Escolha as suas informações

Grávida de uma sepultura
Opinião Sociedade 4 min. 17.12.2020

Grávida de uma sepultura

Grávida de uma sepultura

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 17.12.2020

Grávida de uma sepultura

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
A minha mãe acariciava a barriga de grávida como se alisasse uma sepultura. Apanhava sol na varanda, com as pernas sobre uma cadeira desdobrável e a camisola subida acima do umbigo. A natureza é perfeita nas sínteses. Uma curva representa uma nova vida.

Mas, no caso da minha mãe, o seu útero expandido era as quatro tábuas de um caixão. Às nove semanas, diagnosticaram aos meus pais uma gravidez inviável: o embrião tornar-se-ia feto e, se não morresse poucas semanas antes de nascer, morreria poucas horas depois do parto. A natureza fez xeque-mate aos meus pais beatos e eles, sem surpresa, decidiram prosseguir com a gestação de um ser humano inviável. Seria o meu oitavo irmão, nove anos mais novo. Todas as noites rezávamos pela sua alma, não pela sua sobrevivência. 

Os meus pais não eram católicos do tipo pedinchão, não ansiavam por um milagre, pelo menos no início. Falavam da missão daquele filho que nunca chegaria a um ano de vida. Caberia à minha mãe ser o casulo da ciese da morte. Numa clara inversão das funções milenares do útero feminino. Na época, eu queria ser astronauta. Talvez para viver na geografia para onde os meus pais enviavam as suas mais profundas preces. Hoje sonho em ser astronauta. Nesse lugar onde as lágrimas não escorrem, estremecem como gelatina à frente dos nossos olhos, somos lembrados de que a tristeza é física.

Confesso que esta opção dos meus pais já me pareceu mais condenável do que a avalio hoje em dia. Não por causa das recorrentes razões dos católicos, garanto. Estudei num colégio religioso e todos os anos tive de purgar, primeiro com gomas de Coca-cola e, mais tarde, com passas de charros, a cíclica conversa sobre abortos da madre. Tudo começava por passarmos de carteira em carteira imagens ampliadas de fetos assassinados pelo bisturi do médico e o desespero da mãe. 

Seguia-se uma história compungida sobre uma rapariga da nossa idade que, caindo na tentação da carne, se viu grávida; pormenores abundavam acerca de noites sem dormir, choro copioso e o surgimento de uma funesta amiga – neste momento, a madre cobria o olhar de insídia – que aventava um caminho fácil, um conhecimento de alguém que conhecia alguém, uma pecadora profissional de vão-de-escada paga para fazer desmanchos. 

A capacidade de narradora da madre, já muito calejada pelas repetições, levava-nos por um beco, naturalmente sujo, até a uma porta. Numa das campainhas, estaria uma saída fácil para um pecado mortal. Mas a estratégia para nos manter consequentes com os nossos atos não passava pela ameaça de punição divina, queriam-nos apiedadas pela emoção. O desfecho era previsível: a rapariga da nossa idade requereria forças de dedos enlaçados, algumas contas de um terço sobrariam da união das mãos, e viraria costas à infame porta para enfrentar, reforçada na fé, uma gravidez na adolescência. 

Não tínhamos nada a dizer, ou melhor, ficávamos sem palavras, apanhadas sem sobreaviso pela pergunta que se seguia: sabem quem era esta rapariga? Nunca era quem julgavam, pelo menos as novas que escutavam a narração pela primeira vez. Tratava-se, como já devem desconfiar, da mãe da própria madre e ela seria, consequentemente, o resultado de um feto não abortado. 

Nunca me deixei de maravilhar com a espetacularidade da revelação nos rostos apanhados de surpresa. Esta maneira ardilosa de manipular o interlocutor tornava a fé poluída e, longe de me afastar, agarrava-me como num espetáculo de mulheres com barba, gigantes e anões. O grotesco comove-me.

A minha mãe também ouviu, ano após ano, a história da rapariga mãe da madre, uma madre do tempo dela. Mas a moral não se aplicaria ao meu irmão: ele não seria nunca o feto não abortado de alguém que pudéssemos amar. Estava condenado. O colégio não transformou a minha mãe numa beata. Estatisticamente, o efeito tende a ser o inverso. Desconfio, aliás, que ela tenha feito um aborto antes do casamento, antes de se transformar numa grávida em permanência: oito filhos em nove anos. 

Isso me terá confidenciado numa mensagem vaga e encriptada quando, à espera do meu quarto irmão, vogávamos entre supermercados para encontrar os únicos cereais que o meu pai admitia comer ao pequeno-almoço. 

(‘Nem sempre levei os calvários até ao final, não sou Cristo’, para mudar de assunto imediatamente.)

Já na altura tínhamos uma carrinha monovolume rebelde aos acanhados lugares dos centros comerciais. Razão bastante para uma perda de compostura, a voz embargada pela irritação. O meu nono irmão – um nado morto – foi a razão da separação dos meus pais. A minha mãe estava farta de parir a fé dos outros. Entendam agora a ironia: uma gravidez despropositada tem afinal propósito. É dar razão à Bíblia, todos os seres vêm ao mundo com uma missão.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.