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Frances Haugen contra o império Zuckerberg
Opinião Sociedade 3 min. 17.10.2021
Facebook

Frances Haugen contra o império Zuckerberg

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Frances Haugen contra o império Zuckerberg

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 17.10.2021
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Frances Haugen contra o império Zuckerberg

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O único que importa é aumentar os lucros, nem que por estes seja necessário semear o caos, a depressão, a ansiedade e a ignorância.

A data é 15 de Dezembro de 1953. No hotel Plaza em Manhattan reúne-se um grupo de pessoas muito parecidas fisicamente – todos homens, brancos, de meia-idade e bem nutridos. Cada um deles preside a uma grande tabaqueira: Philip Morris, American Tobacco, etc. Estes capitalistas modernos estão preocupados, não pelos efeitos devastadores que o seu produto provoca nos humanos (cujas provas eles já conhecem há muito mas começam só então a chegar ao domínio público) mas porque o negócio começa a ser afectado – nesse ano “só” se venderam 384 mil milhões de cigarros, menos 20 mil milhões que no anterior. E é nessa histórica reunião que o cartel do tabaco decide usar a poderosa arma do nazi Goebbels: propaganda.

O único que importava era aumentar os lucros, nem que por estes fosse necessário destruir a saúde pública e matar aos poucos, em plena consciência, os fumadores enganados pelas mentiras. As tabaqueiras subornaram cientistas e médicos para que estes negassem que os cigarros causavam cancro e alardeassem os “efeitos benéficos para a saúde”; pagaram campanhas de relações públicas para abafar estudos científicos que apontavam para o óbvio; apontaram o seu marketing para os jovens, mais influenciáveis e cruciais para substituir os clientes que iam morrendo; negaram sempre que os cigarros fossem viciantes, ao mesmo tempo que adicionavam na composição o máximo de produtos viciantes. E tentaram destruir todas as provas destas mentiras e crimes. Resultou em pleno, e foram precisos 50 anos, duas gerações de activistas e muitas testemunhas, juízes e políticos corajosos para que o poder ilimitado desta indústria de mentiras letais fosse (ligeiramente) controlado.

Tenho esperança que não será preciso esperar meio século para encontrar um travão para o flagelo monopolista chamado Facebook.

Tenho esperança que não será preciso esperar meio século para encontrar um travão para o flagelo monopolista chamado Facebook. A multinacional que conta com 3 mil milhões de utilizados, perdão, de utilizadores teve uma semana esquisita: começou com um apagão de cinco horas e continuou com um momento que, com o tempo, se revelará ainda mais marcante, o depoimento da lançadora de alerta Frances Haugen.

O Facebook tem um impacto devastador na sociedade, é um verdadeiro cancro insidioso para as democracias, encoraja a difusão de desinformação e discurso de ódio à velocidade de fogos florestais – e sabe-o. Afecta a saúde mental de uma em cada três adolescentes – e tem estudos próprios que o provam – mas explora implacavelmente alvos cada vez mais jovens de forma a viciá-los para a vida, enquanto afirma “as nossas pesquisas indicam que os nossos produtos têm um efeito positivo sobre a saúde mental”. Por outras palavras, fumar faz tão bem...


Quando o Facebook apaga o mundo pode acabar com ele?
O apagão do Facebook, Instagram e WhatsApp a 4 de outubro, afetando mais de 3,5 mil milhões de pessoas, colocou na ordem do dia a questão da estabilidade da rede e dos perigos que corremos ao termos a vida controlada sobretudo por computadores e pela Internet.

Também esconde e mente para evitar o mínimo cheiro a transparência, e paga principescamente a lóbistas bem colocados para fugir a regulação (e a impostos). O único que importa é aumentar os lucros, nem que por estes seja necessário semear o caos, a depressão, a ansiedade e a ignorância, e destruir aos poucos, mas de plena consciência, os laços sociais indispensáveis à nossa sobrevivência.

Ou seja, nada do que Frances declarou é verdadeiramente surpreendente, e os escândalos sobre o Facebook já perderam o seu valor-choque (enquanto poucos conseguem cortar com o vício). Mas a antiga funcionária da empresa provou a importância de uma cara humana – e de um discurso articulado, sucinto, calmo e factual – para o impacto de uma boa história. Depois de ter explicado ao Congresso norte-americano porque é que é tempo de pôr rédeas no Facebook, Frances Haugen quer convencer do mesmo o líder mundial em regulação digital: a Europa. Para o império de Zuckerberg, este pode ser o princípio do fim.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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