Errado, parcial e incompleto

“Mário Centeno até poderia ser o ’Ronaldo’ da política financeira, como lhe chamou o todo-poderoso Schäuble, que isso não me faria a alma lusa corar de orgulho.”

Foto: AFP

Por Hugo Guedes - Sou orgulhosamente português e europeu (não necessariamente por esta ordem) e como tal desejo sempre o melhor para ambos, desejo esse fácil de conciliar – algo de bom para a Europa é também algo de bom para Portugal, e vice-versa. Mas nem sempre. Há minutos aconteceu uma dessas divergências.

O ministro das Finanças português foi escolhido para liderar o Eurogrupo, uma instituição europeia que, apesar de ser semi-clandestina (não tem regras de procedimento, não tem atas públicas, não é controlável democraticamente, pois não tem de prestar contas aos eleitores, não tem sede, e nenhum dos seus funcionários trabalha ali em exclusividade), detém muito poder – como os portugueses ou os gregos bem sentiram, ou sentem, na pele.

Mário Centeno até poderia ser o “Ronaldo” da política financeira, como lhe chamou o todo-poderoso Schäuble, que isso não me faria a alma lusa corar de orgulho. Por três ordens de razões: para começar, basta lembrar-me dos dez anos de Barroso na Comissão para confirmar que o facto de um português ocupar um alto cargo internacional não é garantia de nada de positivo (espero bem não fazer a mesma avaliação sobre Guterres daqui a nove anos).

Em seguida, há a possibilidade bem real de a solução governativa em Portugal, que tão bem recuperou a economia do país em dois curtos anos, se desmoronar, agora que as responsabilidades do ministro o levarão a ser cada vez mais centrista, irritando a ala mais à esquerda.

Finalmente choca-me a forma como foi feito o “negócio Centeno”: Portugal abdicou de procurar conquistar a sede da Agência Europeia do Medicamento, abandonando a candidatura portuense (senhora de alguns méritos e hipóteses) à sua sorte, para se concentrar na presidência do Eurogrupo. Só que para o país seria muito mais importante conseguir uma instituição permanente, e importante, como a EMA, do que um alto cargo transitório para um só homem.

Pouco importa. Centeno foi o mesmo homem que disse em 2014, no auge da depressão económica, que a Europa e o euro estavam a seguir por um caminho “errado, parcial e incompleto”. Mais importante que o orgulho é a esperança, e ter um keynesiano progressista à frente da nossa moeda comum deixa o meu lado europeu feliz e esperançoso em que a grande reforma do euro seja feita, que os interesses de todos os países sejam tidos em consideração – não apenas os “ricos do Norte” como até aqui –, que o orçamento da zona euro seja aumentado e o seu risco repartido. Em suma, que a conjuntura e otimismo actuais sejam aproveitados para virar a página e mudar para o caminho certo, total, completo.

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