitar conflitos violentos ao serviço de interesses políticos. O enclave sunita de língua portuguesa do Vale de Beqaa aprendeu no Brasil uma atitude diferente daquela que frequentemente existe no resto do país. Várias pessoas me disseram o mesmo que Mohamad: “A religião é fonte de muitos problemas no Líbano, a política está muito envolvida com a religião aqui, mas o espírito brasileiro encara de outra forma a religião. Na religião o que é mais importante não é rezar e jejuar, a religião é acima de tudo fazer o bem. É esse também o testemunho que damos aos filhos”.

Lá em baixo, no vale, estendem-se vastas faixas de terreno cultivado, mas no alto do monte a atividade agrícola não entra na rocha. Mohamad tem um negócio: importa automóveis dos Estados Unidos. Em casa falam todos português, a mulher e os três filhos, “até o mais novo que nasceu aqui”. Foi difícil adaptar-se? “Há coisas de que você acaba por gostar porque se acostumou a elas.”

Mohamad deixou-nos e Lamia propôs mostrar-nos a região. Já no jipe, enquanto falava com Amal em árabe, escapavam-se-lhe palavras em português. A melodia é brasileira. Fez-nos visitar o túmulo do eremita de origem marroquina que deu nome a Sultan Yaqoub, numa gruta vizinha da mesquita, levou-nos depois ao extremo da povoação, de onde se veem os cumes nevados do monte Hermon, antes de nos mostrar as três aldeias “brasileiras” do vale. Em todas elas, veem-se numerosas moradias apalaçadas, de enormes portões gradeados, com jardins cheios de árvores, tudo obra de emigrantes.

O cedro do Líbano é o símbolo da bandeira do país.
O cedro do Líbano é o símbolo da bandeira do país.
Ilustração: Florin Balaban

Em Loussi, parámos na Pastelaria da Tina. Menu em português e casa cheia. A proprietária, Cristina, nasceu em 1970 em Ribeirão Pires, morava em São Paulo. Tinha 15 anos quando os pais decidiram regressar. Casou com um jovem dali e voltou com ele para o Brasil. “Nasceu lá a minha filha mais nova, morámos lá seis anos e voltámos. O Brasil é bem gostoso, mas aqui há mais segurança. E estamos mais sossegados com as nossas filhas.”

A pastelaria é famosa. Os clientes vêm de longe, chovem as encomendas para festas e casamentos. “Comecei em 2011, com a máquina de churros. Aí as pessoas começaram a pedir que fizesse pastéis e outras coisas. Fomos alargando, foi crescendo, as pessoas foram conhecendo, agora vêm de fora, temos muitas encomendas.”

A paragem seguinte é a loja de Naji Ibraim, um dos mais recentemente regressados. “Nasci no Líbano, mas vivi mais de 40 anos no Brasil. Mudei para cá definitivamente há dez dias.” Corrige: “Definitivamente, não, o Brasil está na alma, a gente vai e volta.” Tem os irmãos em São Paulo. Comprou a mercearia e voltou. “Trabalhava com um salão de móveis, mas como a vida está agora mais difícil no Brasil, vim para cá tentar a minha sorte, até porque os quatro filhos já estavam cá a estudar.” Gosta da terra natal, mas sente-se mais brasileiro: “O Brasil está na alma. Vivi quase toda a minha vida no Brasil, nunca me senti estrangeiro lá. A minha mulher também viveu no Brasil e gosta de lá. Quem conheceu o Brasil gosta sempre. É um povo hospitaleiro, um povo legal, tolerante.” Critica a corrupção e a instabilidade política, diz que o Brasil poderia ser uma potência mundial, porque tem tudo, mas está parado porque os políticos não são gente séria. Se as coisas melhorarem, volta.

Vista parcial sobre o vale de Baqaa
Vista parcial sobre o vale de Baqaa

Lamia confessa também que tem muitas saudades do Brasil. Nasceu lá e tinha 22 anos quando voltou, há 20 anos. Em duas décadas, só visitou o país três vezes. Veio para casar, como tantas outras jovens. A comunidade muçulmana sunita onde cresceu guarda bem as filhas e as oportunidades de encontros são poucas, é nas terras de origem que acabam por procurar marido. Ansiosa por uma oportunidade de voltar ao Brasil, diz que tem a sorte de ter a companhia de boas amigas. Uma delas é Nadia. Igualmente nascida no Brasil, viveu lá 19 anos. Ao contrário de Lamia, ganhou facilmente raízes e vive sem saudades. “Casei e vim para cá, já aqui estou há 26. No começo odiava, mas agora amo.” Os filhos de Nadia estão no Brasil. “A minha filha casou no ano passado com um libanês do Brasil e foi para lá, vive no Guarujá, e o meu filho já está há três anos em São Paulo, trabalha no consulado do Líbano.” O marido, a mãe e os irmãos estão também em São Paulo. “Eu estou cá sozinha. Habituei-me aqui e gosto muito, é muito calmo.”

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, entre sete a dez milhões de brasileiros são descendentes de libaneses. A emigração libanesa para o Brasil começou na segunda metade do século XIX.

Nelson Pereira, no Líbano

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