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Felicidade com filtro sépia
Opinião Sociedade 3 min. 08.04.2021

Felicidade com filtro sépia

Felicidade com filtro sépia

Opinião Sociedade 3 min. 08.04.2021

Felicidade com filtro sépia

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Tenho duas 'selfies' em frente às pirâmides de Gizé por isso não me venham dizer que não sou feliz.

Numa delas, o pináculo da pirâmide está encostado ao meu dedo indicador por milagre óptico, o que me valeu mais de 30 'likes'. Na outra, o João beija a esfinge e eu tenho as olheiras disfarçadas pelo filtro sépia do Instagram. O João é a pessoa que aparece ao meu lado nas 'selfies' e o outro nome que consta na minha declaração de rendimentos que entrego às Finanças.

Recebi no Facebook a seguinte frase: "É sobre miúdas como tu que se escrevem letras de música". Uma mensagem privada de um desconhecido logo depois de eu ter 'postado' a 'selfie' com o João. O sépia nas fotos costuma ter esse efeito porque me dá um ar saudável e atenua as rugas de expressão.

Há uma torneira que pinga cá em casa. Oiço-a perfeitamente. O João tentou arranjar. Só a pôs pior. Quando a abro, apenas corre um fio triste, mas leva a vida a pingar, um remoque no inox do lava-loiças minuto após minuto. Toque, toque, toque. O João diz-me "amo-te" com o mesmo remoque da torneira que pinga. O resto da conversa dele é um fio triste.

Não dei hipóteses ao tipo do Facebook e ele passou a escrever frases de letras de músicas no meu mural. "I want hold your hand"; "you are too good to be true"; "baby one more time". Tipo insistente. As minhas amigas garantem que eu gosto de dar trela, mas não é verdade. E não me venham dizer que não sou feliz. Há um mês postei um sashimi de atum braseado e 'taguei' o João num dos pauzinhos do chinês. Fiz cinco tentativas e a foto ficou quase perfeita. 'Postei-a' quando o João me disse "já posso comer, foda-se"!

Não me venham dizer que não sou feliz. Há duas semanas, comprei um selfie stick e deixámos de ter duplo queixo nas fotos que tiramos ao pôr do sol na Caparica. O João não costuma olhar para o telemóvel nas 'selfies', vê pelo canto do olho a empregada do café da Caparica e diz-me "amo-te" com o remoque triste da toneira que pinga. Também faço 'check-in' em restaurantes pelo menos três vezes por semana e ponho corações nos olhos de bonecos amarelos para atestar o quanto estou apaixonada. Logo, não me venham dizer que não sou feliz.

Há uns dias, o tipo desconhecido do Facebook escreveu no meu mural "Somewhere beyond the sea / somewhere waiting for me / my lover stands on golden sands" e fomos tomar café à beira mar. Tirámos quatro fotografias com o telemóvel a fazer caretas e ele teve de ir para casa a correr porque também tem uma torneira a pingar, toque, toque, toque, no inox do lava-loiças. À despedida disse-me, num fio de voz, "big girls don’t cry" e eu respondi-lhe "I will survive".

Ontem, tirei uma 'selfie' com a torneira que pinga e passeia-a pelo filtro do Instagram. Talvez o tom sépia mude o remoque triste do "amo-te" do João.

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