Escolha as suas informações

Engarrafamento de estrelas
Opinião Sociedade 5 min. 16.12.2020

Engarrafamento de estrelas

Engarrafamento de estrelas

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 16.12.2020

Engarrafamento de estrelas

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Cientistas estão preocupados com o excesso de satélites no espaço. Porque podem provocar um acidente, mas sobretudo porque comprometem o brilho das estrelas. Para o humano, o mundo já não chega. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

No novo filme de Steven Soderbergh, "Let them all talk", uma das personagens conta que o magnata sul-africano-canadiano-norte-americano Elon Musk enviou tantos satélites para o espaço que se parecem tão exatamente a estrelas que já não saberemos distinguir entre o brilho de uma estrela de verdade e de uma estrela fake.

Elon Musk é, claramente, uma estrela fake: seria interessante perceber por que o levam ao colo como o novo Steve Jobs – os media sempre amaram empreendedores self-made que, entre golpes de estado em países do Sul Global e impérios de valor acrescentado à custa de exploração laboral no limite da lei, conseguem ficar para a história contada pela Hollywood de estrelas cadentes. Um pouco como no filme do Soderbergh. Ou como obituários de banqueiros e empresários, que tanto o Expresso como o Público têm guardados na manga, com muitas páginas de apologia e lamento: os Amorins, os Azevedo, os Mello, grandes famílias do dinheiro que conseguiram tudo (de hospitais a supermercados) com muito suor e esforço, porque foram bons patrões, visionários. Quem ficou cá em baixo, na terra (ou no fundo da tabela salarial), nunca soube distinguir entre o brilho das estrelas de verdade das estrelas fake.

Para Musk, 'the world is not enough'. O seu projeto de mega-constelações, Starlink, com centenas de satélites para garantir "internet aos países pobres", parafraseando a "generosidade" (em mais de 200 máquinas brilhando no espaço com pás de plástico que refletem luz solar), levou cientistas a falar com preocupação de um "engarrafamento de estrelas", de potenciais choques provocados pelo excesso de satélites, com consequências ainda desconhecidas. Mas um recente artigo no Guardian falava das "implicações culturais" desse trânsito, qual nó de Francos em hora de ponta: "Talvez nunca mais possamos experienciar a visão do cosmos silencioso e tranquilo a olho nu."

Talvez sejamos a última geração, diz Diane Wiest no filme de Soderbergh, a ter visto um céu cheio de estrelas de verdade. No Guardian diz-se algo semelhante pela voz de Alice Gorman, especialista em arqueologia e herança espacial, na Austrália. Quem precisa de estrelas de Hollywood quando "arqueologia do espaço" se tornou um campo emergente do saber, estudando restos de órbitas de corpos celestes e vestígios humanos deixados no espaço numa montanha fenomenal de detritos?

"Dentro de algumas gerações, não haverá ninguém vivo que se lembre do céu antes da existência destes satélites. Terão crescido com Starlink e outras mega-constelações como a sua concepção do céu noturno." Esta é uma mudança radical, diz Gorman: "Uma das razões por que as pessoas valorizam o céu noturno é o facto de nos dar uma sensação de transcendência e ligação com o universo, inspirar-nos a contemplação sobre o sentido da vida e a escala massiva das estrelas e galáxias. Essa parece ser uma experiência que as pessoas realmente valorizam ao ponto de muitos discutirem que o direito a um céu noturno é um direito fundamental do ser-se humano", diz a cientista.

Soube-se que, dia 21, os planetas Júpiter e Saturno vão estar de tal modo alinhados como não se via há 800 anos. Não são estrelas, mas daqui veem-se enormes e brilhantes, como, dizem, os Reis Magos os terão visto há 2020 anos, no que é vulgarmente conhecido por Estrela de Belém. Fico agarrada à ideia de Gorman, do direito ao céu noturno: hoje, viver numa cidade é quase sinónimo de impossibilidade de contemplação estelar. Em Edimburgo é improvável verem-se auroras devido ao excesso de luz. É preciso ir para lugares com pouca luz, a norte, para que a aurora se nos apresente a olho nu. Se fosse hoje, os Reis Magos nunca teriam encontrado Jesus: não saberiam se a super-estrela (que afinal eram planetas) não seria um dos satélites de plástico do Elon Musk.

Talvez a homofonia possa responder a estas questões: na semana passada, a água passou a ser cotada em bolsa como commodity, à semelhança do ouro ou petróleo. Isto é, recurso cuja cotação é especulativa e cuja transação em bolsa pode determinar o seu valor real ao nível da sua extração/utilização, podendo contribuir para rankings de reservas, indexação de preços segundo oferta e procura, ou até invasão de territórios por potências estrangeiras caso o país não seja aliado político, como acontece com o petróleo.

A linguagem é de investimento de risco em alta finança. Vejamos a forma distópica como a Lusa deu a notícia: "Agricultores, hedge funds (fundos especulativos) e municípios poderão apostar contra ou a favor da escassez da água. Os contratos ajudarão os utilizadores a gerir o risco e a alinhar melhor a oferta." Contra ou a favor da escassez: para quando fundos especulativos sobre a gestão de risco do ar? A favor ou contra a fome? Ou a gestão do risco da vida? Se fosse hoje, José e Maria poderiam ter cobrado caro por aquele copo de água que ofereceram a Melchior após a travessia do deserto. Parece que o engarrafamento de estrelas poderá estar mais próximo do que prevíamos – já o engarrafamento de água está prestes a tornar-se o último luxo dos humanos.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)  

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.