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França. Quando os gangues são de miúdos que matam miúdos

  • Dois mortos e sete feridos todos crianças
  • 70 gangues em Paris dos 74 em França
  • Bairros de tragédia social
  • Violência é a única forma de comunicação
  • Rituais de iniciação de violência atroz
  • Uma “geração perdida”?
  • Prevenção e outras estratégias a seguir
  • Dois mortos e sete feridos todos crianças 1/7
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  • Bairros de tragédia social 3/7
  • Violência é a única forma de comunicação 4/7
  • Rituais de iniciação de violência atroz 5/7
  • Uma “geração perdida”? 6/7
  • Prevenção e outras estratégias a seguir 7/7

França. Quando os gangues são de miúdos que matam miúdos

França. Quando os gangues são de miúdos que matam miúdos

França. Quando os gangues são de miúdos que matam miúdos


por Paula SANTOS FERREIRA/ 12.03.2021

Em 15 dias, foram mortos dois jovens de 14 anos, e outros cinco ficaram feridos, em cinco batalhas de grupos de menores nos subúrbios de Paris. Três especialistas franceses explicam ao Contacto as razões e os perigos desta espiral de violência juvenil.

Em 15 dias, foram mortos dois jovens de 14 anos, e outros cinco ficaram feridos, em cinco batalhas de grupos de menores nos subúrbios de Paris. Três especialistas franceses explicam ao Contacto as razões e os perigos desta espiral de violência juvenil.

 Lilibelle tinha 14 anos e foi morta com uma facada no estômago ao colocar-se no meio de dois gangues rivais, de Dourdan e Saint-Chéron, perto da escola de Saint-Chéron, que frequentava, na tarde de 22 de fevereiro. A rixa envolveu uma dezena de jovens.

A grande maioria dos envolvidos nestas batalhas tem menos de 16 anos. Muitas das lutas são combinadas com local marcado. Os gangues vestem-se de preto, casacos com capuz ou usam-se gorros para não serem identificados, juntam-se as armas, facas, barras de ferro, tacos de basebol. Viajam de transporte público, algumas vezes arranjam-se carrinhas de caixa aberta para levar todo o grupo e as armas. Preparados partem para a “guerra”, como os próprios dizem, com o inimigo. Desta vez, houve duas mortes de menores, em dois dias seguidos e França acordou para esta realidade da espiral de violência juvenil, nos bairros mais pobres das cidades dos arredores de Paris.

Foi nestas rixas, nos departamentos de Essonne e Seine-Saint Denis e na Île-de-France, que morreram dois miúdos, de 14 anos, e outros ficaram feridos com gravidade, a 22 e 23 de fevereiro. As rixas de gangues de menores em Paris estão a acontecer com mais frequência, são cada vez mais violentas e envolvem menores cada vez mais jovens.

Foi assim que foi morta Lilibelle de 14 anos. O jovem suspeito de ter esfaqueado “Lily” tem 16 anos, e ficou detido provisoriamente. Outros seis menores com idades entre 13 e 16 anos, estão sob custódia policial.  

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Dois mortos e sete feridos todos crianças
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 No dia seguinte, houve outra rixa e outra morte. A 45 quilómetros de distância onde Lilibelle morreu, Toumani, também de 14 anos faleceu, vítima de uma facada que atingiu o coração, numa outra "guerra" entre bandos rivais de menores de Essonne. Outro rapaz de 13 anos foi esfaqueado na garganta tendo ficado gravemente ferido, e foi transportado de helicóptero para o hospital.

O suspeito dos esfaqueamentos tem 15 anos e desta vez, a rixa envolveu cerca de 40 adolescentes que se digladiaram em Boussy-Saint-Antoine, a meio caminho entre as cidades dos gangues rivais, Épinay-sous-Sénart e de Quincy-sous-Sénart. Ao longe as testemunhas só viram um grupo enorme envolto em inúmeras agressões, todos vestidos de preto, capuzes na cabeça, armados com bastões, facas e barras de madeira.

Neste motim, os mais velhos de 17 anos decidiram que seriam os mais novos a estar na linha da frente, enquanto eles ficariam apenas a observar, explicou a procuradora Caroline Nisand, citada pela imprensa. O confesso autor das facadas, de 15 anos, está indiciado por homicídio e tentativa de homicídio, pois foi também ele a desferir o golpe na garganta ao miúdo de 13 anos, e estava já identificado por andar armado. Outros seis elementos identificados, com idades entre os 16 e 17 anos estão sob supervisão judicial.

Mais três rixas com feridos ocorreram nos dias seguintes. A rivalidades entre um grupo do distrito de Bois Sauvage e outro de Champtier-du-Coq, ambos em Essonne levou a mais uma “batalha” de 20 jovens em Evry-Courcouronnes, a 25 fevereiro. Mais dois feridos, um jovem esfaqueado nas costelas que foi transportado para o hospital, sem perigo de vida, e ainda outro sem gravidade. 

 A 28 de fevereiro, mais três jovens ficaram feridos, na cidade de Charles Schmidt de Saint-Ouen, em Seine-Saint-Denis, num confronto entre dois bandos que envolveu 50 menores. A 8 de março, noutra batalha, em Champigny-sur-Marne, no le Val-de-Marne, dois adolescentes de 14 e 16 anos foram transportados de urgência para o hospital.

Já em janeiro, circulou um vídeo da agressão de onze menores a Yuriy (na foto), de 15 anos. O jovem foi violentamente atacado a pontapé e com bastões e barras de ferro(video em cima). Foi mais um episódio destas guerras de gangues, mas desta vez a agressão ocorreu num bairro nobre de Paris, onde vive Yuriy com a mãe.  

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70 gangues em Paris dos 74 em França
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 Segundo os números do Governo francês existem registos de 74 gangues de jovens em França, 70 dos quais na Île-de France. Em Essonne, as autoridades registaram 91 rixas de grupos rivais em 2020, contra 56 em 2019. Os confrontos são cada vez mais frequentes.

“A rivalidade violenta entre bairros ou localidades vem de há muitos anos, e envolve dada vez mais jovens. A situação já era preocupante, mas agora houve mortes de menores e isto é dramático. É preciso agir imediatamente”, declara ao Contacto Marie Hélène Euvrard, adjunta da câmara de Brunoy, vizinha da cidade onde foi morta Lilibelle e de outras cidades envolvidas nesta autêntica guerra. Todas elas pertencem à Comissão de Aglomeração do Val d’Yerres Val de Seine e, como adjunta da autarquia para o setor cultura Marie Hèlène Euvrad costuma visitá-las e conhece bem esta realidade da violência juvenil.

A mesmo apelo para que se tomem medidas urgentemente foi apontado, ao Contacto, por Yazid Kherfi, mediador urbano da Médiation Nomade, ex-delinquente num bairro pobre, em jovem, que se fez ladrão e esteve preso cinco anos, e por Jean-Michel Schlosser, ex-inspetor da polícia na região de Paris que se tornou sociólogo, investigador nas universidades de Versailles e Reims.  

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Bairros de tragédia social
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 Os nossos três entrevistados conhecem bem a realidade social dos bairros pobres dos subúrbios parisienses e as razões que explicam a importância de pertencer a um gangue e que levam à violência.

Estes menores vivem na maioria dos casos só com a mãe e com irmãos, o pai está ausente, por divórcio ou porque regressou ao país de origem ou está preso. A mãe trabalha muitas horas para sustentar a família, sobretudo nas limpezas, não podendo dar atenção aos filhos. E estes menores ficam por sua conta, vivendo uma situação económica muito dura. Apesar da escolaridade obrigatória ser até aos 16 anos, muitos abandonam a escola aos 13 ou 14 anos, sobretudo, porque dificilmente conseguem ter sucesso na escola, e passam o dia com o bando na rua. A escola desistiu deles, a mãe não sabe como lidar com eles, “sente-se perdida” e é nos bandos do bairro que eles encontram a sua proteção e “poder” para expressar a sua revolta.


Luxemburgo. A morte de Rafael acordou o país para a violência juvenil
O assassínio do lusodescendente de 18 anos esfaqueado por dois rapazes de 15 e 17 anos chocou o o país. Outra jovem foi esfaqueada à porta da escola em Kirchberg. Uma psicóloga explica ao Contacto as causas desta violência. E o que tem de ser feito.

“Estes jovens sentem-se inseguros, têm problemas psicológicos devido à sua situação familiar, e sentem que ninguém gosta deles, e é aqui que se sentem protegidos”, vinca Yazid Kherfi que contou o seu passado igual a esses jovens no seu livro “Repris de Justesse”, em que retrata precisamente a vida dos gangues de jovens. Uma vida que largou há muitos anos, agora dedica-se a tentar que os menores dos bairros, como aquele onde cresceu, não sigam o seu exemplo.

Para o mediador de violência urbana, que faz também conferências nas prisões e nas universidades, os menores têm razões de sobra para se sentirem inseguros. “Sentem que ninguém gosta deles, sentem pressão por causa disso. O bando protege-os e permite-lhes sentir poder. O poder é o bando e a violência”, explica Yazid Kherfi que anda pelos bairros pobres com a sua caravana a realizar reuniões à noite com os jovens. Para ele, a violência atual é mais perigosa do que no seu tempo pois hoje “eles não lutam com as mãos, usam armas”.

Os gangues são compostos maioritariamente por menores, e mesmo os seus líderes podem não ter ainda 18 anos, diz Jean-Michel Schlosser. Basta ter demonstrado o seu poder através da violência. Para estes grupos e seus membros, é tudo uma questão de poder, poder perante os outros jovens, os adultos, a polícia e perante o próprio bairro.

Os moradores desses bairros têm medo deles, como tem a polícia que não entra lá. “Os bandos chegam a pedir a moradores que não conhecem os seus documentos de identificação, provas de como moram no bairro para os deixar ir para casa”, conta o sociólogo.  

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Violência é a única forma de comunicação
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 Em média, os gangues são compostos por 20 ou 30 elementos, mas podem chegar a ter 80 membros, vinca o sociólogo. Quando saem do seu território vão todos juntos porque fora do bairro não dominam, podem ser confrontados com outro gangue ou com a polícia. Até às compras vão em grupo.

Para estes menores, tudo se resolve com violência, porque é o único meio de comunicação que conhecem. Estes jovens, nunca se interessaram pelas aulas, abandonaram a escola. A falta de educação ajuda à violência, garante este polícia que se tornou sociólogo.

Devido às redes sociais, à internet e aos jogos vídeo constroem uma realidade paralela, como a da ficção dos filmes e jogos, não distinguindo a violência que exercem com a realidade, explica Maria-Hélène Euvrard que fala numa “digitalização dos conflitos”. Por isso, durante as lutas de gangues quando ferem outros menores, “não sentem arrependimentos, nem culpas. Não sentem empatia, acham que o outro menor merecia e à polícia dizem que agiram em legítima defesa”, vinca o sociólogo.

“Estes jovens são inconscientes por isso estão sempre prontos a cometer um ato graves e não pensam de todo naquele momento sobre as consequências, que poderão ir para a prisão”, esclarece Yazid Kherfi sublinhando que nas suas sessões nos bairros aconselha sempre aos adolescentes a ter calma e sobretudo “a nunca usar a violência”. “Falo-lhes sobretudo da não violência”. Mas é difícil, a própria organização e hierarquização do gangue assenta na agressividade.

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Rituais de iniciação de violência atroz
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 A começar no ritual de iniciação para pertencer ao gangue. Só entra quem passar este ritual e provar que merece pertencer ao grupo, contam a adjunta da câmara de Brunoy e o sociólogo.

“Os menores têm de passar por esse ritual de iniciação decidido pelos mais antigos e são atos de uma violência atroz, como violar uma jovem ou agredir violentamente uma idosa na rua”, afirma o sociólogo.

Os mais velhos vão depois continuando a “treiná-los”. Em muitos confrontos deixam os miúdos debater-se com o bando rival, enquanto eles ficam apenas a supervisionar, mais atrás. Para os menores que têm ambição de subir na hierarquia é uma boa ocasião para mostrar coragem e o quão violento conseguem ser, como esfaquear alguém, até à morte.


Lusodescendentes afastados dos bandos

Existem lusodescendentes nos gangues? “Muito raro. A comunidade portuguesa é mais antiga e já não habita nestes bairros pobres, mudaram-se e compraram casa noutros bairros”, justifica o mediador de violência urbana.

 Também Marie-Hélène Euvrard (na foto), que além de adjunta da câmara de Brunoy é presidente da Coordenação das Coletividades Portuguesas de França (CCPF), diz desconhecer a existência de jovens portugueses nestes grupos. Além da integração social, a dirigente destaca ainda outro fator: “a preocupação dos portugueses com a educação dos seus filhos”. “Para os portugueses é uma questão de honra que os seus filhos sejam bem-educados, e tudo fazem para que sigam os estudos, o que lhes vai permita ter um bom futuro. Eu vim do meio rural francês, e há muitas semelhanças com Portugal quanto ao rigor dos pais na educação dos filhos, e a sua autoridade”, vinca a presidente da CCPF. Já noutras culturas imigrantes nos países de origem estavam habituados a deixar os filhos na rua pois havia sempre algum familiar ou vizinho mais velho a vigiá-los. Só que em França não há.

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Uma “geração perdida”?
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AFP

 Os três entrevistados alertam que as rixas atingiram um nível de violência elevado demais provocando mortes de jovens e perspetivam que mais tragédias entre menores poderão ocorrer, se nada for feito. E apresentam estratégias.

“Infelizmente esta é uma geração perdida, é a opinião de vários especialistas”, estima Jean-Michel Schlosser apontando três únicas saídas nada animadoras para estes adolescentes.

“Uma parte deles vai continuar na delinquência e no banditismo, uma pequena parte pode ter azar e não viver muito e a grande maioria deles irá procurar um trabalho, mas como não tem estudos suficientes, será sempre trabalhador não qualificado e estes são trabalhos cada vez mais raros, e vão ser mais rapidamente substituídos pela automação. Assim, só restará a estes futuros adultos viver de apoios sociais e de ajuda de outros”, perspetiva Jean-Michel Schlosser (na foto).

Para os futuros adolescentes dos bairros pobres pode haver esperança se “se agir já e se tomarem as medidas adequadas, mas será um trabalho difícil”, considera este sociólogo.

Para Yazid Kherfi o futuro dos menores dos gangues “será a radicalização, se nada for feito. Eles passam a vida a ouvir dizer 'és mau, és mau, és mau. O teu bairro é mau, tu és mau'. Eles já deram todas as faces e não se importam de perder mais uma”, alerta.


Paris. Mais dois adolescentes assassinados por jovens
Alisha, de 14 anos foi agredida e atirada ao Rio Sena por um casal de namorados de 15 anos. Aymen, de 15 anos, foi baleado no peito por dois irmãos, um com 17 anos e morreu nos braços do pai. A violência juvenil está a aumentar em Paris.

 Este mediador, é aliás, um dos 110 signatários de uma carta aberta intitulada “Face aos atos de violência entre jovens, há que privilegiar a ação social, a educação e a mediação”, publicada dia 10 de março na Franceinfo. No documento, vários profissionais que trabalham com jovens propõem medidas para evitar novos “dramas terríveis”.

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Prevenção e outras estratégias a seguir
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Os três especialistas apontam, ao Contacto, as mesmas falhas que conduziram a este ponto dramático de violência juvenil e medidas semelhantes às da carta aberta que Yazid Kherfi (na foto com os jovens) assina e que devem ser adotadas de imediato. Algumas vão demorar a surtir efeito.

Para Jean-Michel Schlosser e Yazid Kherfi, os bairros pobres e as suas gentes foram sendo esquecidos. Deixou-se definhar os serviços de apoio sociais nem se apostou neles, nem nas associações, tão pouco na prevenção e mediação. “Nem sequer houve preocupação de melhorar o ambiente do bairro, torná-lo mais acolhedor”, vincou o sociólogo.

Agora há que reagir a todos os níveis. “Há que dar um murro na mesa e agir”, diz mesmo Marie-Hélène Euvrard. Não só apostar na intervenção social, envolvendo os centros sociais, os serviços de juventude, as escolas “que não podem permitir que os alunos abandonem os estudos durante a escolaridade obrigatória”, e os “professores têm de intervir”. E há que apoiar as famílias, melhor dizendo as mães, defendem os três. “Há que dar formação aos pais, há que responsabilizá-los”, “há que reforçar o lugar e o papel das famílias na vida dos jovens”. A promoção do desporto, da cultura nos bairros é outra das estratégias a seguir para atrair os adolescentes e retirá-los dos bandos e da violência.

Para a adjunta da câmara de Brunoy e para o sociólogo, a par com a prevenção, a polícia tem de intervir e aplicar sanções. “É preciso apostar na prevenção, mas ao nível da justiça e da polícia francesa é também preciso ser repressivo na violência juvenil e aplicar penas reais e imediatas”, defende Jean-Michel Schlosser. Para Marie Hélène Euvrard as autoridades não podem deixar que os bandos dominem os bairros “a polícia tem de ter mais poder do que o líder do gangue”.

Juntar jovens de bandos rivais nas férias

Marie-Hélène Euvrard tem andado em reuniões com as outras câmaras da Comissão de Aglomeração do Val d’Yerres Val de Seine para juntos refletirmos e “encontrarmos soluções para este problema dramático”.

Uma das propostas que irá fazer para as férias de verão juvenis “é reunir jovens de bandos rivais no mesmo grupo que partirá de férias, para eles se conhecerem melhor, para conhecerem valores como a fraternidade, se darem uns com os outros e evitarem futuros conflitos. Sou educadora popular e acredito nesta aposta”, vinca. 

Também, como presidente da (CCPF), esta responsável vai falar com as coletividades portuguesas para apurar se há alguns lusodescendentes em gangues e ao mesmo tempo debater as formas de apoio das associações aos jovens dos bairros. “É preciso unirmo-nos, colocar todas as nossas energias na prevenção, cruzar informação e colocar em ação medidas para mudar a vida destes adolescentes e dos futuros adolescentes”, frisa esta dirigente.

 No próximo dia 30 de março, o primeiro-ministro, Jean Castex, vai presidir a uma reunião interministerial sobre este problema sério das rixas entre gangues de menores que está a tirar a vida a quem não deveria morrer tão jovem.

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