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Entre o ódio e a esperança
Editorial Sociedade 2 min. 30.05.2019

Entre o ódio e a esperança

Entre o ódio e a esperança

Caricatura: Florin Balaban
Editorial Sociedade 2 min. 30.05.2019

Entre o ódio e a esperança

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O combate ao crescimento dessa intolerância larvar apenas pode ser feito com o aumento da justiça e da igualdade de oportunidades e de acesso ao poder de todos. Só a democracia e a justiça social podem destruir o discurso da criação dos bodes expiatórios da miséria.

Num livro chamado a “A Idade da Regressão” faz-se a análise de um tempo complexo em que o planeta parece caminhar para a vertigem da destruição com o agravar da crise ecológica, ao mesmo tempo que, um pouco por todo o lado, rebentam os ódios, o racismo e a xenofobia. Nessas páginas, o recentemente falecido pensador de origem polaca Zygmunt Bauman mostra-nos que o medo tem uma origem que se perde na origem do tempo e que a história pode sempre repetir-se com os seu lastro de tragédias. Para isso recupera a imagem do anjo da história de Walter Benjamin, em que se alude ao facto que é necessário mudar o passado para ter outro futuro. Escolher os rios da história que nos emancipam e libertam e não aqueles que nos vão enredar em conflitos que mantêm as cadeias da nossa opressão.

“Há um quadro de Klee que se intitula Angelus novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. Tal deve ser o aspeto do anjo da história. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as joga aos seus pés. Ele gostaria de deter-se para despertar os mortos e reunir os vencidos, mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”, escreve Walter Benjamin.

O medo e o ódio são tão antigos como a injustiça".

As eleições europeias demonstraram que continuamos enredados numa história antiga. As crises rebentam e soam discursos simplistas que fazem dos ódios pelo estrangeiro, seja o judeu em 1930 ou os migrantes e muçulmanos na atualidade, o garante da manutenção no poder daqueles que nos levaram ao desastre.

O medo e o ódio têm raízes tão antigas como a injustiça e a desigualdade. Como escrevia Umberto Eco: “A intolerância existia antes de qualquer doutrina. De certa maneira, tem raízes biológicas”. A doutrina xenófoba e racista explora, portanto, as inseguranças e um fundo de medo pré-existente.

Nestas europeias, ao mesmo tempo que cresceram os elementos sombrios do velho continente, cresceu em muitos a perceção que é preciso mudar o nosso modelo económico e de vida para poder impedir o crescimento desmesurado das mudanças climáticas que colocam toda a vida no planeta em causa.

Nos dias que antecederam os votos, muitos jovens saíram às ruas de milhares de cidades do mundo. Dizem que querem futuro e que para isso são precisas mudanças radicais, já. É uma contagem contra o tempo. Mas essa é a única esperança.

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