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#FreeBritney. Tudo sobre o movimento que quer libertar a estrela pop
Sociedade 7 min. 01.07.2021
Tutela parental

#FreeBritney. Tudo sobre o movimento que quer libertar a estrela pop

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#FreeBritney. Tudo sobre o movimento que quer libertar a estrela pop

Foto: AFP
Sociedade 7 min. 01.07.2021
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#FreeBritney. Tudo sobre o movimento que quer libertar a estrela pop

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Britney Spears veio finalmente a público testemunhar contra a tutela que controla a sua vida há 13 anos. Mas há muito que os fãs exigem a libertação da cantora das suas amarras legais. O que querem, afinal, os apoiantes do #FreeBritney?

A semana passada, Britney Spears dirigiu-se pela primeira vez a um tribunal sobre a tutela legal que lhe foi imposta. O seu testemunho veio confirmar as suspeitas de que a cantora não tem autoridade sobre muitos aspetos da sua vida pessoal e profissional.

"Só quero a minha vida de volta. Já passaram 13 anos e é suficiente", disse Spears.

Falando através de videochamada, Britney Spears apelidou o acordo de "abusivo" e afirmou que a tutoria legal encabeçada pelo pai não só lhe negou a devida compensação financeira pelo seu trabalho, como também lhe retirou alguns dos seus direitos básicos - incluindo o direito à autonomia corporal, o direito a ter mais filhos ou a determinar as suas próprias escolhas de vida.

Um detalhe em particular - o facto de não ter poder de decisão para retirar o seu dispositivo intrauterino (DIU) – gerou ondas de choque e desencadeou conversas sobre direitos reprodutivos e de deficiência.

"O meu pai e qualquer pessoa envolvida nessa tutela deviam estar na prisão", disse a cantora.

Britney Spears está sob tutela legal desde 2008, altura em que foi internada num hospital ao abrigo de uma decisão de avaliação psiquiátrica, na sequência de uma disputa de custódia com Kevin Federline, o seu marido na altura.

O seu pai, Jamie Spears, assumiu então o cargo de tutor, assumindo o controlo sobre a filha e o seu património empresarial. A tutela de Spears está dividida em duas partes - uma para os seus bens e assuntos financeiros, e a outra sobre ela enquanto pessoa.

Jamie Spears estava inicialmente encarregue de ambas as partes da tutela, mas renunciou em 2019, alegadamente por razões de saúde. Jodi Montgomery, uma profissional de cuidados de saúde, substituiu-o temporariamente, mas Britney Spears solicitou que esta situação se tornasse permanente, naquela que será uma das primeiras pistas de que algo não estava bem.

Numa audiência em novembro do ano passado, também o advogado de Britney Spears Samuel Ingham disse ao juiz que a cantora não só não queria o seu pai como tutor como que o temia. Acrescentou ainda que a sua cliente "não voltaria a actuar enquanto o pai estivesse encarregue da sua carreira".

De acordo com a lei da Califórnia, uma tutela legal como a de Spears é um acordo que visa proteger alguém "incapaz de responder adequadamente às suas necessidades pessoais de saúde física, alimentação, vestuário, ou abrigo" ou alguém "substancialmente incapaz de gerir os seus próprios recursos financeiros".

Desde que está sob tutela, a cantora não tem tido falta de trabalho: lançou vários álbuns, apareceu em programas de televisão como The X Factor e atuou num total de 248 programas para o seu espetáculo residente em Las Vegas entre 2013 e 2017, que gerou quase 138 milhões de dólares (116 milhões de euros) em vendas de bilhetes, de acordo com a Billboard.com.

Foi precisamente esse um dos argumentos que deu forca às suspeitas sobre os abusos da tutela legal de Britney Spears – se Britney era capaz de continuar a trabalhar e a ter tanto sucesso, como poderia ela ser considerada incapaz?

O que é o movimento #FreeBritney?

À medida que os esforços de Spears para remover o seu pai do seu papel de tutor se intensificaram nos últimos dois anos, o movimento #FreeBritney ganhou cada vez mais força.

O termo data de 2009 e surgiu num site de fãs que discordava do acordo de tutela da cantora. Durante anos, os seus apoiantes organizaram protestos e procuraram chamar atenção para a situação de Britney, mas foi apenas abril de 2019, depois da estrela pop ter sido novamente internada numa instituição psiquiátrica, que o caso tomou outras proporções.

Em alerta máximo após o anúncio, Tess Barker e Barbara Gray lançaram um episódio de "emergência" do seu podcast Britney's Gram. O podcast – que se dedicava a analisar o Instagram da cantora - transmitiu uma mensagem de voz de um assistente de um advogado da tutela de Spears, que alegava, entre outras coisas, que a permanência de Britney numa instituição de saúde mental era involuntária, e a campanha ganhou uma nova legitimidade.

#FreeBritney tornou-se de imediato um dos temas mais populares no Twitter. Em seguida, os fãs convocaram manifestação em Los Angeles, em frente ao hospital onde se encontrava a cantora. Pouco depois, a também cantora pop Miley Cyrus gritava "Free Britney!" num dos seus concertos

Mas foi só em fevereiro deste ano, depois da estreia do documentário do New York Times “Framing Britney: A vida de uma estrela”, realizado por Samantha Stark, que o movimento ganhou verdadeiramente força. O filme resume a vida da cantora pop desde o final dos anos 90 até aos dias de hoje, e retrata a perseguição e objetificação que Spears sofreu como estrela adolescente e as restrições que enfrenta atualmente.

Desde então, várias organizações, incluindo a American Civil Liberties Union (ACLU), pronunciaram-se em favor da libertação da cantora da sua prisão legal.

A semana passada, na véspera da primeira intervenção de Spears em tribunal aberto, o jornal publicou uma nova reportagem, citando registos confidenciais do tribunal e revelando que a cantora tem vindo a pressionar a justiça para acabar com a sua tutela há anos.

"Ela sente que a tutela se tornou uma ferramenta opressiva e controladora", pode ler-se num relatório do tribunal de 2016. Ainda assim, o juiz rejeitou a tentativa de retirar o pai da cantora como tutor dos seus bens.

Tem sido longa e árdua a batalha do movimento #FreeBritney para convencer o mundo de que Spears está a sofrer sob a sua tutela legal. Depois de largos anos a serem apelidadas de "teoria da conspiração”, o facto de Britney Spears ter vindo agora condenar publicamente o acordo parece assinalar um ponto de viragem no processo.

Até então, a cantora tinha vindo a desvalorizar os argumentos dos apoiantes do movimento, procurando projetar uma imagem de normalidade nas suas redes sociais. Em tribunal, Britney admitiu ter procurado esconder a situação em que se encontrava: "Menti e disse ao mundo inteiro que estou bem e que estou feliz. Tenho estado em negação. Tenho estado em estado de choque. Estou traumatizada...”

Para os apoiantes do movimento #FreeBritney, a questão é maior do que ela própria. Após o seu testemunho em tribunal, muitas foram as vozes que se levantaram para apoiar a causa, dizendo que o problema vai para além da tutela legal da estrela pop, sendo um atentado aos direitos das mulheres e das pessoas com deficiência ou com problemas de saúde mental.

Britney está longe de ser a primeira estrela feminina a ter tido a sua carreira e vida feitas do avesso em situações que muitas vezes ocorrem sob a responsabilidade de pais e gestores tóxicos.

É o caso de Amanda Bynes, por exemplo, também ela uma estrela pop infantil com um futuro aparentemente brilhante à sua frente, até ser descarrilada por questões de saúde mental e de abuso de substâncias.

Bynes esteve diversas vezes internada em instituições psiquiátricas e em 2013, depois de ter ido para o Twitter chamar “feias” a outras celebridades, a sua mãe conseguiu a sua tutela legal. Ao longo dos anos têm surgido histórias com várias controvérsias entre a estrela e a sua mãe sobre assuntos financeiros e pessoais. Bynes queixa-se também da influência da sua mãe sobre a sua vida pessoal, incluindo assumir o controlo das suas redes sociais e recusar-se a conceder-lhe autorização para casar.

Mas Spears e Bynes não estão sozinhas. Embora os números exatos não sejam conhecidos, estima-se que milhões de pessoas com deficiências intelectuais e psicossociais sejam privadas de capacidade legal e colocadas sob alguma forma de tutela.

Para a advogada da Florida e especialista em neurodiversidade Haley Moss, o movimento #FreeBritney também significa libertação para todas as pessoas deficientes que vivem sob restrições opressivas.

"Os adultos com deficiência acabam em tutelas indesejadas ou desnecessárias. Free Britney significa libertar-nos a todos", tweetou Moss.

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