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Envelhecimento. É preciso ver os idosos para lá dos números da covid-19
Sociedade 8 min. 11.02.2021 Do nosso arquivo online

Envelhecimento. É preciso ver os idosos para lá dos números da covid-19

Envelhecimento. É preciso ver os idosos para lá dos números da covid-19

Foto: AFP
Sociedade 8 min. 11.02.2021 Do nosso arquivo online

Envelhecimento. É preciso ver os idosos para lá dos números da covid-19

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A pandemia veio expor as fragilidades sociais do grupo mais vulnerável ao vírus.

Os idosos são o maior grupo de risco na pandemia provocado pelo vírus SARS-Cov-2. Em Portugal, que é um dos países do mundo com mais novos casos e mortes por 100 mil habitantes, mais de metade da mortalidade por covid-19 concentra-se acima dos 80 anos, tendo tido um forte impacto nos lares. As comorbidades associadas ao avançar da idade explicam esta tendência, que expõe a incapacidade dos países em lidar com sociedades cada vez mais envelhecidas e as fragilidades das organizações de cuidados sénior, face aos desafios trazidos pelo crescente envelhecimento.

É esse o apelo da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG), fundada em 1951. Em entrevista ao Contacto, Maria João Quintela, médica e vice-presidente da associação, começa por lembrar que as pessoas mais velhas não são apenas "recetoras passivas de cuidados, são participantes e estão maioritariamente capazes mas têm dificuldades para sobreviver, participar e manter a sua saúde porque, de facto, não tem sido posta a tónica na forma como nós um dia gostaríamos de ser tratados".

Os números desta terceira vaga e o novo confinamento fizeram soar os sinais de alerta para situações já graves e que terão tendência a agravar-se nesta altura, afetando os grupos mais vulneráveis, como os mais velhos. De acordo com dados recentes, em Portugal, meio milhão de idosos vive sozinho e a taxa de risco de pobreza acima dos 70 anos é de cerca de 17%.

Mais do que cuidar só na pandemia é preciso mudar a forma como vemos o envelhecimento.

Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia

 "Nós sabemos, desde há muito tempo, que os mais velhos, de entre os pobres, são dos mais pobres, genericamente. Sabemos que muitos, nomeadamente em habitações muito envelhecidas, não têm, também pelas suas parcas reformas, as capacidades de aquecimento (ou de arrefecimento, no verão). A pandemia veio tornar mais flagrantemente visível a insuficiente preocupação com os mais velhos e esta insuficiente preocupação diz respeito não só à saúde, porque a saúde é um bem-estar físico, económico, social, habitacional, de relação", sublinha a responsável.

Em termos de saúde preventiva, face à pandemia, Maria João Quintela defende a "necessidade de se estabelecer de facto uma vacinação em massa em relação aos mais desprotegidos e àqueles que contagiam ou podem contagiar mais, como é o caso dos profissionais de saúde e dos profissionais das instituições [de apoio aos idosos], porque estes são os que têm a população mais vulnerável lá dentro". Mas fora do campo do tratamento, há toda uma realidade que tem impacto na saúde mas que não é rentabilizada. "Muita gente que tem dificuldade em ir aos serviços, por mobilidade ou por outras incapacidades cognitivas, tem de ser tratada em casa", exemplifica. 

Por outro lado, considera que devia ser muito mais promovido o apoio domiciliário multidisciplinar, desde a área da saúde, passando pela nutrição, ao acompanhamento e sociabilização e à informação às famílias, enquanto principais prestadores de cuidados. "Quase que se deixou de falar de famílias para se falar só de cuidadores, mas as famílias são cuidadoras e são mais do que isso, são família, e estes familiares precisam de apoio e de know-how para minorarem o cansaço e a exaustão de cuidarem. Os serviços na comunidade são prioritários e as pessoas têm muita dificuldade em encontrar resposta, em muitas áreas do país, onde os serviços de apoio domiciliário da saúde integrados com o social não existem ainda."

Maria João Quintela, vice-presidente da SPGG.
Maria João Quintela, vice-presidente da SPGG.

A aposta numa gestão local articulada, com o Estado, destes serviços, que inclua, além dos ministérios da Saúde e da Segurança Social, a participação das autarquias, é um passo necessário, segundo a vice-presidente da SPGG, para se evoluir para uma saúde de acompanhamento de proximidade e em que as pessoas mais velhas passem a estar "no centro do sistema". Para isso, deveria ser também feito um mapeamento das suas necessidades, sobretudo nos grandes centros urbanos, onde há mais anonimato, e pensar em respostas multidisciplinares, à semelhança do que acontece com países como o Luxemburgo, onde a prestação de cuidados tem diferentes possibilidades de acompanhamento e há estruturas em rede. 

"[Em Portugal] Não há ninguém com mais de 70 anos, com um pós- AVC, uma situação de ligeiro défice cognitivo ou com problemas de mobilidade que tenha só um problema social. Tem um problema social, um problema de saúde, de mobilidade em relação aos transportes, de acessibilidade aos medicamentos, e se tiver pouco dinheiro isto acentua-se tudo." Maria João Quintela insiste que é preciso haver, na comunidade, uma rede montada e estabelecida, que permita criar um sistema articulado capaz de construir planos individuais de saúde, onde se incluam profissionais de saúde de diferentes áreas, e de cuidados diários, para que possa haver um acompanhamento em casa e para que "as entidades não empurrem [os idosos] umas para as outras".


Como a covid-19 avançou nos lares de idosos
A pandemia tem deixado um rasto de destruição nos lares de idosos um pouco por toda a Europa, assolados por surtos, com consequências muitas vezes mortais na população residente.

Os idosos não são "camas sociais"

No final de janeiro, o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, João Araújo Correia, revelava ao Público que 25% das camas dos hospitais estavam ocupadas com doentes que não precisavam de estar internados. Muitos não tinham condições em casa ou não tinham cuidadores. Realidade onde se incluem frequentemente idosos.

"É preciso olhar para o tecido mais velho português não apenas como número de camas, mas como pessoas, com necessidades específicas paras as quais o país precisa de se organizar, a nível nacional e a nível local", refere Maria João Quintela. Isso implica que se pense o setor social solidário da mesma forma que se pensam os hospitais e os cuidados de saúde primários, defende.

"A pandemia acabou por acelerar, de certa maneira, estas interligações absolutamente indispensáveis. Muitas vezes as medidas estão dissociadas entre a saúde e o social, o social tenta fazer alguma coisa mas não tem depois os meios da saúde disponíveis". A especialista lembra que até à pandemia, "os idosos eram vistos, tratados e retratados como camas sociais" e que "a pergunta que se colocava era para onde os mandar", quando não havia vagas nas instituições. "Verificou-se, com a pandemia, que não chega este raciocínio. As pessoas quando saem dos hospitais, nomeadamente as mais envelhecidas, trazem as comorbidades que levavam e podem ter dificuldades de variada ordem. Há que ter no terreno uma rede bem montada para que quando as pessoas tenham alta não a tenham só porque estão a ocupar uma cama num hospital, mas porque há condições efetivas na comunidade para a ter."

Por outro lado, Maria João Quintela considera que é preciso responsabilizar as famílias pelo abandono dos mais velhos e que os lares não podem ser encarados como depósitos de pessoas, defendendo a obrigatoriedade de visitas familiares e corresponsabilidade nos cuidados. "Há toda uma cultura face aos mais velhos e à idade que está cheia de estereótipos negativos, permissividades que quase rondam o crime mas que não são criminalizadas, e, portanto, as pessoas, justificando que não têm condições ou que não podem e que o melhor sítio para deixar os idosos são os hospitais ou as instituições de retaguarda, abandonam-nas."


Covid-19 identificada em 14 dos 52 lares de idosos do Luxemburgo
A covid-19 está presente em quase 27% dos lares de idosos do país.

Valorizar quem cuida

"Último reduto" para pessoas que não têm família, condições de habitação, cujos filhos estão emigrados, que não têm quem cuide delas, ou que estão simplesmente sozinhas, sem familiares, as estruturas para idosos, como os lares, veem-se a braços também com os poucos recursos financeiros e humanos. A vice-presidente da SPGG considera que para que as instituições possam prestar cuidados adequados tem de haver uma "capacitação financeira" e uma valorização profissional daqueles que cuidam. 

É preciso 'mudar o chip, não só em relação aos idosos mas ao modo como vivemos" e ver o envelhecimento "como uma conquista'.

Maria João Quintela, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia.

"Um dos grandes problemas é a rotatividade do pessoal, por isso também é preciso valorizar o trabalho com as pessoas idosas", numa realidade onde há também muitos voluntários e onde a exigência de cuidados sociais e de saúde cresce. "Quando falam em 'casos sociais' parece que as pessoas só precisam de estar ali, que não precisam de mais nada, mas não é assim". A isso acresce o facto de, em Portugal, estarem a ir cada vez mais tarde para essas residências e, consequentemente, mais doentes e dependentes. "A média de idades é altíssima, muitas vezes acima dos 80 e com vulnerabilidades muito grandes, e isso faz com que seja necessário um rácio de trabalhadores muito superior." 

Maria João Quintela considera que é preciso mais apoio do Estado, que delega nas instituições do chamado setor social, como IPSS e Misericórdias, o cuidado dos idosos. Um apoio que, segundo a médica, "tem de ser dimensionado de acordo com as novas necessidades de uma população muito envelhecida". Por outro lado, lembra que os lares são estabelecimentos coletivos, e que como tal têm de ter uma abordagem "por parte da saúde pública e das entidades locais e nacionais, muito diferente da que existe" atualmente.

Os mais velhos trazem valor

Apesar disso, os mais velhos não são apenas um custo, pelo contrário. "Até à pandemia e estarem confinados, tinham um valor económico extraordinário." São eles, ilustra a responsável, que usam os hotéis e as termas nas épocas baixas, viajam, fazem cada vez mais turismo, promovem as economias locais e cuidam dos netos. "Há toda uma pedagogia social que não tem sido feita relativamente aos mais velhos e o sofrimento que têm tido nesta pandemia é brutal." Pensar o envelhecimento requer olhar para o presente e para o que fazemos hoje, "mudar o chip, não só em relação aos idosos mas ao modo como vivemos" e ver o envelhecimento "como uma conquista".

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