Escolha as suas informações

Estudo investiga papel dos pais no sucesso escolar das crianças portuguesas
Sociedade 4 min. 02.05.2018 Do nosso arquivo online

Estudo investiga papel dos pais no sucesso escolar das crianças portuguesas

Estudo investiga papel dos pais no sucesso escolar das crianças portuguesas

Foto: Schutterskotk
Sociedade 4 min. 02.05.2018 Do nosso arquivo online

Estudo investiga papel dos pais no sucesso escolar das crianças portuguesas

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Antes mesmo de chegarem à escola, as crianças de meios sócio-económicos mais baixos partem com atrasos na linguagem que podem condicionar o seu sucesso escolar. O fenómeno não é novo, mas esta é primeira vez que vai ser estudado pela Universidade do Luxemburgo com crianças portuguesas.

A Universidade do Luxemburgo vai iniciar um estudo sobre a influência das famílias no desenvolvimento das crianças lusófonas, um projeto que vai envolver 70 crianças portuguesas, com idades entre os dois e os três anos. O objetivo é investigar o impacto dos pais no desenvolvimento da língua materna e na aprendizagem de outras línguas, como o luxemburguês.

“Estas idades [dois a três anos] são cruciais para o desenvolvimento da linguagem, e complementam outros estudos que estamos a fazer com crianças mais velhas, para termos uma imagem global desta população”, explica Ariana Ferreira Loff, doutorada em Psicologia, que lidera a equipa de investigadores. O projeto baseia-se “em alguns estudos sobre o ambiente em casa que mostram que as práticas literárias – contar histórias, ter livros em casa – são um grande preditor do sucesso escolar”. Essas práticas também dependem do estatuto sócio-económico das famílias, explica Ariana Loff. Factores como “a educação dos pais, os estímulos que as crianças têm, a falta de oportunidades” condicionam o desenvolvimento da linguagem antes mesmo de as crianças chegarem à escola, e podem determinar o seu sucesso escolar.

A ideia não é nova. Em 1995, os investigadores norte-americanos Betty Hart e Todd Risley publicaram um estudo pioneiro com 42 famílias da cidade do Kansas que comparava crianças em idade pré-escolar de meios sócio-económicos diferentes. De um lado, famílias ricas; do outro, com baixos rendimentos. Os investigadores acompanharam as crianças desde os nove meses de idade, durante um período de dois anos e meio, registando a interação com os pais e o número de palavras usadas, em encontros mensais com a duração de uma hora.

As conclusões revelaram um contraste flagrante entre ricos e pobres. Com apenas três anos, as crianças de meios desfavorecidos tinham ouvido menos 30 milhões de palavras que os seus pares mais abastados. Os investigadores também concluíram que o número de palavras que uma criança ouve até aos três anos de idade permite prever com grande exatidão o sucesso escolar que terá aos nove, revelando o enorme impacto das disparidades sociais. O estudo apontava ainda diferenças na qualidade da interação entre pais e filhos: nas famílias ricas, as palavras encorajadoras superavam várias vezes as críticas negativas, enquanto nas famílias pobres sucedia o contrário.

Língua materna tem papel importante

Para as crianças portuguesas no Luxemburgo, com uma língua materna diferente dos idiomas falados na escola, as coisas complicam-se ainda mais. “Poucos estudos exploraram estes factores de risco e as suas interações no caso de crianças que falam uma língua minoritária”, explica o resumo do projeto. Estudos anteriores com crianças portuguesas no Grão-Ducado mostraram que o reforço da língua materna pode ter um papel determinante na aprendizagem de outros idiomas e no sucesso escolar, aponta Ariana Loff. A investigadora integra aliás outro estudo em curso na Universidade do Luxemburgo, o projeto Polilux, que tem estado a acompanhar crianças portuguesas de quatro anos no ensino pré-escolar. Aí, os menores frequentam sessões de 20 minutos em português, ouvindo histórias ou fazendo jogos na língua materna, uma a duas vezes por semana. “Os resultados do Polilux vão sair brevemente, em princípio no verão, e são muito promissores: já mostram que é importante uma base forte da língua materna para a aprendizagem de outras línguas”, adianta a investigadora.

O novo estudo, batizado OLAP (“Oral Language Development in Portuguese”), vai desta vez focar-se em crianças entre os dois e os três anos. A equipa de investigadores quer acompanhá-los durante dois anos e meio, com uma entrevista às crianças e respetivas famílias de dez em dez meses. A condição para participar no projeto é que falem português em casa, podendo incluir, além de portugueses, também cabo-verdianos ou brasileiros, precisa a investigadora, que apela à participação dos pais para conseguir um grupo de 70 crianças. “Ainda nos faltam 30 a 40 pessoas, mas os pais têm-se mostrado muito interessados, o que mostra a preocupação com a educação dos filhos e o interesse em que falem português de forma sólida”.

O objetivo é o mesmo de estudos anteriores: combater o insucesso escolar dos filhos de imigrantes. “Sabemos que as crianças portuguesas têm dificuldades quando vão para a escola e que os pais têm um papel importante, e queremos poder ajudá-los”, diz Ariana Loff. Para a investigadora portuguesa, o projeto pode aliás influenciar “as políticas educativas do Luxemburgo para ajudar estas crianças”, como já aconteceu com os estudos sobre a importância da língua materna.

O projeto de investigação conta com a colaboração das Universidades de Oxford e de Harvard e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e recebeu um financiamento de 440 mil euros da Fundação Nacional de Investigação do Luxemburgo (FNR, na sigla em francês).

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

A Escola Internacional de Differdange (EIDD) começa a funcionar na segunda-feira, dia 12 de Setembro. Os alunos das primeiras nove turmas chegam este mês e, gradualmente, virão os restantes 1.400 até 2018, ano em que a escola deverá estar definitivamente concluída. Para este primeiro ano lectivo foram contratados 18 professores.
Os portugueses são a segunda nacionalidade mais representada na nova escola, com 25 alunos entre os 110 inscritos. Apesar disso, por falta de interesse na língua portuguesa, a escola arranca sem aulas de português no primário
Descurar a língua materna pode prejudicar o sucesso escolar, mas também originar patologias que obrigam as crianças portuguesas no Luxemburgo a frequentar terapeutas da fala. Metade dos portugueses que passam pelo consultório da ortofonista Ângela Ferreira sofrem de atrasos na linguagem: têm um vocabulário tão pobre que não conseguem nomear as frutas mais conhecidas ou contar o que fizeram durante o dia.