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Finalmente assustados?
Opinião Sociedade 4 min. 19.07.2022
Clima

Finalmente assustados?

O fogo perto da praia em Pyla sur Mer, em França, ao lado de um hotel de 5 estrelas nesta localidade.
Clima

Finalmente assustados?

O fogo perto da praia em Pyla sur Mer, em França, ao lado de um hotel de 5 estrelas nesta localidade.
Foto: Thibaud Moritz/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 19.07.2022
Clima

Finalmente assustados?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Já podemos romper a conspiração de silêncio e falar sobre o assunto que verdadeiramente importa: a nossa sobrevivência na Terra.

"Palavras violentas rompem o silêncio, estilhaçando o meu pequeno mundo". Nem há discussão possível, "Enjoy the Silence" é a melhor música alguma vez feita pelos Depeche Mode (o vídeo de Anton Corbijn, parcialmente filmado no Algarve, também é muito bom). As primeiras linhas da canção, escritas algures no final da década de 80, podiam bem ser sobre a emergência climática que assola o planeta Terra...

E agora, já vale estouros? Já se podem usar palavras violentas? Depois de uma semana em que as temperaturas em Portugal atingiram os 47 graus, matando ali pelo menos 250 pessoas (outras 500 em Espanha) mais vulneráveis ao calor extremo; depois de uma semana em que o flagelo dos incêndios afectou não apenas o Sul mas sim toda a Europa, obrigando milhares e milhares a fugir à frente das chamas; depois de uma semana de incêndios gigantescos nos EUA e de inundações mortíferas na China – um ano depois de inundações mortíferas na Alemanha, Bélgica e Luxemburgo; depois de um dia em que a antigamente chuvosa Inglaterra sofreu um calor que derreteu o alcatrão de pistas de aeroportos; e paremos por aqui porque se torna demasiado angustiante fazer o acompanhamento das catástrofes. 

Aquilo a que estamos a assistir na Europa é apenas um mero vislumbre, leve e breve, de como poderá ser o futuro próximo. Finalmente deu para assustar?

Depois de tudo o que se passa diante dos nossos olhos, já podemos romper a conspiração de silêncio e falar sobre o assunto que toda a gente pressente, quase todos sabem, mas ninguém – nem os media e muito menos os políticos – quer discutir? O único assunto que verdadeiramente importa, a nossa sobrevivência na Terra.

António Guterres, o líder das Nações Unidas, disse-o esta terça da forma mais clara possível: "a Humanidade enfrenta um suicídio coletivo".

Para a esmagadora maioria da população, mesmo a que se considera informada, estas palavras parecem caídas de pára-quedas, como se tudo tivesse acontecido tão de repente! Painéis de comentadores televisivos discutem a guerra, a pandemia, orçamento, futebol, os óscares e o diabo a quatro, mas nunca a destruição do nosso belo planeta e como nos prepararemos para o inferno inóspito que o substitui. 

As parangonas dos jornais falam de muitos crimes e muitas eleições, mas os crimes nunca são os ecológicos, e as eleições (quase) nunca oferecem candidatos que tenham alguma intenção de fazer a revolução necessária no nosso modo de vida.

O silêncio é ensurdecedor, é propositado – e é criminoso. É provocado por interesses instalados muito poderosos, seja a indústria do petróleo, dos carros, da aviação, da construção, agrícola, financeira, política, em suma, o capitalismo de consumo que, usando entretenimento e espectáculo, aproveitando a morbidez e a estupidez humanas, desvia as atenções do importante para poder continuar a ganhar muito dinheiro. 

Como se não vivêssemos todos no mesmo planeta! (e na realidade, a elite que assim nos manipula não é afectada pela catástrofe climática da mesma forma que os comuns mortais).

Também temos culpas no cartório, nós os que andamos há anos, décadas, a pregar no deserto. Pensámos que a sociedade não estava preparada para a mudança radical e profunda; achámos que o único caminho era o dos pequenos passos, a consciencialização paulatina seguida dos gestos isolados que, em conjunto com uma excelente dose de pensamento positivo, iriam evitar (mesmo à justa) o apocalipse. 

Cansamo-nos de insistir para que os nossos pais e filhos separem o plástico do papel, e bebam Coca-Cola em palhinhas de bambu... Entretanto, as emissões mundiais de CO2, a deflorestação da Amazónia e o degelo das calotas polares continuam (sim, ainda) a aumentar a cada ano.

Aquilo a que estamos a assistir na Europa é apenas um mero vislumbre, leve e breve, de como poderá ser o futuro próximo. Finalmente deu para assustar? É preciso escolher já, e decididamente, o único caminho que nos poderá salvar: uma revolução ecológica profunda que ataque as causas, sólida e cientificamente provadas, da emergência actual. Todas as outras opções são muito mais dolorosas.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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