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Em 2021, que volte o livre-arbítrio
Opinião Sociedade 3 min. 30.12.2020

Em 2021, que volte o livre-arbítrio

Em 2021, que volte o livre-arbítrio

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 30.12.2020

Em 2021, que volte o livre-arbítrio

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Burocratizávamos comportamento que nos definem como seres humanos. Já a liberdade universal, em nome da qual se sacrificava a escolha moral livre, continuava a ser a mesma miragem distante.

 Quando se estuda o regime nazi, não há como não questionar de que forma as pessoas do dia-a-dia, dos serviços, das receções, dos cafés, aderiram a uma loucura coletiva e dormiam, ainda assim, à noite. Que tipo de desculpas davam a si próprias. Não podemos partir do pressuposto que tinham inculcado nas células um tipo de mal que não nos habita, que seriam elas menos humanas do que nós somos. 

Um estudo recente dá algumas pistas ao indicar que o regime nazi foi implementado como um processo industrial ao estilo do fordismo: cada um fazia uma pequena tarefa – por vezes inócua ou relativamente prejudicial – mas em conjunto construíam uma arma. Para além disso, cumpriam a lei. Pelo caminho, viviam o adormecimento moral.

A pandemia exacerbou um paradoxo: obedecemos a cada vez mais regras (e quando as regras não chegaram, passámos a cumprir leis) e somos cada vez mais irresponsáveis. Esta questão já me atormentava no mundo pré-covid. Em nome da civilidade, vínhamos – de ano para ano – a criar leis em cima de leis que legislavam (e limitavam) as nossas pequenas liberdades individuais. Estas serviriam, naturalmente, uma liberdade maior e coletiva e tornar-nos-iam cidadãos exemplares: apanhar os dejetos dos cães com um saquinho de papel, não fumar em espaços fechados para cima dos outros, não pichar paredes, não expetorar para o chão, colocar o cinto de segurança, atravessar na passadeira, fazer reciclagem. Comportamentos de saudável convivência vertidos em decretos, publicados em Diário da República, com regimes sancionatórios apensos. Cada tema tornava-se uma pequena cruzada e ganhava lugar no espaço público enquanto discutido através de computadores fabricados por mão de obra infantil. Já as grandes causas perdiam adeptos, defensores ou espaço mediático. O cumprimento da lei dava-nos uma certa paz de espírito, o livre-arbítrio ficava em desuso e a irresponsabilidade imperava, porque só há responsabilidade quando há liberdade e esta estava tomada pela mais pequena proibição.

 Legislámos aquilo que a empatia tende a gerar espontaneamente, quando valorizada. Burocratizávamos comportamento que nos definem como seres humanos. Já a liberdade universal, em nome da qual se sacrificava a escolha moral livre, continuava a ser a mesma miragem distante.

A pandemia exacerbou esta tendência e passámos de máquinas programadas a exércitos programados. Há enormes vantagens em marcharmos no mesmo compasso quando enfrentamos o inimigo invisível, mas pelo caminho perdemos sentido crítico, pastoreados por regras e procedimentos explícitos e regularizados.

Da mesma forma, a criação de burocracia em torno de princípios imorais capacita a sociedade para agir de forma automática e apertar o parafuso que constrói coletivamente a arma. 

A burocracia é uma ideologia, talvez das mais evidentes, das com mais seguidores e transversal a todas as outras. Como uma ideologia tem regras que filtram e simplificam a realidade e que, de alguma forma, justificam os atos de todos, tornam a nossa consciência mais leve e adormecem-nos moralmente. 

A primeira regra da ideologia burocrática é o peso da palavra escrita, do papel, do documento, da lei. Para o funcionário da burocracia (não somos todos?) a desculpa moral é o papel e a palavra escrita o paliativo da amoralidade. 

Este é o verdadeiro perigo, porque quando deixamos de questionar também podemos ser capazes de colocar judeus em campos de concentração.

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