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Greve Ambiental. “Menos conversa e mais ação”
Sociedade 7 min. 25.05.2019

Greve Ambiental. “Menos conversa e mais ação”

Greve Ambiental. “Menos conversa e mais ação”

Foto: LUSA
Sociedade 7 min. 25.05.2019

Greve Ambiental. “Menos conversa e mais ação”

Milhares de pessoas, sobretudo jovens, manifestaram-se, esta sexta-feira, entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República, em Lisboa, no âmbito da greve climática que se realiza em mais de cem países e em muitas cidades portuguesas.

 A concentração estava marcada para as 10.30 e arrancou com centenas de cartazes coloridos e muitas palavras de ordem. 

Muitos dos participantes tinham já protestado na última ação realizada a 15 de março. Foi o caso de Joana Barbedo, de 18 anos, aluna da Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, que decidiu repetir porque entende que “precisamos de mudar agora para que seja possível continuarmos a viver”. Ao Contacto explica que no fim do século, “as temperaturas vão subir cinco graus acima da média” e que “o nível médio das águas vai subir dois metros”. É algo que lhe preocupa porque “sete milhões de pessoas vão estar em fuga dos seus países”. Ao seu lado, Sofia Moniz acha que as pessoas se estão “marimbando” para o que está a acontecer com o planeta e diz que está ali para ver “se é possível mudar alguma coisa”. Antero Alexandre, carrega um cartaz, e sustenta que cabe às gerações mais novas “tentar mudar o que está mal”. O estudante, também com 18 anos, afirma que são precisamente os mais novos que “vão sofrer com as consequências” e aponta o dedo ao capitalismo e ao consumismo. “Existem muitas figuras atuais, políticas, que em vez de fazerem algo pelo clima o estão a agravar ainda mais como é o caso do presidente dos Estados Unidos que promove o aumento de gases poluentes para a atmosfera. Também Bolsonaro, presidente do Brasil, pretende desflorestar a Amazónia”.

“Estudantes unidos jamais serão vencidos”, “governo escuta estudantes estão em luta” e “senhor ministro, explique por favor porque é que no inverno ainda faz calor” foram alguns dos gritos entoados na manifestação. A iniciativa não deixou indiferente quem passava e foi possível ver José da Costa, um dos varredores da freguesia local, aplaudir o protesto. Trabalhador da autarquia há 36 anos, considera que estas manifestações “deviam acontecer todos os dias para que o governo saiba o que se passa”. O clima não é um tema que o deixe indiferente. “Esta juventude merece tudo. Acho muito bem que lutem. Devíamos sair todos para a rua e lutar pelos nossos direitos”.


Na entrada para a Rua de São Bento, vários jovens improvisam uma palavra-de-ordem que rime com “vovó”. Numa janela, várias idosas aplaudem de forma efusiva os manifestantes e os estudantes respondem. Entre eles, vários alunos da Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, que afirmam ao Contacto que esta ação é imprescindível. “É o nosso futuro que está em causa. Se nós não nos mexermos quem é que se mexe por nós?, questionam.


Mais abaixo, uma rapariga distribui autocolantes dos Verdes com o planeta envolto num preservativo. Membro da Ecolojovem, juventude desse partido, responde que está ali porque lhe parece importante “sensibilizar as pessoas para as questões do ambiente”. Beatriz Goulart defende que os comportamentos individuais são responsáveis “só por uma pequena percentagem das alterações climáticas” e que esta luta deve estar endereçada, sobretudo, ao “grande capital” e aos “decisores políticos”, já que, na sua opinião, “é o capitalismo que origina estes problemas com as consequências que nós vemos”.


Mas entre a maré humana de milhares de jovens há também gente de outras idades. Vera, por exemplo, trouxe os quatro filhos, dois deles num carrinho de bebé. “Nós estamos aqui hoje para lutar pelo planeta e para mostrar aos meus filhos que se podem juntar e manifestar por um planeta melhor para que haja alterações no rumo certo”, explicou ao Contacto. O pequeno Vasco, de 8 anos, não quis deixar de explicar o que o motivou a estar ali: as baleias. “Estou contente de estar aqui mas há uma coisa que eu quero dizer. Se nós fossemos baleias também não gostavamos de estar a levar com plásticos e eu estou aqui a tentar ajudar os animais para não ficarem em extinção”.


Já Simão Correia Bento, presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Camões, em Lisboa, trouxe consigo mais de cem estudantes com uma faixa que não deixa margem para dúvidas sobre o que pensam: “O capitalismo não é verde”. O dirigente estudantil explicou que decidiram participar novamente porque não querem chegar “a um ponto sem retorno”. Para o jovem, é preciso alterar o sistema para que se “garanta a existência da humanidade sem a sobreexploração dos recursos”.


Já em frente à Assembleia da República, os estudantes foram recebidos por representantes de vários grupos parlamentares. Do outro lado do largo, vários jovens aterraram um avião gigante de papel num contentor do lixo enquanto gritavam “menos avião, mais imaginação”. Um deles é Francisco Pedro, o ativista que interrompeu o discurso do primeiro-ministro, António Costa, num comício do PS, em protesto contra a construção do novo aeroporto no Montijo. Ao Contacto, explicou que distribuíram centenas de panfletos dobrados em aviões de papel pela manifestação. “Está a ser bom ver muitas causas juntas, vários temas que interessam ser falados e é bom ver a energia de gente muito diferente”. Questionado sobre se vai ser possível manter a força destas manifestações, responde que “se isto se esvaziar é o fim da espécie e do planeta” e é peremtório na urgência de medidas: “Viemos dizer aos políticos engravatados que queremos menos conversa e mais ação”.


Milhares também no Porto


Passavam poucos minutos das 11:00 quando mais de mil estudantes abandonaram a praça da República, no Porto, e munidos de megafones, bandeiras e cartazes deram início à manifestação que, pelas ruas da cidade, "gritou" a favor da defesa do planeta.

"Há medidas a tomar e o governo anda a brincar" e "A nossa a luta é todo o dia, pela água, clima e energia", foram alguns dos apelos que os estudantes, não só de escolas da cidade do Porto, mas também de cidades vizinhas, foram fazendo ao longo de todo o percurso.

"A juventude continuará a levantar-se sempre que houver injustiças e sempre que for confrontada com problemas que dizem respeito a si mesmos. Estamos a falar do futuro do planeta", disse, em declarações à Lusa, Francisco Araújo, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e um dos estudantes que esteve envolvido na organização da greve.

Se para muitos dos estudantes, esta foi a primeira vez que se "levantaram a favor da mudança", para outros "esta luta não é novidade", como foi o caso de Ana Sampaio, aluna da Escola Secundária José Régio, em Vila do Conde, que voltou a aderir à greve.

"Esta é uma causa que tem de ser defendida por todos os jovens do país, visto que os adultos não conseguem tomar decisões certas", frisou a jovem de 17 anos, alertando que "fazer reciclagem já não é suficiente".

"Já não é só a nós que cabe a mudança no dia-a-dia. Já que as eleições europeias estão próximas, pedimos ao governo e aos partidos que se vão candidatar para também defenderem propostas que estão de acordo com aquilo que deve ser o certo", referiu.

Durante a greve, discursos, cânticos e cartazes como "Faltei à aula de história, para fazer história" e "Quando é que deixou de ser prioritário sobreviver?" apelavam para mudança e tomada de consciência dos decisores políticos.

Além de estudantes, foram também vários os pais e educadores que decidiram trazer os "mais novos" a participar na greve climática, como Filomena Moura, que se fez acompanhar dos dois seus filhos, de 5 e 10 anos.

"É importante eles perceberem desde pequenos que podem fazer a mudança e que podem fazer parte da solução", afirmou, em declarações à Lusa, adiantando que já em "casa têm a preocupação" de os sensibilizar para as questões relacionadas com o ambiente.

"Este protesto dá-nos esperança, há mais consciência daquela que a minha geração teve, maior vontade de mudar. Estou na casa dos quarenta e para nós é um grande alento perceber que isto está assim", frisou.

Também a educadora Rita, responsável pelo espaço de apoio educativo 'Brincar para crescer' se fez acompanhar de 22 crianças, entre os 2 e 5 anos, e à Lusa, admitiu "ter pena" que mais educadores não viessem para “a rua” acompanhar os jovens.

Esta segunda greve climática, que terminou em frente à Câmara Municipal do Porto, na Avenida dos Aliados, decorreu também em mais de 1.600 cidades de 119 países, sendo que em Portugal estavam agendadas manifestações em 34 localidades.

A greve climática estudantil é inspirada na sueca Greta Thunberg, 16 anos, que no ano passado iniciou um boicote às aulas para exigir do parlamento da Suécia ações urgentes para travar as alterações climáticos, um protesto que rapidamente se replicou por todo o mundo.


Bruno Amaral de Carvalho em Lisboa e Lusa no Porto



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