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"Estamos quase no fim da epidemia da gripe" no Grão-Ducado
Sociedade 5 min. 03.05.2022
Entrevista

"Estamos quase no fim da epidemia da gripe" no Grão-Ducado

Joël Mossong é epidemiologista da Direção da Saúde e especialista no vírus da gripe.
Entrevista

"Estamos quase no fim da epidemia da gripe" no Grão-Ducado

Joël Mossong é epidemiologista da Direção da Saúde e especialista no vírus da gripe.
Foto: DR/Joël Mossong
Sociedade 5 min. 03.05.2022
Entrevista

"Estamos quase no fim da epidemia da gripe" no Grão-Ducado

Megane KAMBALA
Megane KAMBALA
Joël Mossong é epidemiologista da Direção da Saúde e especialista no vírus da gripe. Em entrevista explica porque é que a epidemia deste ano foi tão tardia no Grão-Ducado e a importância geral da vacinação.

O epidemiologista Joël Mossong fala sobre os casos de gripe que ocorreram no final do ano e a sua visão sobre as medidas que se devem ou não manter nos próximos meses.

Porque é que existe um atraso tão grande em comparação com o período habitual da epidemia de gripe? 

É muito provável que isso se deva ao facto de que ainda existiam muitas medidas que dificultavam a transmissão tanto da covid-19 como da gripe. Muitas pessoas usavam máscaras durante o inverno, para não mencionar o distanciamento físico que se verificou nos últimos dois anos. 

As pessoas evitavam muitas atividades e passeios porque tinham medo de  ficar doentes. Esta combinação de fatores fez com que vírus não seja transmitido como era antes da pandemia. Assim, a transmissão da gripe veio muito mais tarde. Começou quando as restrições contra a covid foram levantadas em vários países, incluindo o Luxemburgo.


Em que fase se encontra, então, a epidemia atualmente? 

Após uma primeira vaga que começou no final de Fevereiro/início de março e um pico epidémico de 1.200 casos por semana por volta de 20 de março, o número de casos tem vindo a diminuir desde as últimas duas semanas de abril. Estamos agora com cerca de 420-480 casos por semana, o que significa que estamos quase no fim da epidemia da gripe.

Tem havido algum precedente, algum período invulgar para casos de gripe?

Não, esta é realmente a primeira vez que uma epidemia começou tão tarde no Grão-Ducado, para não mencionar que no ano passado não houve casos durante o período habitual, o que também foi uma estreia. Para 2022, o surto começou em março, o que é inédito, visto que normalmente ocorre em fevereiro.

(...) a gripe é mais facilmente transmitida quando se é jovem. As crianças têm pouca imunidade durante os primeiros anos de vida e apanhar a gripe ajuda a fortalecer o seu sistema imunitário.

Fala-se frequentemente de uma diferença entre a gripe e um estado gripal. Qual é exatamente a diferença? 

É preciso distinguir entre o agente patogénico, que é o vírus da gripe, e os sintomas que causam aquilo a que se chama a doença tipo a gripe. A diferença fundamental entre os dois é, evidentemente, a intensidade dos sintomas. 

No caso da gripe, há uma febre muito alta acima dos 39 graus que se instala muito rapidamente, sintomas respiratórios, tosse seca, e sobretudo o facto de ter de se ficar na cama.

Um estado gripal pode durar vários dias, mas de uma forma mais moderada, o que não impede que se fique em casa e que se reduza a atividade.

Quais são os principais vetores [de contágio]? 

São exatamente os mesmas que para a covid: por via aérea e contacto próximo. Este ano foram sobretudo as crianças da escola primária que foram afetadas. Isto é lógico e normal, porque a gripe é mais facilmente transmitida quando se é jovem. As crianças têm pouca imunidade durante os primeiros anos de vida e apanhar a gripe ajuda a fortalecer o seu sistema imunitário.

(...) não devemos esquecer que o objetivo das vacinas é realmente prevenir e que isto continua a ser relevante.

As pessoas foram mais vacinadas do que o habitual este ano? 

Não tenho os números precisos para o Luxemburgo, mas li os dados da vacinação em França que são muito semelhantes. A taxa de vacinação contra a gripe é muito elevada este ano em comparação com o período pré-pandémico, mas paradoxalmente inferior à do ano 2021, que beneficiou de campanhas de vacinação simultâneas contra a covid e a gripe. 

Isto explica porque é que o impacto é atualmente muito limitado nos idosos, uma vez que o excesso de mortalidade devido à gripe não foi observado este ano nesta população. A vacinação do ano passado "amorteceu" até certo ponto o impacto. Normalmente, há sempre um período de 3-4 semanas de excesso de mortalidade devido a um surto.


O que se sabe sobre o recente surto de hepatite aguda em crianças
A doença matou uma criança e exigiu transplantes de fígado em pelo menos 17 outras em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Mais uma prova de que a vacinação tem muitas virtudes. Um assunto que voltou a ser posto em evidência após os casos de hepatite desconhecida em crianças... 

Na minha opinião, as recomendações de vacinação devem ser seguidas em todos os casos. Quanto a estas hepatites recentemente descobertas, as causas ainda não foram identificadas, estamos à espera de ver o que os especialistas irão encontrar. Mas não devemos esquecer que o objetivo das vacinas é realmente prevenir e que isto continua a ser relevante. É bom ter a certeza de que estamos atualizados. Podemos ver que algumas doenças estão a voltar tal como antes da covid-19, tais como o sarampo. Por isso temos de continuar a proteger-nos contra elas!

Como vê o futuro no clima atual? 

Eu diria que depende da vulnerabilidade de cada indivíduo. Algumas das medidas de barreira que introduzimos são úteis, mas temos de ver como vão durar ao longo do tempo. 

Neste momento, quando a pessoa não se sente bem, nada impede de usar uma máscara como precaução. A partir de agora não é certo nem errado usar ou não usar uma máscara, devemos aceitar e respeitar a escolha de cada pessoa de se proteger a si própria ou aos outros. Penso que a máscara ficará ainda por mais alguns meses.

É a favor de uma democratização das máscaras? 

Prefiro defender a medição dos custos e benefícios de acordo com cada situação. Mesmo o uso da máscara não resolve tudo, ela nem sempre esteve lá, e deve haver uma razão para tal... Não é preciso tomar precauções só porque sim, é preciso realmente torná-las úteis. Isso é algo que iremos determinar nos próximos meses. 

(Artigo publicado originalmente na edição francesa do Luxemburger Wort.)

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