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Ensinar o coração a falar
Opinião Sociedade 5 min. 07.11.2021
Dicas/Educação

Ensinar o coração a falar

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Ensinar o coração a falar

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Sociedade 5 min. 07.11.2021
Dicas/Educação

Ensinar o coração a falar

Todas as emoções são do mais instintivo que temos e são fundamentais, mesmo aquelas que ao sentir não são tão agradáveis, pelo que importa aceitá-las como tal e aprender, bem como ensinar, a geri-las…

(Alexandra Brito [professora] e Ana Cristina Barbosa [psicóloga])

Na semana passada começámos a falar de algo inelutável nos seres humanos: as emoções. Elas são uma espécie de semáforo interno automático que temos, mesmo antes de nascer, e que ativa rapidamente o nosso corpo para reagir ao meio de forma a tentar assegurar a nossa sobrevivência. Por exemplo, em situações percebidas como ameaçadoras acionam-se os mecanismos de medo, que nos mantêm alerta e em prontidão para evitar o perigo. Por outro lado, em situações de perda ou separação ativa-se a tristeza e com ela a necessidade de sermos confortados pela nossa "tribo". 

Já os processos da alegria acontecem quando estamos perante coisas que nos fazem sentir bem e que, assim, passamos a querer que se repitam. A raiva, por muito impopular que seja, é ativada em situações percebidas como de injustiça, de grande frustração e contrariedade, tendo como objetivo fazer-nos lutar contra quem ou o que nos está a instigar. Com o nojo, estamos a ser avisados de coisas que, pelo paladar, textura, aspeto ou odor, podem ser desadequadas ao nosso consumo ou proximidade - lá está, a repulsa a alimentos verdes e amargos não é um complô organizado das crianças de todo o mundo! 

Claro que algumas destas emoções, principalmente na infância, vão ser despoletadas com ou contra coisas que, com a experiência, vamos aprender que, apesar de não aparentarem, são importantes para nós (caso dos legumes, por exemplo) ou, apesar de serem deliciosas, nos fazem mal em excesso (caso por exemplo dos doces), que apesar de serem assustadoras, à partida não nos fazem mal (exemplo do escuro), e mesmo implicando contrariedade, podem ser para nosso bem no futuro (como estudar), etc. No entanto, aprender que as aparências iludem demora e nem sabemos se, mesmo nós, já aprendemos bem a lição.

Estas são só umas pequeníssimas amostras de como funcionam as nossas emoções e do porquê de existirem. O resumo disto será perceber que todas as emoções são do mais instintivo que temos e são fundamentais, mesmo aquelas que ao sentir não são tão agradáveis, pelo que importa aceitá-las como tal e aprender, bem como ensinar, a geri-las… porque dizer de fora para não se sentir, no mínimo não resulta, mas até pode agravar com o acumular de sensação de incompreensão.

Como dissemos na crónica anterior, a parte do cérebro responsável por controlarmos os comportamentos mais impulsivos engatilhados pelas emoções, e passarmos a tomar decisões ponderadas antes de agir, está em desenvolvimento até aos 21 anos. Até lá será determinante a forma como aprendemos a gerir as emoções; para isso a linguagem vai ser fundamental.

Assim, no caso das crianças mais pequenas, e numa fase pré-linguística ou de linguagem muito rudimentar, como se começa a ensinar a gerir emoções? Primeiro com empatia e calma, muita calma, para ensinar de pequenos com o modelo. Se estão tristes, chateadas, frustrados, com medo, reconhecer-lhes o direito a assim estar é essencial, não nos zangarmos nós por isso, nem mostrar desprezo pela emoção expressa é muito importante. Isso não quer dizer fazer as vontades, entenda-se bem. Significa confortar, ajudar a acalmar e eventualmente distrair, facilitando a passagem para outra emoção.

A partir do momento em que começam a usar a linguagem de forma mais fluída, é a altura de começar a falar das 5 emoções básicas, fazendo uso dos muitos livros infantis que existem a este respeito. O objetivo é começar a encorajar as crianças a reconhecer as emoções em si e nos outros, dando-lhes nomes e rosto. No pico da emoção as crianças poderão, principalmente no início, não estar ainda em condições de nomear o que estão a sentir, mas sendo ajudadas a falar sobre isso consistentemente depois de se acalmarem, será um bom prognóstico para o futuro.


Quem vê caras não vê corações
Desde cedo ensinaram-nos que deveríamos esconder e "controlar" algumas emoções específicas, normalmente aquelas que associamos a coisas negativas como a tristeza, a raiva ou o medo.

À medida que vão crescendo, devemos ajudá-los a continuar a conhecer e identificar as suas emoções, aumentando gradualmente o seu vocabulário para a variedade da paleta emocional - a alegria será umas vezes êxtase, outras mera satisfação ou contentamento; o medo, pode ser pavor, receio, angústia, horror. Para além de dar nome, é imprescindível, ao mesmo tempo, ensinar a reconhecer em cada um os sinais corporais de cada emoção - “o meu coração está a bater forte, a respiração está ofegante, os meus músculos estão tensos, a minha voz descontrolada…. estou a sentir uma fúria enorme”. Esta auto-observação, que se aprende a fazer, ajuda a interromper os impulsos e reações automáticas.

Depois torna-se conveniente explorar diferentes formas de exteriorizar cada emoção e exprimi-las por palavras e atos, sem que se faça mal aos outros, nem a nós próprios ou ao ambiente: escrever, rasgar papel, gritar para uma almofada, ouvir música, apertar bolas de relaxamento… cada pessoa deverá encontrar o que funciona bem para si.

Em seguida, importa praticar, primeiro em modo faz de conta - “Vamos fingir que estamos furiosos, como fazemos? Experimentamos apertar os punhos e rosnar? ajuda? Experimentamos apertar com toda a força uma almofada?”

Os adultos devem, como sempre, dar o exemplo e, quando acontece uma dada emoção, fazê-lo passo a passo acompanhando a criança no processo. Só depois de sair do pico da emoção com estas estratégias, será possível começar a conversar e analisar as situações de diferentes perspetivas.

Assim, desta forma, ajudamos o coração aos poucos e poucos a aprender a falar!

 

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