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Georges Chikoti, embaixador de Angola. “Quero trabalhar com os empresários luxemburgueses”
Sociedade 11 min. 27.06.2018 Do nosso arquivo online

Georges Chikoti, embaixador de Angola. “Quero trabalhar com os empresários luxemburgueses”

Ggeorges Chikoti é o novo embaixador de Angola no Luxemburgo e em Bruxelas.

Georges Chikoti, embaixador de Angola. “Quero trabalhar com os empresários luxemburgueses”

Ggeorges Chikoti é o novo embaixador de Angola no Luxemburgo e em Bruxelas.
Foto: Creative Commons / Chatham House
Sociedade 11 min. 27.06.2018 Do nosso arquivo online

Georges Chikoti, embaixador de Angola. “Quero trabalhar com os empresários luxemburgueses”

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Georges Chikoti nasceu em Dondi, na província de Huambo, fez 63 anos no dia 16 de junho e é casado. Formado em Ciências Humanas e Relações Internacionais, leva já 25 anos no Ministério das Relações Exteriores de Angola e vai cumprir mais uma missão, agora no coração da Europa.

O último ministro angolano das Relações Exteriores da presidência de José Eduardo dos Santos é agora embaixador de Angola em Bruxelas e no Luxemburgo, além de representante permanente junto da União Europeia. Georges Chikoti chegou à capital belga no dia 6 abril e ainda está à espera do convite do Grão-Ducado para apresentar as credenciais. Em entrevista ao Contacto, o novo embaixador diz que, depois desse momento, vai visitar o país e começar a trabalhar com os empresários luxemburgueses. O diplomata fala ainda sobre a comunidade angolana no Grão-Ducado, as prioridades da sua missão, a transição do poder em Angola e a recente visita do Presidente João Lourenço à Bélgica.

Chegou a Bruxelas em abril e, no início de junho, o Presidente João Lourenço fez a primeira visita ao coração da Europa. Teve tempo para preparar esta visita?

Começámos em abril e estivemos a preparar esta visita durante mais ou menos um mês.

Esta foi uma visita sobretudo de caráter económico, com Angola a ser apresentada como o novo destino do investimento em África. Preparam-se privatizações totais ou parciais de empresas públicas, também do setor petrolífero e das telecomunicações. Que garantias pode Angola oferecer aos investidores estrangeiros?

A nossa lei está a ser revista e melhorada. Prevê a possibilidade do repatriamento total dos benefícios ganhos em Angola. Estamos também a fazer toda uma reforma que facilita o acesso ao país, em termos de burocracia e dos vistos. Depois, temos o sistema bancário, que vai ser um pouco mais ágil na facilitação de circulação do dinheiro para responder às queixas sobre os atrasos. Há, portanto, uma reforma profunda que está a ser feita.

Sobre esse repatriamento de ganhos, ao mesmo tempo que decorria esta visita, Isabel dos Santos, que foi exonerada da liderança da petrolífera Sonangol no final de 2017 por João Lourenço, perguntou nas redes sociais “qual o investidor que vai entrar se não dão autorização aos atuais investidores estrangeiros para levarem os lucros em dólares”. Qual é o seu comentário?

Por isso mesmo é que o Presidente também disse que vai dar prioridade a isso para facilitar a vida dos investidores em todas as áreas, como o circuito bancário e a liberdade de transferência dos seus benefícios.

Também em dólares?

Sim. As empresas fazem operações e precisam de transferir os seus ganhos. Claro que ali já será um problema de conversão entre o Banco Central e as empresas. Portanto, poderá ser feito no tempo e nas possibilidades do Banco Central.

Georges Chikoti diz que tem uma boa relação com o novo presidente de Angola.
Georges Chikoti diz que tem uma boa relação com o novo presidente de Angola.
Foto: Creative Commons

Depois de Bruxelas, João Lourenço esteve ainda em Antuérpia, conhecida como a capital mundial do comércio de diamantes...

O nosso setor diamantífero foi convidado a fazer uma visita. Esteve lá também o ministro das Minas e as principais empresas de diamantes. A cidade de Antuérpia disponibilizou-se para comprar os diamantes de Angola. Houve uma conversa bastante aberta, as pessoas podem fazer investimentos diretos e nós podemos trabalhar com aqueles que estiverem interessados em investir no setor da lapidação do diamante. O diamante rende cerca de 1.5 mil milhões de dólares ao ano, algo de muito considerável. Temos uma boa produção de diamantes, há investimentos importantes, como o projeto Catoca [mina na província de Lunda-Norte], que funciona, e Angola vai continuar a atrair investimentos e a facilitar a compra do diamante.

O Presidente João Lourenço disse que está a levar a cabo “uma verdadeira cruzada contra a corrupção e a impunidade” em Angola. O que tem a dizer sobre esta atitude?

Acho que é um engajamento importante. Angola e outros países africanos vivem os mesmos males. O Presidente indicou que iria levar a cabo um trabalho nesta área e, naturalmente, isso implica uma reforma de tudo, um conjunto de ações que impliquem a polícia, a Justiça, a sociedade em geral, toda uma cultura, porque é também necessário transformar a mentalidade do cidadão.

Como viu a exoneração da filha do ex-Presidente, Isabel dos Santos?

Isabel dos Santos é uma empresária e a sua ida para a Sonangol foi um pouco contestada desde o início. Ela tinha de gerir os negócios dela e ao mesmo tempo estava próxima da Sonangol. Para um país como Angola, acho que podia gerar conflitos de interesse. A Sonangol tinha uma crise profunda e o que se queria era que ela saísse desta crise.

Foi o último ministro dos Relações Exteriores durante a presidência de José Eduardo dos Santos e, com a chegada de João Lourenço, passou a embaixador. Como é a sua relação com o novo Presidente?

Temos uma boa relação. Tenho 25 anos de Ministério das Relações Exteriores, entre os cargos de vice-ministro e de ministro. Estou agora aqui no centro da Europa, onde os interesses bilaterais também são muitos. Claro que é uma opção para reduzir a minha carga de viagens. Precisava de estar num posto onde pudesse ter mais tempo sentado, já que não tenho pouca idade. É tempo para fazer outra coisa e aqui tenho muito trabalho, mas poucas viagens. Posso trabalhar bem com todas as instituições importantes que aqui estão, olhando para o potencial económico. Nesta visita do nosso Presidente constatou-se esse grande potencial empresarial, que pode também participar no desenvolvimento de Angola. Temos já contactos de muitas empresas que querem ir para Angola. Tenho também as relações com a União Europeia, com o Luxemburgo, que é um mercado importante em termos de capital e empresários, e outras áreas de interesse a que pretendo dedicar o meu tempo.

Acaba por ser destacado para o centro da Europa. Um sinal de confiança? Como viveu esta transição pessoal de ministro para embaixador?

(risos) Estou a vivê-la bem. Precisava de reduzir as viagens, mas tenho de me adaptar a outro mundo de muito trabalho, muitas reuniões, muitos empresários. Creio que, com dois meses, estou a adaptar-me bem, está a ser intenso e espero continuar a adaptar-me às instituições para continuar a atrair mais investimentos para Angola e outras missões.

A diplomacia económica é a prioridade do novo embaixador.
A diplomacia económica é a prioridade do novo embaixador.
Foto: Carlos Pozo Albán / Cancillería Ecuador

A diplomacia económica é a sua prioridade?

Com certeza.

Falou com a sua antecessora, Elizabeth Simbrão, antes de chegar? O que ela lhe disse sobre esta missão?

Não falámos especificamente sobre o que fazia aqui. Estou a basear-me no que ela já fez e agora estou a reorientar as coisas para ver se podemos ter o máximo de engajamento de investidores.

Também é embaixador junto do Luxemburgo. Quando vem ao Grão-Ducado apresentar credenciais?

Estou à espera. Já solicitámos o “agreement” e penso que, logo que isso for fixado, estarei no Luxemburgo.

Recebeu já convites para algum evento no Luxemburgo?

Recebi alguns, mas como não estou ainda acreditado, quem vai é o nosso encarregado de negócios.

O tempo de espera para renovar os documentos é a principal queixa da comunidade angolana no Luxemburgo. Há casos de pessoas que ficam dois anos à espera. O que pode fazer para mudar esta situação?

Já tive uma reunião com a comunidade, aqui em Bruxelas, e houve um cidadão que veio representar a comunidade do Luxemburgo. Colocaram-me este problema e, eventualmente, vamos ter de pensar em criar um serviço no consulado para acelerar o tratamento das preocupações que vêm das comunidades de Bruxelas e do Luxemburgo.

Há também quem se queixe dos telefonemas que não são atendidos no consulado em Bruxelas... Vai mudar o modo de funcionamento dos serviços consulares?

Não é só os telefonemas. É o tratamento dos documentos, há pessoas que se queixam que foram maltratadas, etc. Quero encontrar uma forma de responder o mais rapidamente possível a tudo isso.

Foto: Lusa

Mas, de concreto, o que pode ser feito?

O primeiro problema é o atendimento. As pessoas têm de ser bem atendidas e depois disso é dar soluções aos seus problemas. Há alguns que não têm soluções, mas há uma boa parte que tem soluções.

O que não tem solução?

Por exemplo, se alguém, que está cá, diz que é angolano, mas não sabe onde nasceu ou onde fez o registo, não vamos conseguir encontrar esse registo e nunca vamos conseguir provar que é angolano. Se nos pede um documento, vamos basear-nos em quê? Tem de nos dar algumas referências contretas. Por exemplo, “o meu pai é daqui”, “a minha mãe é dali” e pode ser que consigamos localizar alguma coisa. Sabemos que há casos de pessoas que cá estão e usaram Angola como ponto de partida, mas podem ser camaronesas, por exemplo. Pode até haver casos de congoleses que têm uma relação sentimental com Angola, onde está a capital do antigo Reino do Congo [M’Banza Kongo ou São Salvador do Congo, na província angolana de Zaire], mas tem de haver uma referência mínima para não estarmos num jogo do “puxa para aqui e puxa para ali”.

O que podem esperar de si os cerca de dois mil angolanos no Luxemburgo?

De mim só podem esperar o melhor atendimento, dentro das minhas possibilidades, para resolver os problemas com os papéis, os documentos para os angolanos, mas também os vistos para estrangeiros.

É um embaixador próximo das pessoas, da comunidade? Qual será o seu posicionamento?

Entre muitos problemas que tenho de gerir, também tenho os da comunidade. Estou cá há dois meses e convidámos a comunidade para vir saudar o Presidente da República na recente visita. Mas a comunidade está distribuída aqui em 23 associações. Reúne-se com eles e vê-se que estão muito divididos, em muitas coisas. Quero que haja um maior entendimento, mas, como são associações livres, há problemas que não posso resolver. Vamos trabalhar com aqueles que querem alguma coisa connosco. Vou ter mais encontros com a comunidade e vou estar com todos.

O Luxemburgo apresentou, no início deste mês, a candidatura ao estatuto de observador associado da CPLP. A resposta será dada na cimeira agendada para os dias 17 e 18 de julho em Cabo Verde. Angola apoia esta candidatura?

Já temos países que são observadores e não temos nada contra. A lista é grande e isso vai depender dos ministros que vão discutir isso e depois dos chefes de Estado. Mas como já há vários países com esse estatuto, em princípio não haverá nada contra.

Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo, Jean Asselborn, um dos objetivos desta candidatura é aprofundar as suas relações com a CPLP e os seus membros. As relações Angola – Luxemburgo são quase nulas. O que espera fazer no sentido do reforço destas relações?

O Luxemburgo é um país importante e os embaixadores de Angola sempre cobriram o Grão-Ducado. Vou usar a minha experiência para haver maiores ações e maior participação. Logo que tiver a minha credencial, irei visitar o país e vou querer trabalhar sobretudo com os empresários luxemburgueses, fazer algo que nos possa, rapidamente, permitir trabalhar juntos.

Ainda sobre os blocos linguísticos que juntam países, Angola pediu recentemente para integrar a Organização Internacional da Francofonia e a Commonwealth [53 países anglófonos]. O seu país está de corpo e alma na CPLP? Há outros interesses?

O mundo diplomático está cada vez mais a internacionalizar-se, o que quer dizer que isso vai fazer com que amanhã tenhamos um só sítio onde nos encontremos. O Luxemburgo vem para a CPLP, os países da CPLP vão para outras organizações e isso é bom porque enriquece as nações, permite a troca de experiências, de conhecimentos e participações em ações conjuntas. Sabemos que Moçambique tem o inglês como sua segunda língua oficial e na África Austral predomina o inglês. Não podemos ignorar todos esses elementos que fazem com que os países, a um dado momento, tenham a sua estratégia para conduzir a política externa.

Georges Chikoti já apresentou as credenciais em Bruxelas e tomou posse como embaixador (na foto), mas falta ainda apresentar as credenciais no Luxemburgo.
Georges Chikoti já apresentou as credenciais em Bruxelas e tomou posse como embaixador (na foto), mas falta ainda apresentar as credenciais no Luxemburgo.
Foto: Embaixada de Angola

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