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Este texto foi escrito por um humano
Editorial Sociedade 4 min. 05.04.2019

Este texto foi escrito por um humano

Este texto foi escrito por um humano

Foto:DR
Editorial Sociedade 4 min. 05.04.2019

Este texto foi escrito por um humano

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
“A Inteligência Artificial já consegue escrever textos virtualmente indistinguíveis de algo escrito por mão humana.”

E o da próxima semana também será. Mas o melhor é não oferecer garantias além disso: primeiro os robots substituíram os operários que fabricam os nossos carros, agora já nos vão substituindo ao volante; também já regulam grande parte do tráfego aéreo, auxiliam os médicos a chegar a um diagnóstico e os bancos a gerirem os seus fundos de pensões. Há mais de duas décadas que há robots-assistentes domésticos, e também há um “campeonato do mundo de futebol” exclusivamente jogado por máquinas de diversas formas e feitios. Agora os robots, ou para ser mais preciso a Inteligência Artificial (IA), está a dar os seus primeiros passos em atividades mais “intrinsecamente humanas”, mais “criativas”. Como pintar – ou escrever.

A cada ano a IA vai evoluindo, aprendendo, ganhando terreno, aumentando a produtividade e libertando-nos a nós, humanos, de tarefas repetitivas ou demasiado pesadas. Ao mesmo tempo, essas tarefas vão eliminando empregos a uma velocidade estonteante: o Fórum Económico Mundial calcula que, daqui a menos de uma década, as máquinas se encarregarão de 52% (ou seja mais de metade) da carga de trabalho total da Humanidade. Claro que o desafio de usar os restantes 48% (e com tendência a diminuir) para criar empregos para a população mundial (sempre crescente) é titânico, e não estamos à altura dele.

As máquinas também já entraram nas redações dos media, e algum software é já usado pelas agências de notícias para os textos com maior componente de dados estatísticos (como relatórios da bolsa, ou alguns desportos). Alguns media têm geradores automáticos de notícias sobre terramotos; outros programas de escrita automática analisam padrões ou variações em conjuntos de dados, por exemplo as intervenções policiais em cada cidade. A agência austríaca de notícias vai experimentar cobrir as eleições europeias de maio com recurso a um computador que vai analisando os resultados constantemente, e sem intervenção humana. Em comum, estes textos produzidos pela máquina têm o facto de se regerem por números e seguirem uma fórmula estilística rígida e pré-determinada. Ou seja…

… por enquanto, os empregos de quem escreve nestas páginas parecem razoavelmente seguros; os computadores ainda estão longe da capacidade de debitar uma narrativa escorreita e coerente, com personalidade e vivaz, sem falhas de lógica, sem erros gramaticais e que simultaneamente proporcione um alto nível de análise. Mas estão mesmo?

OpenAI é uma organização sem fins lucrativos criada por Elon Musk, o polémico CEO da marca de carros elétricos Tesla. O senhor Musk já encheu o mundo de avisos exagerados sobre o perigo que representa o avanço das máquinas – a que já chamou, entre outros mimos, “a maior ameaça à nossa existência”, ou ainda “invocar o demónio”. Essas palavras apocalípticas tornaram-se bastante mais credíveis agora que esta sua companhia se recusou a difundir para uso público o GPT2 – este robot criador de texto é tão bom que os seus próprios criadores têm receio das utilizações que pessoas mal-intencionadas possam vir a fazer deste Frankenstein tecnológico.

O GPT2 tem na sua memória uma base de dados gigantesca de mais de dez milhões de artigos. Graças a eles, a Inteligência Artificial consegue escrever qualquer tipo de prosa (ou mesmo poesia) e os seus textos, apesar de gerados por uma máquina, são virtualmente indistinguíveis de um texto escrito por mão humana. No que é ainda mais assustador, o computador sabe criar novos textos baseados em informação que soa plausível mas é inventada, incluindo declarações que nunca foram proferidas, e tudo isto seguindo o estilo de escrita de alguém específico (pode escrever, por exemplo, esta coluna de opinião como se fosse eu a fazê-lo: parágrafos intermináveis e uma enorme preocupação com o estado atual do mundo).

Chega a ser difícil imaginar a magnitude dos danos que algo assim pode causar. As fake news tornar-se-ão a norma e ninguém mais poderá acreditar em qualquer notícia. As teorias da conspiração e o discurso do ódio monopolizarão o espaço público. O computador poderá gerar infinitamente falsas críticas positivas (ou negativas) a qualquer produto, hotel ou restaurante. E quem diz restaurante, diz presidente; a democracia sem confiança na informação simplesmente não existe. A espiral mortífera nem sequer terminaria numa qualquer ditadura totalitária, já que as máquinas, sem rédea, tornar-se-ão cada vez mais inteligentes até descobrirem por si próprias a forma de tomar o poder e, quem sabe, declarar a espécie humana como algo fraco e dispensável.

Pelo menos, resta o consolo de saber que o GPT2 é capaz de escrever realmente bem. Enquanto descemos em direção ao apocalipse, teremos imensos artigos e livros novos para ler.

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