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Greve pelo clima: em Bruxelas jovens dividem as ruas com adultos
Sociedade 3 min. 21.09.2019

Greve pelo clima: em Bruxelas jovens dividem as ruas com adultos

Greve pelo clima: em Bruxelas jovens dividem as ruas com adultos

Foto: AFP
Sociedade 3 min. 21.09.2019

Greve pelo clima: em Bruxelas jovens dividem as ruas com adultos

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
De 15 a 20 mil pessoas desfilaram no centro da capital europeia

 Em vez de terminar em grande festa junto ao canal ou na Gare du Midi, a marcha mundial pelo clima em Bruxelas desembocou numa das zonas mais populares para manifestações, a praça Schuman, em frente ao edifício da Comissão Europeia. Mais do que miúdos a gritar protestos e slogans que toda a gente já conhece, as manifestações pelo clima estão a tornar-se muito organizadas e a afinar os pontos de vista. Terminar debaixo da janela de Jean-Claude Juncker não foi por acaso.

Como também não foi por acaso que houvesse quase tantos jovens como adultos, entre os 15 a 20 mil manifestantes que a polícia contou. É isso que a inspiradora do movimento, Greta Thunberg, quer: o apoio dos mais velhos. “Tousensemble For Climate” foi a hashtag da manifestação com a imagem de um Manekenpiss (o menino a fazer chichi, emblema de Bruxelas) a apagar o fogo do planeta.

Todos juntos foi, além da mistura de faixas etárias, a quantidade impressionante de organizações que se reuniram, desde os Extinction Rebellion, Amnistia Internacional, os habituais grupos de defesa dos animais, Greenpeace, etc. Caraterística das manifestações do clima em Bruxelas, em cada camisola estão colados autocolantes de várias associações.

Rik Haegebaert veste a camisola dos Avós pelo Clima, uma associação que, explica, foi criada em Janeiro de 2019 para dar uma ajuda aos jovens que estavam a fazer greve às aulas, e que neste momento cresceu ao ponto de já ter atividade própria: “Vamos promover palestras em vários pontos, como locais de trabalho, para dar formação às pessoas. Assim percebem porque todos temos que estar nestas greves”, conta Rik. Num país tradicionalmente dividido pelas suas duas línguas e comunidades, a flamenga e a francófona, os “Grootouders Voor Het Klimaat” estão em todas as manifestações com os seus coletes de identificação escritos ou em francês ou em neerlandês. Apesar de os belgas terem dificuldade em trabalhar juntos em quase tudo - nem sequer conseguem distinguir como as duas regiões têm que reduzir emissões de CO2 - aqui nas lutas pelo clima os ânimos arrefecem.

Também na manifestação de hoje foram os adultos quem levou os melhores adereços. Vincent, um engenheiro informático de meia-idade, exibe o chapéu que ele próprio decorou com árvores e vacas. “É a quarta manifestação, é o quarto chapéu que faço”, refere.

Mas o prémio melhor figurino vai para Nilufar Ashtari, também ela é a quarta manifestação do clima que faz. Está impecavelmente vestida de Estátua da Liberdade, mas a mensagem dela é outra. “Estamos todos muito preocupados com o clima, mas neste momento estamos debaixo da ameaça iminente de uma guerra nuclear e as pessoas não estão a ligar”. Nilufar Ashtari é filha de um iraniano fugiu do país dos ayatolahs nos anos 70 e se casou com uma flamenga de Antuérpia. É por causa dos genes que ela está muito ligada ao Irão. No crachá tem escrito: “Apenas mais uma mulher chata que odeia o Trump”. Está a torcer para que o atual presidente dos EUA não seja re-eleito, e não é só por causa do clima.

Numa das faixas que atravessavam a rua de lado a lado podia ler-se “Dear Ursula, no guarantees no vote”, uma lembrança para a comissária que tomará posse em Outubro, que foi a promessa de adotar um pacote de medidas climáticas, como uma espécie de Green New Deal americano, que lhe garantiu os votos necessários no Parlamento Europeu. Alguns ativistas juvenis tinham sido de manhã recebidos por Frans Timmermans, o futuro vice-presidente da Comissão que ficou com a pasta do clima. O socialista Timmermans é visto como um homem muito preparado para lidar com o dossiê.

A festa acabou ao final da tarde num palco com discursos, dança e a atribuição do Prémio de Embaixadora da Consciência da Amnistia internacional a Greta Thunberg e a promessa de que daqui a uma semana haverá outra manifestação. Yuni Mertens, um dos rostos jovens mais populares do momento, do Students For Climate, disse ao Contacto que “a manifestação foi um sucesso. Neste período de regresso às aulas não estávamos à espera de tanta gente”. E também, disse, a participação de tantos adultos deve-se “ao trabalho de grande mobilização que todas as centrais sindicais fizeram” .


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