Escolha as suas informações

Europa cria plano de adaptação urgente ao clima que vem aí
Sociedade 7 min. 25.02.2021 Do nosso arquivo online

Europa cria plano de adaptação urgente ao clima que vem aí

Frans Timmermans

Europa cria plano de adaptação urgente ao clima que vem aí

Frans Timmermans
AFP
Sociedade 7 min. 25.02.2021 Do nosso arquivo online

Europa cria plano de adaptação urgente ao clima que vem aí

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O assunto já não é tabu: o clima está a mudar e é preciso adaptarmo-nos. A Comissão Europeia apresentou estratégia para preparar cidades, pessoas e infraestruturas para um planeta alterado.

Frans Timmermans costuma tornar pessoais os temas mais abstratos. Ontem, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pela pasta do Clima contou que passeou os seus cães num bosque de Bruxelas no meio da neve e de temperaturas gélidas. Os animais surpreenderam um javali a tentar extrair raízes da terra gelada. Uma semana depois, o mesmo bosque, mas com mais 20ºC e os bichos a correram atrás de borboletas. "Os meus cães puderam apreciar o tempo ameno, mas isto não é fácil para a natureza". 

No Luxemburgo passou-se mais ou menos o mesmo, temperaturas da Sibéria a que se seguiu um tempo primaveril. E as mudanças climáticas também afetam profundamente os humanos. Sem que se tenha dado conta, em 2019 morreram 2.500 pessoas na Europa por causa das ondas de calor. Foi o evento mais mortal do ano a nível mundial.

"Falo-vos três dias depois do 21 de fevereiro mais quente desde que há registos em Bruxelas. E isso veio uma semana depois de temperaturas gélidas", disse Timmermans no arranque da apresentação quarta-feira, dia 24, da nova Estratégia Europeia de Adaptação às Alterações Climáticas. "Durante muito tempo não falámos de adaptação porque era como admitir derrota na sequência de um desastre climático. Mas este assunto hoje já não é tabu. Temos que ter uma estratégia de adaptação e é por isso que a apresentamos hoje". 

A estratégia segue a ideia, inscrita no documento, de que sendo as pessoas, o planeta e a prosperidade vulneráveis às alterações climáticas "precisamos de prevenir o inadaptável e adaptarmo-nos para o imprevisível".

Evitar o Mad Max em 2050

A União Europeia está prestes a tornar lei o objetivo de parar todas as emissões de gases com efeito de estufa em 2050, para manter o planeta num aumento de temperatura compatível com a vida humana. E tem um projeto genérico para lá chegar: o Pacto Ecológico Europeu. Mas é cada vez mais evidente que só esse objetivo de travar a subida catastrófica da temperatura não chega. 

Já estamos a viver as alterações climáticas e a situação da tempestade de neve de proporções históricas que provocou o colapso energético no Texas é um exemplo recente entre muitos dos que virão.

"Mesmo se eliminássemos todos os gases com efeito de estufa amanhã, ainda estaríamos nas próximas décadas perante os efeitos das emissões passadas", avalia Timmermans. Só o valor do dióxido de carbono - o gás com efeito de estufa mais abundante e com um efeito cumulativo maior- na atmosfera é atualmente de 417 partes por milhão (ppm), o nível mais alto dos últimos 3 milhões de anos.

Quanto mais a crise climática progredir maior serão as lutas por água potável, numa Europa que poderá estar em parte em risco de ver grandes zonas costeiras submersas: "Se não atuarmos já, um cenário do filme Mad Max não será ficcional para os nossos filhos em 2050", alertou o comissário holandês.

As soluções para lutar contra um mundo em mudança acelerada são muitas, mas é preciso reduzir o intervalo entre planear e fazer. A atual proposta da Comissão é uma revisão da estratégia de 2013 e tem como objetivo passar de "compreender o problema" ao "desenvolvimento de soluções" e "passar do planeamento à implementação".

A pandemia da covid-19 mostrou que a falta de preparação é catastrófica e que, neste momento, não há tempo a perder. Por isso, disse Timmermans, "temos que nos adaptar e ao mesmo tempo recuperar a natureza, para que as florestas, as zonas húmidas funcionem como reservatórios de carbono. Temos que tornar as nossas cidades mais verdes e interligadas com a natureza para suportarem o calor e resistirem a fenómenos meteorológicos como tempestades muito mais intensas". 

E é urgente defender as nascentes de água e os rios para garantir o fornecimento de água potável às populações. E construir infraestruturas mais resistentes aos fenómenos extremos e à subida inevitável do nível do mar.

Adaptação mais inteligente, mais ágil e mais sistémica

O objetivo da estratégia proposta é fazer uma adaptação mais rápida, mais inteligente e mais sistémica, recorrendo também ao conhecimento internacional. "Podemos aprender muito com países como o Bangladesh ou os Estados das ilhas do Pacífico que já estão a sofrer os piores impactos e a adaptar-se". O aspeto internacional não existia na proposta da Comissão de 2013.

Na questão de pôr fim às emissões de gases com efeito de estufa para cumprir o Acordo de Paris, a Europa está bem colocada. É responsável por 8 a 9% de emissões globais, o que avaliou Timmermans como "fantástico para quem tem a ambição de chegar a zero em 2050". Mas sozinha não vai longe. "Se o resto do mundo não nos acompanhar não atingiremos o objetivo", recordou este responsável da Comissão. Também na adaptação ao novo planeta, a diplomacia e as relações com parceiros internacionais é igualmente vista como premente.

O projeto de adaptação inclui trabalhar com parceiros como os da bacia do Mediterrâneo – os países em maior perigo de desertificação – para partilhar soluções e criar rede de solidariedade. E por outro lado, trabalhar a um nível muito local e regional, onde as estratégias vão ver a luz do dia no terreno. "Estou muito ansioso por começar as autoridades locais e regionais", disse Timmermans.

O incentivo a uma maior recolha e partilha de dados a todos os níveis é outra das iniciativas: "De forma a que possamos proteger colheitas antecipando eventos meteorológicos, ou poder saber os locais seguros para uma família comprar casa, por exemplo". Da parte das infraestruturas, é preciso construir "equipamentos mais resilientes para um planeta alterado", e vai ainda ser criado um Observatório de Saúde Climática para avaliar a conexão entre a disrupção do clima e os efeitos na saúde humana.

O Banco Europeu de Investimentos vai ser chamado a promover o investimento nestas estruturas adaptadas a uma meteorologia mais inclemente. E cada uma das políticas sectoriais a nível europeu terá que ter em conta a evolução do clima nos próximos anos. "Disse hoje aos colegas do colégio de comissários que todos vão ter que ter a noção de adaptação em todas as políticas que propuserem".

Climate- ADAPT, a autoridade na matéria 

De acordo com a nova proposta da Comissão, a Climate-ADAPT será a plataforma de divulgação das soluções e está dirigida a cidadãos, governos locais e todas as partes interessadas. Resultando de uma parceria entre a Comissão Europeia e a Agência Europeia de Ambiente, a Climate-ADAPT "promove o acesso a dados fidedignos sobre o impacto das alterações climáticas, os aspetos socioeconómicos e os custos e benefícios das soluções de adaptação", lê-se no documento de apresentação da nova estratégia. 

Será o Climate-ADAPT o local onde ficará alojado o Observatório Europeu de Clima e Saúde, uma estrutura que vai servir para avaliar os riscos que as alterações climáticas colocam à saúde humana e para preparar estratégias de prevenção e mitigação.

A Comissão prevê ainda que os fundos estruturais estejam disponíveis para adaptação e igualmente os fundos da Política Agrícola Comum (PAC), do programa LIFE e do recém-aprovado Mecanismo de Recuperação e Resiliência (dos quais 37% são destinados à ação climática). Além destes, existe o Missão Europeia para a Adaptação à Alterações Climáticas do programa Horizon. E para apoiar as autoridades locais e regionais “a passar dos planos à ação” a Comissão irá criar um mecanismo de apoio através do Comité de presidentes de câmara EU Convenant of Mayors.

A proposta da Comissão é também uma chamada à intervenção de todos: "A nossa ação de adaptação às alterações climáticas deve envolver toda a sociedade civil e todos os níveis de governança dentro e fora da União Europeia. Vamos trabalhar para construir uma sociedade mais resiliente, aumentando o conhecimento dos impactos e das soluções. E aumentar o planeamento e a avaliação de riscos; acelerar medidas de adaptação e ajudar a fortalecer a resiliência às alterações climáticas globalmente".

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Num discurso do Estado da União apoiado pela maioria dos eurodeputados, a presidente da Comissão Europeia prometeu esperança: saída da crise, mais ambição climática, rever a política de migração, garantir a luta contra o racismo e discriminação e criar emprego.