Escolha as suas informações

Estudo sobre a imigração no Luxemburgo em 1975: Portugal e Luxemburgo travaram chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado nos anos 70
Sociedade 5 min. 18.03.2015 Do nosso arquivo online

Estudo sobre a imigração no Luxemburgo em 1975: Portugal e Luxemburgo travaram chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado nos anos 70

Estudo sobre a imigração no Luxemburgo em 1975: Portugal e Luxemburgo travaram chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado nos anos 70

Sociedade 5 min. 18.03.2015 Do nosso arquivo online

Estudo sobre a imigração no Luxemburgo em 1975: Portugal e Luxemburgo travaram chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado nos anos 70

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Um acordo firmado em 1973 entre o Governo luxemburguês e o ministro português dos Negócios Estrangeiros da altura, Rui d’Espiney Patrício, teria resultado num abrandamento da chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado em 1974. Esta é uma das conclusões de um estudo de 1975 sobre a imigração no Luxemburgo, dirigido pelo investigador português Albano Cordeiro.

Um acordo firmado em 1973 entre o Governo luxemburguês e o ministro português dos Negócios Estrangeiros da altura, Rui d’Espiney Patrício, teria resultado num abrandamento da chegada de cabo-verdianos ao Grão-Ducado em 1974. Esta é uma das conclusões de um estudo de 1975 sobre a imigração no Luxemburgo, dirigido pelo investigador português Albano Cordeiro.

“O ministro português dos Negócios Estrangeiros visitou o Grão-Ducado em 1973. Desse contacto entre o Governo do Luxemburgo e o ministro fascista português teria resultado um acordo sobre o abrandamento da chegada de cabo-verdianos que se verificou em 1973, e que em 1974 levou à paragem destas chegadas”, diz o estudo, focado essencialmente no ano de 1975.

O estudo, “Imigração – Luxemburgo 1975, aspectos económicos, históricos e sociais”, foi editado em Janeiro de 1976 e foi coordenado por Albano Cordeiro, sociólogo português radicado em França e especialista em questões identitárias e migratórias, contando ainda a colaboração de António Alvarenga, Ben Faber, Nicole Hoffmann e Marianne Stoffel.

O capítulo sobre a imigração cabo-verdiana começa por abordar o histórico e as estimativas quantitativas da imigração daquela comunidade, referindo que o primeiro cabo-verdiano teria chegado ao Luxemburgo em 1960. Nove anos depois, começaria a primeira grande vaga de imigrantes cabo-verdianos.

“A partir de 1969 constata-se um claro aumento das chegadas. Esta é a vaga que constitui a maior parte da população cabo-verdiana actualmente residente no Luxemburgo”, cita o documento de 1975. O estudo acrescenta que depois da visita do ministro português dos Negócios Estrangeiros ao Luxemburgo, em 1973, a imigração cabo-verdiana iria ser travada, precisamente no ano em que houve “a mais forte vaga de racismo contra os cabo-verdianos, devido às dificuldades de alojamento e de emprego”.

Os cabo-verdianos chegaram ao Luxemburgo integrados na comunidade portuguesa.
Os cabo-verdianos chegaram ao Luxemburgo integrados na comunidade portuguesa.
Foto: Arquivo LW

“A partir de 1974, apenas foram registadas chegadas de crianças. Esta situação não mudou [em 1975] e a independência das ilhas de Cabo Verde não favorecerá a mudança de política”, acrescentavam os autores do estudo.

Com o travão à imigração cabo-verdiana, a população originária do arquipélago residente no Grão-Ducado rondava em 1975 as “mil pessoas”, incluindo “150 a 200 crianças”. Os trabalhadores eram “cerca de 750”, quase todos funcionários da Construção Civil e Trabalhos Públicos. Apenas 2,5% trabalhavam em fábricas (Arbed, Dupont de Nemours e empresas de electrónica, entre outras).

Quanto à composição familiar, tal como os portugueses, a grande maioria de cabo-verdianos tinha deixado a mulher e os filhos na terra-natal. “O número de famílias completas é à volta de 50 [...] e estão distribuídas entre a cidade do Luxemburgo, Esch-sur-Alzette e Ettelbruck”, contabilizava o estudo.

O “SALTO” PARA O LUXEMBURGO

Até à independência do país, a 5 de Julho de 1975, os cabo-verdianos eram no papel portugueses e o percurso migratório para o Luxemburgo era quase idêntico entre as duas comunidades.

A maioria dos cabo-verdianos, chegados numa primeira fase à capital portuguesa, “onde tinham uma primeira experiência migratória nas obras de Lisboa”, vinham para o Luxemburgo seguindo o habitual trajecto dos trabalhadores portugueses.

Outros, porém, chegavam de França e da Holanda, sobretudo da cidade portuária de Roterdão, que tem uma das comunidades mais representativas da diáspora do arquipélago.

Os que partiam de Lisboa, vinham com um passaporte desde Cabo Verde ou tinham de solicitar um passaporte na capital portuguesa, o que poderia implicar “uma espera de mais de dois meses”.

Caso os candidatos à emigração estivessem com problemas de dinheiro e quisessem continuar a viagem, deviam recorrer a um “passador”. “O preço do ’salto’ podia chegar aos 10 mil escudos [...] mas foram poucos os que vieram de Portugal por este sistema. Eles vieram quase todos ’por conta própria’ ou ’com contrato’”, refere o estudo de 1975.

Da esquerda para a direita: António Varela, Alcides Lopes, Luísa Gomes, José Neves e António Moura.Os cinco idosos cabo-verdianos trabalharam no Luxemburgo e agora residem em Cabo Verde.
Da esquerda para a direita: António Varela, Alcides Lopes, Luísa Gomes, José Neves e António Moura.Os cinco idosos cabo-verdianos trabalharam no Luxemburgo e agora residem em Cabo Verde.
Foto: Henrique de Burgo

RACISMO TORNAVA DIFÍCIL ENCONTRAR CASA

Ultrapassado o problema da viagem, os cabo-verdianos deparavam-se no terreno com outros obstáculos. A maioria tinha família, e trazer a mulher e os filhos não era tarefa fácil.

“As disposições regulamentares sobre o reagrupamento familiar dos trabalhadores imigrados no Luxemburgo são elaboradas de tal forma que o efeito é de abrandamento de entrada das famílias destes trabalhadores”, constatou o grupo de pesquisadores coordenado por Albano Cordeiro.

Ter um “emprego estável” e um “alojamento capaz” eram as duas condições básicas para se conseguir o reagrupamento familiar.

Quanto ao “alojamento capaz”, o preço podia chegar a rondar a metade do salário na altura, seis mil francos. Ao problema das despesas com a habitação acrescia “conseguir o acordo do proprietário para a assinatura de um contrato, que em definitivo pode ser recusado logo no primeiro contacto por causa de preconceitos racistas do proprietário ou de vizinhos, que podem exercer pressões sobre o proprietário”, relata o trabalho do sociólogo português.

O estudo denuncia um “racismo anti-português generalizado”, com os cabo-verdianos “apanhados no mesmo saco pelo facto de certos luxemburgueses e não-luxemburgueses assimilarem portugueses e cabo-verdianos”.

Mas os problemas que dificultavam o reagrupamento familiar não paravam por aqui. Havia ainda que contar com as despesas da viagem da mulher e dos filhos vindos de Cabo Verde, que tinham de passar obrigatoriamente por Lisboa, onde estava o Consulado do Luxemburgo. A espera do visto poderia durar semanas, o que implicava mais despesas para cobrir a estadia em Lisboa.

Contas feitas, “o custo total podia chegar a 50 mil francos luxemburgueses”, um valor dificilmente suportado pelo trabalhador que, a par das exigências do “alojamento capaz”, tinha ainda as dívidas contraídas para chegar ao Luxemburgo.

Imagem de uma família cabo-verdiana, da primeira-geração no Grão-Ducado.
Imagem de uma família cabo-verdiana, da primeira-geração no Grão-Ducado.
Foto: Arquivo LW

CONTACTOS SOCIAIS LIMITADOS

Quanto à adaptação e integração na sociedade luxemburguesa, segundo o estudo, os contactos dos cabo-verdianos em 1975 resumiam-se “ao patrão, ao polícia, ao comerciante, ao funcionário e ao proprietário do alojamento ou ao seu intermediário”.

A aprendizagem da língua francesa fazia-se nas obras ou em alguns cafés. Havia também cursos organizados por um padre luxemburguês. Os cabo-verdianos frequentavam esses cursos, mas depois de um pesado dia de trabalho, o aproveitamento não era o melhor.

Sobre a relação dos cabo-verdianos com as autoridades consulares portuguesas, o estudo conclui que não “eram mais do que administrativas”, tendo sido os cabo-verdianos “também vítimas da exploração ’dos papéis’ do antigo consulado”.



Notícias relacionadas

Os portugueses na ficção luxemburguesa
A presença dos portugueses no Luxemburgo também deixou marcas na ficção. De personagens secundárias a protagonistas de romances policiais, os portugueses vão conquistando páginas nos livros luxemburgueses. Uma evolução que reflecte a realidade da imigração no país, garante o director do Centro Nacional de Literatura.
“O Luxemburgo sofreu um processo de lusificação”, diz investigadora
A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz estuda a emigração portuguesa para o Luxemburgo desde 2003. A viver entre Lisboa e o Grão-Ducado, a geógrafa, de 35 anos, é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. Diz que o Luxemburgo se “lusificou” e que a emigração portuguesa levou à criação de um “espaço transnacional” que podia servir de modelo para uma Europa sem fronteiras.
Editorial: Que idade tem a comunidade portuguesa?
O CONTACTO festeja este ano o seu 45° aniversário. O jornal foi fundado em Janeiro de 1970, para informar a comunidade portuguesa no Luxemburgo. Ao comemorarmos esta data, surgiu-nos uma questão natural. Em que ano exacto situar o início da emigração portuguesa para o Luxemburgo?
Em Junho de 1965 uma missa na catedral do Luxemburgo juntou meio milhar de portugueses para celebrar pela primeira vez o Dia de Portugal no Grão-Ducado.
Depois disso houve um almoço eu ma festa. Foi o primeiro evento organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado de que há registo