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Feliz Período Celebratório Interconfessional!
Opinião Sociedade 3 min. 07.12.2021
Natal

Feliz Período Celebratório Interconfessional!

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Feliz Período Celebratório Interconfessional!

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 07.12.2021
Natal

Feliz Período Celebratório Interconfessional!

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Até agora todo este circo demagógico era uma especialidade americana, mas como sabemos (...) trata-se de uma questão de tempo até que esta tolice seja importada pelos europeus.

Dezembro é um mês tão especial... aquela época do ano em que começa a Guerra ao Natal. O conflito é uma tradição nos Estados Unidos pelo menos desde 2005, ano em que o canal noticioso mais à direita no espectro político – a Fox News – amplificou a publicação de um obscuro livro do obscuro John Gibson: "Guerra ao Natal: como a conspiração esquerdista para acabar com a sagrada celebração cristã é ainda pior do que você pensava".

Avaliando pelo título, o mínimo que se pode dizer é que o livro não procura construir consensos. A sua fama transformou-o imediatamente em tema politicamente explosivo, e os "media alternativos" nunca perderam uma oportunidade de atirar mais lenha para essa fogueira. Todos os anos, os cartões natalícios enviados pelo presidente Obama (que nunca incluíam a palavra "Natal") eram escrutinados e criticados. Ao candidatar-se em 2015, Trump, longe de ser o primeiro Republicano a fazê-lo, também convenceu quem o ouvia nos comícios que a festa cristã estava debaixo de fogo e os Democratas a queriam proibir; quando foi eleito um ano mais tarde, Donald pagou um anúncio na tv onde uma criancinha loura agradecia ao novo presidente "por nos deixar voltar a dizer Feliz Natal".

Até agora todo este circo demagógico era uma especialidade americana, mas como sabemos (...) trata-se de uma questão de tempo até que esta tolice seja importada pelos europeus.

Até agora todo este circo demagógico era uma especialidade americana, mas como sabemos – é tão inevitável como o Halloween, tão previsível como o Starbucks – trata-se de uma questão de tempo até que esta tolice seja importada pelos europeus, sempre desejosos de copiar as piores manias emanadas do outro lado do Atlântico (por outro lado nunca entendi porque é que custa tanto a copiar as melhores manias americanas, como as excelentes universidades, o sentido de comunidade, ou o empreendedorismo – só para referir algumas).

A primeira salva de tiros no teatro europeu desta guerra cultural acaba de ser disparada em Bruxelas, onde a comissária europeia para a Igualdade, a maltesa Dalli, apresentou orgulhosamente o seu "Guia para uma comunicação inclusiva" – para agora cancelar o documento de 30 páginas de forma envergonhada, perante o escárnio geral e a fúria de conservadores e da Igreja.

O texto da Comissão Europeia continha orientações úteis. Algumas delas são tão óbvias que custa a crer que seja ainda necessário repeti-las, como "evitar distinguir entre senhora e senhorita"; outras instruções ali constantes são mais que devidas – como a utilização de linguagem que tenha em consideração as famílias monoparentais e a comunidade LGBTQ+ (não assumir que em todas as casas vivem famílias nucleares convencionais, por exemplo). Mas o guia estava tão mal feito que prestou um péssimo serviço à causa – meritória e até urgente – de pôr as instituições públicas (europeias e não só) a comunicar com todos os seus cidadãos de forma abrangente, e não discriminatória nem ofensiva.

O problema é a quantidade de ideias estapafúrdias (ocorrem-me adjectivos piores mas impublicáveis) espalhadas por aquelas páginas. A medalha de prata vai certamente para a inanidade de substituir a palavra "europeus" por "pessoas vivendo na União Europeia", porque "os albaneses e os bósnios também são europeus e podem não gostar". Isto é só ridículo, mas para encontrar algo realmente ofensivo e atentatório não apenas às raízes da sociedade europeia como também ao bom-senso, basta ler a recomendação "evite mencionar o Natal porque nem toda a gente é cristã; se necessário, utilize 'o período festivo'".

Tenho uma óptima sugestão de frase a utilizar a partir de agora por todos nós, "pessoas vivendo na UE", sempre que quisermos desejar paz, amor e prosperidade àqueles de quem gostamos: Feliz Período Celebratório Interconfessional! Espero que pegue.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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