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Estudo quer usar a voz para detetar covid-19. E uma das línguas é o português
Sociedade 5 min. 26.11.2020

Estudo quer usar a voz para detetar covid-19. E uma das línguas é o português

Estudo quer usar a voz para detetar covid-19. E uma das línguas é o português

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 26.11.2020

Estudo quer usar a voz para detetar covid-19. E uma das línguas é o português

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Testes podem ser realizados online por qualquer pessoa, "quer tenha ou não covid-19". Objetivo é criar uma aplicação que vai permitir calcular a probabilidade de alguém estar infetado com a doença.

Uma equipa de cinco investigadores do Luxembourg Institute of Science and Technology (LIST), da Universidade do Luxemburgo e do Luxembourg Institute of Health (LIH) estão a recolher amostras de voz e tosse de participantes para criar um algoritmo que ajude a detetar a covid-19. Uma das línguas do estudo é o português.

Os testes podem ser realizados por qualquer pessoa, "quer tenha ou não covid-19. No futuro, "uma aplicação poderá calcular a probabilidade de alguém estar infetado com a doença", começa por explicar Muhannad Ismael, líder do estudo e investigador do LIST em inteligência artificial. Através de um inquérito disponível online os participantes realizam cinco exercícios onde gravam a voz. "Por exemplo, num deles é pedido que os participantes tussam por três vezes, noutro é-lhes pedido que digam a vogal 'a' durante uns segundos e sem interrupção", enumera Vladimir Despotovic, investigador e docente na Universidade do Luxemburgo.

“Normalmente um paciente saudável deve conseguir pronunciar por algum tempo sem grande variabilidade na voz. E nós assumimos que uma pessoa com covid-19 não vai conseguir segurar a voz ininterruptamente", considera Vladimir. Outro dos exercícios é "inspirar e expirar por três vezes".

"Do mesmo modo que o médico nos pede para abrir a boca e dizer "a", durante algum tempo para analisar a garganta, fazemos este exercício semelhante no nosso questionário", refere por, sua vez, Muhannad. A juntar a estes passos, o inquérito – disponível em português - tem também uma componente de linguagem onde "é pedido aos participantes para contar até 20 ou ler uma frase na sua língua nativa". Para já o estudo está limitado a seis línguas - português, luxemburguês, francês, alemão, inglês e espanhol. E mais línguas podem vir a ser acrescentadas mais à frente, acrescentam os autores.

"Assinatura acústica"

Depois de recolhidos, os sons servirão para criar um algoritmo que ajude a detetar a probabilidade de alguém estar infetado mediante uma análise de certas características na voz, antecipa Vladimir. Este algoritmo criado pelos cientistas vai depois encontrar padrões nos dados e classificá-los, "usando características que não são identificáveis pelo ouvido humano, que formam a assinatura acústica de cada um". "Como o timbre, frequência, acentuação, entoação da voz, amplitude, etc.", especifica.

Através da técnica de 'machine learning', em que um computador está constantemente a ser alimentado e 'treinado' por estes dados, o cálculo "será tanto mais preciso quantos mais amostras conseguirmos reunir", explica Vladimir Despotovic. "Precisamos de ter milhares de amostras para termos estimativas fiáveis, vamos precisar de algum tempo até ter algo fiável", admite o investigador.

Com o relógio a contar e a doença a não dar tréguas, uma aplicação como esta poderá ajudar os sistemas de saúde ao mesmo tempo que a vacina demorará algum tempo a chegar a toda a população. Não há um número de mínimo de participantes para o modelo ser fiável, mas "no uso de machine learning, quanto mais melhor", assenta o investigador da Universidade, apelando à participação. Muhannad acrescenta que a qualidade dos dados também é "fulcral".

"Pré-diagnóstico poderia ajudar serviços de saúde"

Apesar de insistir na ideia de que a futura aplicação "não substitui os testes de diagnóstico (PCR)" a equipa acredita na mais-valia do projeto para oa sistemas de triagem da saúde por exemplo, nos serviços de emergência ou urgências hospitalares. Uma espécie de "pre-diagnóstico", antecipam.

"Não esperamos criar algo comparável aos testes de diagnóstico da doença. Esperamos poder aplicá-la por exemplo em situações em que as pessoas possam fazer o teste em casa, sem a presença do médico, em que uma aplicação poderia dar uma estimativa de infeção ou não. "E aí se a pessoa estiver em dúvida poderá então procurar um médico", projeta Muhannad. Os aeroportos poderão ser outra possibilidade.

E poderia resultar não apenas com a covid-19 mas com outras doenças do foro respiratório, acredita Vladimir. A única desvantagem nestes casos é a necessidade de proteger bem os direitos dos pacientes, "no que respeita por exemplo a gravar estas chamadas". "Não recolhemos nenhum dado que poderia identificar a pessoa, com exceção para a voz. Percebemos a importância da proteção dos dados. E o nosso estudo respeita todas estas questões legais", reitera, por sua vez, Vladimir Despotovic.

Estudo distintivo dos de Cambridge ou MIT

A ideia de um algoritmo que ajude a detetar doenças através da voz não é nova. Outros estudos têm vindo a desenvolver aplicações semelhantes para tentar detetar "alguns cancros ou mesmo asma. E nós tentamos usar esta mesma ideia base e aplicá-la à covid-19", explica Muhannad.

E mesmo no caso do mais recente coronavírus, o estudo já tem concorrentes. A Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e o Massachussets Institute of Technology (MIT), nos EUA, estão a desenvolver, cada um, estudos semelhantes. Mas em ambos os casos, segundo o especialista em inteligência artificial não estão a dar a devida atenção aos dados dos participantes ao abrigo do Regulamento Geral da Proteção de Dados (GDPR, na sigla inglesa), em vigor na UE desde 2018.

"Estamos a trabalhar com 'dados responsáveis' e tentamos proteger e respeitar o GDPR seja qual for a nacionalidade dos participantes", salienta. "Para isso certificamo-nos que os dados ficam armazenados no Luxemburgo, por exemplo".

Aliás, aspetos como este fizeram com que o projeto sofresse alguns atrasos. "A proposta inicial foi feita em maio mas só em novembro estamos a começar a recolha de dados", assenta o Muhannad. Ao mesmo tempo, tanto o MIT como Cambridge estão apenas a trabalhar com dados, "não existe uma aplicação com precisão elevada e validação dos sistemas de saúde", algo que o projeto do Luxemburgo ambiciona.

Além do envolvimento do LIST, LIH e da Universidade do Luxemburgo, a iniciativa é ainda financiada pelo Fundo de Investigação Nacional luxemburguês. A recolha de dados dos participantes arrancou a 9 de novembro e a equipa estima ter os primeiros dados preliminares em abril do próximo ano.

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