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Eu, político, homem como vós
Opinião Sociedade 3 min. 29.04.2021

Eu, político, homem como vós

Eu, político, homem como vós

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 3 min. 29.04.2021

Eu, político, homem como vós

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Ninguém confiaria o destino do país ao António José do 6ºB, que percebe de canos, passeia a cadela antes e ir para o trabalho, faz caril de gambas com a receita da mãe e deixa o carro a ocupar dois lugares na praceta, impedindo o acesso à garagem.

Há umas décadas houve um ministro que foi proibido pelo chefe de governo de percorrer a marginal em direcção ao Palácio Penafiel na rua de S. Mamede ao Caldas na sua moto de alta cilindrada. Não era uma lambreta de voltinhas ou máquina que envergonhasse qualquer executivo de contas sãs, com chancela alemã e duplo tubo de escape. Nem consta que fizesse ruído suficiente para afugentar os pavões de São Bento e obstruísse a nidificação das aves. Ainda assim, o primeiro-ministro não foi na argumentação do ministro-motard. Mota que presenciou a concentração de Faro não era digna de transportar um membro do governo e o ministro tirou o capacete, poliu os sapatos e acomodou-se no banco de trás, junto aos jornais do dia, sendo guiado pelo motorista.

Naquele executivo não havia tratamento por tu ou atrasos a conselhos de ministros, só faltava pôr orelhas de burro a quem chegasse depois da hora por muito que tentasse entrar na reunião sorrateiramente. Qual protocolo? Era a disciplina paternal que imperava, aquela que exige um pedido de licença no final da refeição para abandonar o prato. No país, ligavam-se cidades, encostavam-se barcos e arados, aplanava-se asfalto de auto-estradas e nas bermas das vias rápidas ou nas estações de serviço, entre visitas oficiais ou em finais de estio – rumando a norte e aos afazeres executivos em Lisboa –, o carro oficial do primeiro-ministro parava para uma merenda de confortar o estômago. Perto de eucaliptos ou de pinheiros - o motorista sabia o gosto do chefe de governo pelo cheiro a árvores -, trincavam sandes de ovo ou de presunto serrano. 

O primeiro-ministro, os seguranças, o motorista e quem mais viesse. Os piqueniques oficiais de beira de estrada nunca foram fotografados para as revistas cor-de-rosa e consta que se mantêm até hoje. Inabilidade na gestão do marketing político? Na certa, não. Há umas décadas ninguém queria um primeiro-ministro terreno, um chefe de governo vizinho do lado, que andasse de chinelo e comprasse febras para grelhar, que tivesse dores de barriga, enxaquecas e que também apanhasse piolhos da miudagem. Ninguém confiaria o destino do país ao António José do 6ºB, que percebe de canos, passeia a cadela antes e ir para o trabalho, faz caril de gambas com a receita da mãe e deixa o carro a ocupar dois lugares na praceta, impedindo o acesso à garagem.

Já hoje, pratica-se a humanidade dos políticos, que se esforçam por nivelar os hábitos ao gosto do cidadão. Aos votantes dão tema de conversa nos cafés – quem não avaliou o calção de praia dos parlamentares atire a primeira pedra – na esperança de, ao primeiro erro, contarem com a boa camaradagem dos vizinhos que lhes tocam à campainha e lhes pedem bem-dispostos para estacionaram o carro direito no parqueamento.


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