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Guia de Vacinação. Saiba tudo sobre a eficácia e a chegada dos antídotos contra a covid-19
Sociedade 10 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

Guia de Vacinação. Saiba tudo sobre a eficácia e a chegada dos antídotos contra a covid-19

Guia de Vacinação. Saiba tudo sobre a eficácia e a chegada dos antídotos contra a covid-19

Foto: AFP
Sociedade 10 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

Guia de Vacinação. Saiba tudo sobre a eficácia e a chegada dos antídotos contra a covid-19

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Na melhor das hipóteses as vacinas que estão em fase de teste só estarão disponíveis no verão do próximo ano. A Pfizer anunciou uma eficacia de 90%, apesar das dúvidas da comunidade científica. Até ao fim do ano a Oxford espera ver comprovada a segurança da vacina da AstraZeneca, enquanto isso o Brasil suspendeu os ensaios da vacina da China.

Praticamente 10 meses volvidos, a pandemia continua a obrigar à adoção de um conjunto de medidas e restrições de segurança que, ao fundo do horizonte, as várias vacinas em fase de teste prometem normalizar. Dividida sobre os testes de segurança e eficácia que têm sido divulgados pelas farmacêuticas, a comunidade científica concorda, no entanto, que dificilmente as vacinas começarão a chegar à população antes do final do próximo ano. 

Longe da imunidade desejada, a anunciada eficácia de 90% da vacina desenvolvida pelos norte-americanos da Pfizer com os alemães da BioNTech tanto é vista como o luz ao fundo do túnel da pandemia como uma "manobra marketing". Se se vier a provar um antídoto contra a covid-19 até ao fim do ano, como previsto, uma outra vacina, a que a Oxford está a desenvolver com a AstraZeneca, poderá começar a ser comercializada já em janeiro. Citado pela Associated Press, o porta-voz da gigante farmacêutica admite que, globalmente será possível providenciar "centenas de milhões de doses da vacina" de doses a partir de janeiro. 

Enquanto isso, no Brasil, a Agência de Vigilância Sanitária , Anvisa, "decidiu suspender o ensaio clínico da vacina CoronaVac após um incidente grave" que não especifica, adensando a batalha entre o Presidente do país e o governador de São Paulo. Este último já avisou que não só não abdica da campanha de vacinação no Estado mais povoado do Brasil como também não pretende cancelar a encomenda do acordo com os laboratórios Sinovac para adquirir 46 milhões de doses da vacina chinesa. 

Com duas vacinas em fase de teste e uma terceira a caminho, a Rússia prepara-se para um processo de vacinação de toda a população "nas próximas semanas", depois da Sputnik V ter obtido taxa máxima de eficácia. 

90% capaz 

Os resultados anunciados, na segunda-feira, pela Pfizer e pela parceira BioNTech, durante a terceira fase do ensaio clínico do seu candidato à vacina covid-19, impressionaram uma grande parte da comunidade científica. Sem surpresas, Ugur Sahin, o CEO da empresa de arranque sedeada na cidade alemã de Mainz realçou o "resultado extraordinário". Ao The New York Times, o imunologista da Universidade de Yale e líder na investigação em vacinologia, admitiu que estaria preparado para uma eficácia de 55%, contra os 90% que a coordenadora investigação considerou uma "óptima notícia". 

Na ausência de um artigo científico para dissecar as conclusões dos cientistas, resta-nos o comunicado dos responsáveis. Na prática, diz que nove em cada dez pessoas expostas ao vírus SRA-CoV-2, em condições que deveriam tê-las feito adoecer, foram devidamente protegidas. A Pfizer e a BioNTech conduziram um ensaio denominado Fase 3 com 43.538 participantes. Metade deles recebeu a sua vacina, enquanto a outra metade recebeu um placebo. Numa descrição pormenorizada do processo, o Le Monde explica que depois deste procedimento os investigadores esperaram pelo desenrolar de uma eventual contaminação. 


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Antídoto ou golpe? 

A tal eficácia de 90% significa que aqueles que foram vacinados tinham 90% menos probabilidades de contrair a doença, ou dez vezes menos probabilidades de a contrair. Neste ensaio, especificamente, os voluntários receberam duas injeções. A segunda, dada três semanas após a primeira, impulsionou a resposta imunitária. De acordo com o protocolo arquivado pela Pfizer, os testes só tiveram em conta pessoas que tiveram sintomas pelo menos sete dias após a recolha. Estas pessoas foram, posteriormente, sujeitas a um teste PCR para verificar se foram infetadas com o novo coronavírus.  

De facto, os laboratórios não têm conhecimento do número exato de pessoas que possam ter ficado infetadas em cada grupo da experiência. Sem qualquer artigo científico a acompanhar o anúncio, nenhuma das empresas envolvidas revela os métodos específicos para apurar a eficácia. 

Embora se possa supor, por ser um procedimento habitual, não se sabe portanto se, durante o ensaio a solução pode ter passado por infetar voluntariamente pessoas previamente vacinadas, o que é chamado para observar o resultado. Ética à parte, se se vier a comprovar que a eficácia está próxima dos 100% esta vacina está próxima das que foram desenvolvidas contra o sarampo ou rubéola, que estão perto dos 95%, e muito superior à vacina contra a papeira, que está a 75%. A proteção seria ainda mais elevada para a gripe, que varia entre 30% e 70%, dependendo do ano e da idade da pessoa em causa. 

"Não tendo sido publicado qualquer dado sobre este resultado, pede a prudência que o anúncio feito seja considerado uma manobra de marketing para tentarem colocar-se na frente da corrida para a descoberta de uma vacina eficaz", coloca em causa, António Vaz Carneiro, diretor Centro de Estudos de Medicina Baseados na Evidência da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Milhões de doses em janeiro 

No mesmo barco de optimismo, o conglomerado farmacêutico AstraZeneca prevê apresentar a eficácia da vacina contra a covid-19 - que está a desenvolver em parceria com a Universidade de Oxford - "até ao final do ano", admitindo ser possível distribuir "milhões de doses da vacina" já partir de janeiro.

Também na chamada Fase 3 dos ensaios, o diretor executivo da farmacêutica, Pascal Soriot, mostrou-se confiante nas experiências que decorrem com voluntários dos EUA, Reino Unido, entre outros países. 

Numa crise sem precedentes, tanto a AstraZeneca como a Universidade de Oxford se comprometeram a distribuir a vacina sem qualquer intenção de custo enquanto durar a pandemia. Depois de a pandemia estar controlada, a vacina continuará a ser distribuída neste molde aos países em desenvolvimento, mas os países mais desenvolvidos terão de a adquirir a um custo "relativamente baixo".

Efeitos colaterais

Há sensivelmente um mês, os laboratórios que trabalham com especialistas de Oxford foi surpreendido com a notícia da morte de um voluntário que participou nos ensaios clínicos da vacina. Foram precisas mais de 24 horas para apurar que o médico brasileiro de 28 anos terá recebido o placebo da vacina e não uma dose ativa da vacina.

Apesar das autoridades sanitárias brasileiras não terem esclarecido o contexto do episódio, fonte ligada ao estudo da farmacêutica acabou por esclarecer que o médico do Rio de Janeiro que estaria na linha da frente da luta contra a pandemia teria contraído covid-19 em setembro, tendo morrido de complicações associadas à doença. 

De resto, caso se viesse a provar que a morte do brasileiro era uma consequência da vacina, os ensaios clínicos teriam de ser suspensos em todo o mundo. De facto, o ensaio foi suspenso em todo o mundo a 6 de setembro, mas retomou alguns dias depois no Reino Unido e nas semanas seguintes na África do Sul, Brasil, Japão e finalmente nos EUA. As várias autoridades sanitárias consideraram a vacina segura, uma vez que a morte do médico não estará relacionada com o protótipo que tem o carimbo Oxford.

Terra de testes interrompidos

No pódio dos países com mais casos e mais óbitos associados ao novo coronavírus, o Brasil suspendeu os testes de uma vacina chinesa após um "incidente grave", apesar dos farmacêuticos porem aos mãos no fogo quanto à segurança do fármaco. Sem quaisquer pormenores ou detalhes do que terá estado na base da decisão, as autoridades brasileiras suspenderam a vacina CoronaVac no mesmo dia em que os norte-americanos da Pfizer publicitaram a eficácia de 90% do antídoto que está a ser produzidao na Alemanha. 

Surpreendido pela decisão, o laboratório chinês Sinovac Biotech, que produz a CoronaVac, disse estar "confiante na segurança da vacina", adiantando que o incidente no Brasil foi "sem relação" com a vacina que tal como a da Pfizer ou a da Oxford se encontra na Fase 3 dos testes de eficácia e segurança. 

Noutros planos 

Sem fim à vista para a pandemia, a vacina chinesa tem sido objeto de uma batalha política entre Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Apesar de continuar a privilegiar os negócios com a China, o Presidente do Brasil tem levantado dúvidas sobre a segurança da vacina  "daquele outro país". No mês passado, cancelou um acordo de compra de 46 milhões de doses do antídoto chinês que tinha sido anunciado pelo seu próprio ministro da Saúde. Citando "uma China altamente desacreditada", porque "o vírus nasceu lá", Bolsonaro garantiu que o seu país "não compraria uma vacina em que ninguém esteja interessado". 

Governador do estado mais populoso do maior país da América Latina, João Doria não pretende, no entanto, romper o contrato que assinou com os laboratórios chineses para a compra de 46 milhões de doses do fármaco. "Funcionários do governo estatal receiam que Bolsonaro esteja a utilizar decisões técnicas para atrasar o calendário de vacinação por razões políticas", noticiou o jornal Folha de São Paulo, citando familiares de Doria. 

Taxa máxima 

Um passo à frente na linha dos antídotos da pandemia, a Rússia inicia a estratégia de vacinação em massa já "nas próximas semanas", segundo os criadores da vacina que, apesar das reticências iniciais, já passou no crivo da Organização Mundial da Saúde (OMS). "A eficácia do Sputnik V é de 92%", conclui o diretor dos laboratórios Gamaleya, Alexandre Gintsburg, num comunicado emitido esta quarta-feira. 

Os ensaios não registaram quaisquer "reações indesejáveis imprevistas" entre os participantes da investigação, acrescenta. Até à data, mais de 20 mil voluntários receberam a primeira dose da vacina, enquanto outras 16 mil pessoas foram vacinadas com a primeira e segunda doses em estudos clínicos em 29 centros médicos na Rússia. Embora os ensaios se prolonguem por mais seis meses, os relatórios preliminares da farmacêutica são animadores. 

De acordo com o Russia Today, os especialistas notam que "alguns dos vacinados" sofreram certas reações a "curto prazo", tais como "dor no local de administração da vacina" ou "síndrome gripal com aumento da temperatura corporal, fraqueza, fadiga, dor de cabeça. Fora isso, responderam bem à terapêutica. 

Além de terem sido distribuídas aos russos com mais de 60 anos, as doses experimentais também foram testadas em professores e profissionais de saúde, com observações preliminares de uma eficácia superior a 90%, de acordo com os dados do governo russo. 

A Rússia registou a Sputnik V em agosto. Depois de ter sido aprovada para utilização, ultrapassando o ceticismo da comunidade científica, a vacina enfrenta agora desafios de produção à medida que em todo o mundo outras farmacêuticas se preparam para introduzir os seus protótipos numa tentativa de implantação generalizada. 

"Propriedade comum da humanidade" 

Esta terça-feira durante a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, Vladimir Putin fez suas as palavras do primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, para defender a distribuição gratuita das vacinas em todo o mundo. "A vacina deve ser propriedade comum da humanidade", anuiu. 


"Propomos não politizar os processos, pelo facto de hoje em dia as pessoas em todo o planeta, sem exagero, necessitarem destes medicamentos", elaborou o Presidente russo, antes de abrir a porta a um acordo mundial para estancar a crise sanitária. 

"Estamos prontos para trabalhar com todos os países do mundo", reafirmou. Além da Sputnik V, a Rússia registou a 14 de outubro uma segunda vacina contra a covid-19, apelidada de EpoVacCorona, e prepara já um terceiro fármaco, segundo o chefe de Estado. 

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