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"A precariedade generalizada dificulta que os jovens se possam projetar no futuro"
Sociedade 12 min. 17.06.2021
Entrevista

"A precariedade generalizada dificulta que os jovens se possam projetar no futuro"

Entrevista

"A precariedade generalizada dificulta que os jovens se possam projetar no futuro"

Foto: DR
Sociedade 12 min. 17.06.2021
Entrevista

"A precariedade generalizada dificulta que os jovens se possam projetar no futuro"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Num tempo de incertezas multiplicam-se soluções comunitárias como forma de viver melhor, essas experiências provam que há outros caminhos para as sociedades humanas para além do capitalismo, defende o antropólogo João Carlos Louçã.

É antropólogo e investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É autor do livro, recentemente publicado, "Pensar a Utopia, Transformar a Realidade", em que analisa um conjunto de experiências comunitárias e alternativas às regras dominantes do capitalismo, na cidade do Porto e nos Altos Pirenéus de Aragão, em Espanha. Neste livro, de João Carlos Louçã, desfilam iniciativas tão diferentes como hortas comunitárias, criação de moedas locais, ocupações de espaço por coletivos, regresso e ocupação de campos abandonados, entre outras.

O que levou à escolha de esses casos em concreto, no Porto e nos Pirenéus, para a sua investigação de doutoramento?

A escolha do objeto de estudo partiu de uma necessidade minha de perceber onde é que havia sinais de esperança para a atividade política e para a emancipação social. Onde é que, para além das aparências da política imediata e institucional, poderia haver experiências em escala micro que funcionassem como polos aglutinadores e reservatórios de experiência social. Conhecia alguma coisa da realidade do Porto, conhecia algumas experiências à distância. No Porto foi um processo de bola de neve, umas pessoas falaram-me das suas circunstâncias e projetos e a partir daí surgiram outras com aquilo que faziam e as suas experiências.

Esta ideia de ser à escala micro tem que ver com as características do estudo antropológico, ou com a ausência de sinais de esperança à escala macro?

Tem que ver com as duas coisas: a antropologia e sobretudo o processo etnográfico pede sempre uma escala de proximidade, mesmo que a partir daí se possam retirar conclusões mais genéricas. A escala de proximidade é um dado de partida da própria etnografia, mas também foi importante a outra situação que aludiu: a invisibilidade e ausência de coisas em escala maior que nos dêem vontade de fazer coisas na vida.

Algo que coloca no início da tese, e está no prefácio da antropóloga Paula Godinho, é a sua forma de fazer antropologia. Enquanto faz este estudo nunca se esquece do seu lado militante e da sua vontade de transformar o mundo. Como é possível criar um equilíbrio entre aquilo que é ciência e ativismo político?

Sim, não me esqueço de onde venho. O lugar de onde vimos determina os nossos interesses e o que queremos fazer. Face à militância política, a antropologia, apesar de já cá andar há uns anos valentes, é um novo sítio. Como sabe há um debate, que não se restringe à antropologia, sobre a objetividade das ciências sociais. E claro que a escola da antropologia implicada no meu trabalho não é aquela que predomina, mas é aquela com que eu me identifico mais, que junta vários aspetos da vida. As pessoas não são investigadoras e antropólogas das 9 horas às 17 horas e depois vão para as suas atividades lúdicas, sociais e militantes. As pessoas são as mesmas. Pensam e fazem a antropologia às vezes em contextos militantes, lúdicos e de imaginação e criatividade social. Foi isso que eu procurei fazer.

Nunca sentiu que o desejo que as coisas corram de uma determinada maneira possa influenciar e desviar a análise dos casos estudados?

Não sei. As pessoas que me lêem são mais capazes de julgar isso. Sinto que não consigo diferenciar essas duas dimensões existentes em mim: a do investigador e da pessoa que se preocupa com assuntos da política e causas de natureza social. Numa etnografia com o tema sobre a vontade de emancipação, o futuro e a maneira como as utopias do passado se projetam no presente e determinam a actividade das pessoas, é natural que isso ajude o meu trabalho, a mim que também andei por aí pela luta e dimensão utópica. Não sei responder de outra maneira. Não acho que isso seja um problema do ponto de vista científico, embora saiba que muitos dos meus colegas não compartilham esse meu ponto de vista.

Vai parar ao Porto onde existe uma certa tradição que vai remontar a uma certa atitude histórica de revolta, a existência de uma certa influência anarquista. Esta tradição está mais ligada por um passado de recusa de uma real modernização capitalista, como um verdadeiro romantismo e um determinado individualismo de alguns trabalhos, ou ligada a uma ideia diferente de futuro?

Não tenho uma resposta taxativa para isso. Acho que o Porto, pela sua dimensão urbana, junta características que são de uma sobrevivência de uma estrutura rural do ponto de vista cultural e dos hábitos das pessoas, mesmo que sejam de populações que estejam na cidade há algum tempo, associadas a tradições agrícolas de pequena propriedade. Mas ao mesmo tempo à existência de um cosmopolitismo urbano bastante intenso e uma dinâmica associativa, cultural e de pensamento político também muito dinâmica. Estas características determinam de alguma forma o Porto. 

Embora eu creia que fosse possível fazer uma investigação destas em Lisboa, ou emoutras cidades maiores, em que os circuitos e os projetos fossem menos cruzados, no Porto, de alguma maneira, quase toda a gente se conhece nesses meios. A pequena dimensão torna-se uma vantagem do ponto de vista do conhecimento. Em relação ao passado, a referência ao 25 de Abril é algo de muito presente que ajuda a situar as pessoas politicamente, e foi um impulso para pensar o futuro. Isso não é uma característica do Porto, estou convencido que se investigasse estes circuitos alternativos em Lisboa essa referência também existiria.

Há um livro clássico sobre a história das ideias do movimento operário e socialista, "O Rumo à Estação da Finlândia", de Edmund Wilson, em que a certa altura se aborda milhares de comunidades utópicas que se formaram e existiram no século XIX. No livro fala-se do seu apogeu e queda com o desenvolvimento do capitalismo que vai ocupar muitos dos espaços livres, e pela ascensão das correntes marxistas não utópicas do movimento operário. O seu livro vai retomar, no presente, muito destas experiências comunitárias. Elas não desapareceram ou reapareceram?

É uma pergunta que me acompanha, mas o trabalho que fiz no Porto e nos Pirenéus não me permite responder a isso. Mas posso fazer uma tentativa. Essas comunidades como aconteceram no século XIX são resultado de uma estrutura ideológica precisa e variada em que pontificavam pensadores como Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier, que idealizaram modelos sociais e fizeram algumas tentativas de os levar à prática. Owen é aquele que vai levar mais longe, inclusive no tempo. 

Creio que ainda existem comunidades fundadas por seguidores do Owen nos EUA, naturalmente já muito alteradas, mas sobrevivem. Estas comunidades, que eu acompanhei no Porto e os Pirenéus, não são exatamente isto: não são comunidades resultado de uma construção ideológica. São mais comunidades impostas por necessidades objetivas, mesmo que haja também pessoas com determinados posicionamentos ideológicos. Há uma procura de responder a necessidades como o emprego, a sobrevivência básica, a terra, entre várias coisas. Acho que este tipo de comunidades sempre existiu e sempre existirão. Pessoas que se associam para responderem a necessidades concretas. E que procuram essa associação fora da lógica capitalista.

No entanto, dá a estas comunidades um sentido revolucionário que ultrapassa a simples sobrevivência de uma forma de economia informal. Dada a sua capacidade de contágio político que pode ser mais geral que o exemplo concreto. Contudo, alerta para duas questões: muitos, a exemplo das comunidades estudadas por Paula Godinho na raia, pretendem apenas escapar a determinadas realidades, como é o caso dos jovens que fogem para as terras dos Pirenéus; outros, como alguns ativistas que cita no Porto, deixaram de acreditar numa mudança global da sociedade. Como se conjuga isso tudo?

Há duas dimensões. Há aquilo que as pessoas me dizem diretamente sobre o que pensam, sobre o que fazem e o futuro, e há aquilo que eu analiso. No primeiro caso, há pessoas mais confiantes e optimistas e outras mais céticas, mesmo em relação àquilo que fazem. Alguns manifestam certas reservas quanto à existência de mudanças de caracter mais global. 

E depois há a dimensão da minha interpretação, como qualquer interpretação pode estar errada, mas é aquela que me parece mais relevante para abordar aqueles casos. Sobre isso, aquilo que me pareceu, quer no Porto quer nos Pirenéus, mesmo em projectos com relativo isolamento geográfico e social, é que há conexões profundas que vão mais além desses projetos. Hoje, a globalização, para o bem e para o mal, conectou mais as pessoas. Não é pelo facto de se estar numa montanha que não se tem os meios de saber e de se ligar a outras pessoas. No caso dos Pirenéus vê-se que esses projetos se conectam com a sua realidade circundante e com aquilo que se passa no resto do Estado espanhol, e até com outros países.

Daí a sua referência teórica aos zapatistas do México, em que uma rebelião local de indígenas usa instrumentos globais para sobreviver localmente e mudar também globalmente. Como criam formas de uso da terra comunitárias e não capitalistas.

Exatamente, são esses instrumentos que ajudam as pessoas que estão nessas aldeias perdidas dos Pirenéus a pensar a sua própria realidade, a relação com a terra e com os outros, e como é que se organizam para produzir e distribuírem essa produção. No fundo, como concretizam a economia comum. Tentei que o aspeto económico me fosse conduzindo no trabalho. Perguntei às pessoas como é que produziam e distribuíam o resultado do seu trabalho. O facto de estarem afastados no tempo e na geografia também ajuda essas formas diferentes de encarar a economia. Mas respondendo à questão: não há aqui escapismo puro, não há aqui uma comunidade de pessoas que vive fora do mundo num isolamento perfeito. Isso não existe nem creio que seja procurado. 

Há muitas formas híbridas em que as pessoas fazem umas coisas nos mercados informais e compatibilizam estruturas cooperativas para a sua distribuição, para encontrarem trabalhos remunerados que possam ser realizados por vários. Há muitos casos que comprovam o hibridismo destas comunidades que parecem isoladas, mas que se relacionam muito entre si e com o mundo. Há pessoas destas comunidades que produzem um dos mais importantes festivais de cinema etnográfico, numa pequeníssima vila com dois mil habitantes, com gente de todo o mundo a apresentar os seus trabalhos. Mas é verdade que ninguém parece esperar uma revolução que mude, de um momento, o poder do Estado para as massas trabalhadoras.

A multiplicação dessas experiências, que afirmam a possibilidade de existirem zonas em que as regras da economia global, liberal e capitalista não impera, não se deve ao falhanço total de uma política alternativa em relação ao Estado e ao poder?

Essas iniciativas expressam uma desconfiança em relação ao Estado e ao poder e provavelmente devido ao facto dos instrumentos de disputa de poder não serem considerados por essas pessoas como eficazes. Como por exemplo, as eleições e o trabalho dos partidos políticos. Mas a participação desses ativistas em movimentos sociais amplos, algo de muito comum nas pessoas estudadas no Porto e nos Pirenéus, também demonstra a posição sobre os problemas globais que vai para além das respostas a nível local. Essas respostas locais podem ajudar a mudar as realidades das pessoas à sua volta, mas elas querem também mudar as coisas em termos mais globais.

Como é possível haver uma transformação global se as pessoas não acreditam nisso?

Há um grau de desilusão que não é igual do ponto de vista geracional. É diferente para pessoas da minha idade, e para pessoas entre os 20 e 30 anos. Mas não há uma desistência, no sentido 'agora vou tratar da minha vidinha e da horta'. As pessoas procuram alternativas que lhes permitam ter uma vida mais confortável, mas que mantenham princípios básicos das relações com os outros, sobre o seu próprio trabalho, e a integração dos outros nas actividades produtivas. 

Continuam conscientes das limitações do capitalismo, mesmo que não acreditem que ele possa, de um dia para o outro, ser substituído por outra coisa qualquer. Essa ideia da hegemonia do capitalismo é muito forte. Existe em muita gente a conceção do capitalismo com estádio último da organização social e económica das sociedades, a perfeição possível. É uma ideia poderosa que eu tento desmontar com esses exemplos etnográficos. Na verdade essa hegemonia do capitalismo, pelos quatro cantos do mundo, não é nem tão hegemónica nem tão antiga.

No seu livro, cita autores que consideram que nem sequer é obrigatório que se tenha seguido este caminho.

É o Josep Fontana, historiador catalão, que tem um livro extraordinário que diz que na altura do Congresso de Viena, há 200 anos, estava tudo em aberto. Não foi a máquina a vapor que criou o capitalismo, foi a acumulação de conhecimentos nas classes trabalhadores da altura, os pequenos artesãos, em oficinas que inventaram, inovaram e criaram conhecimento que o capitalismo se apropriou. Mas nessa altura, estava tudo em aberto, as formas de organização social e do Estado. O capitalismo, do ponto de vista da história da humanidade, é um sistema muito recente e as suas limitações são muito visíveis.

Apesar disso, é um sistema que vive bem em crise permanente.

A crise faz parte do sistema, mas até quando isso poderá continuar assim, não sabemos.

Este tipo de respostas, que aborda no teu trabalho, são mais naturais para as novas gerações, dado que vivem numa situação de absoluta e permanente precariedade?

A precariedade como marca crescente do sistema de mercado de trabalho, nas últimas décadas, é um ponto de partida muito relevante para as novas gerações. A precariedade generalizada dificulta que se possam projetar no futuro. E esses planos em que as pessoas se envolvem são formas de conseguir projectar o futuro para além dessa precariedade. Mesmo que muitos desses planos sejam eles próprios pouco duráveis. Mas mesmo esses fracassos deixam um lastro de experiência acumulada, e deixam raízes nas coisas que depois as pessoas querem fazer e nos projectos que acalentam.


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